sexta-feira, 23 de julho de 2010

Vilania

Eu, aqui, na décima taça de um vinho que eu nem sei o gosto, enquanto luto já débil e quase desfalecido para preservar as dilatadas e arruinadas pupilas dos primeiros raios de um sol que desflora vilmente o horizonte impudico de Veneza, fazendo um enorme esforço para abafar da mente aguda os pobres versos de um esteta que a pouco insistia em fazer-me vibrar tanto quanto ele os prazeres de uma vida que eu nem sei se algum dia foi possível, pergunto: já não basta? Não, eu não sou a vítima que você quer fazer de mim; eu mesmo degolo cordeiros e nem acho isso muito correto, mas cumpro fielmente um dever e um prazer em mim ensinado, com o qual vou  alimentando esse interminável cerimonial em que as pessoas pagam para ver e serem ouvidas, quando o melhor seria atirarem-se de vez em uma lata de lixo e fazer um favor a essa maltratada cidade. Quero dizer, já não é o suficiente aquilo que eu mesmo me faço passar, pousando de consorte em carros cujo funcionamento mecânico sequer me interessa, quanto mais me fascina, testemunhando sorrisos de gente feia, mas que por algum motivo acham-se importantes e indispensáveis para o movimento rotacional do planeta, tendo que relatar pela centésima vez o esplendor de viajar-se às terras insossas da Escandinávia, como se houvesse algo de glorioso ou heróico em encher a boca de dinheiro de alguns funcionários quando se está enjoado do verão meridional? Por favor... Vem cá, você acha mesmo que existe outra maneira de conjugar-se o verbo "humilhar" sem ser na voz reflexiva? Ninguém banca a ração diária de jornalistas medíocres para chegar em segundo lugar... Entenda, não há novidade que possa sair de uma moita que já não tenha me vindo o cheiro às narinas, tampouco existe algum chapéu ridículo que eu mesmo não o tenha tomado das mãos da estilista e desfilado pelas ruas infestadas de gente preguiçosa e agônica do próximo prato de sopão como se fosse o arauto de algum deus cômico. Quem traiu, com quem traiu, como, onde... Pouco me importa do chiclete grudado na sola de meu sapato se eu sei muito bem que aonde quer que eu flane com meus mais nobres pensamentos e emoções a barbárie me acompanhará arrastando seus trapos ranhentos pela lama da calçada a despeito de minhas tentativas em desvencilhar-me dessa maltrapilha atirando-lhe alguns centavos e um sanduíche de presunto. O que você quer pela sua história? Risadas eu não as tenho; há muito as empurrei em um vagão para dentro de uma mina abandonada, e, francamente, não sei dizer se já chegaram a algum tipo de fundo... Compaixão? A pouca que eu tenho eu guardo para mim e para o pianista do restaurante que, tenho de reconhecer, faz o que pode por não deslizar os dedos pelo teclado mais rápido do que podem acompanhar os cérebros abotoados da comida gordurosa que ali se engole. Só não arremesso moedas porque não quero fazer mais um símio. Mas não precisa ir embora. Fique aqui comigo. Tome dessa taça e aprecie - porque não há nada na sua vida que valha uma precipitação - a cidade acordar já empanturrada de uma faina que sequer começou e não tendo melhor panegírico sobre seus canais sinuosos e avermelhados do amanhecer do que o de gordos e velhos turistas atraídos pelos pacotes promocionais.

PS: É pra ler na voz e entonação de um vilão do nível de Odete Roitman, pufavô!

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Experimento com buracos-negros I

Agora eu lhes pergunto: o que acontece quando dobramos a malha espaço-tempo sobre si mesma? Acreditamos que a curiosidade humana desconhece barreiras, e, por tal, não devemos criar-lhe empecilhos. Muita literatura já foi gasta tentando imaginar as fantásticas experiências que tal fenômeno poderia proporcionar. Mas, hoje, estamos prestes a dar um passo mais além. Da mera hipótese, da vaga nuvem em que se deliciam os fãs de ficção científica, faremos brotar esse antigo sonho em uma realidade concreta e palpável bem ali, naquela área central de nosso laboratório, cuidadosamente preparada para suportar os terríveis efeitos de nosso experimento. Isso mesmo! Nós conseguimos e estamos prontos para testar o BurAcO-NeGro. Após meses de intenso estudo e trabalho, conseguimos criar uma máquina capaz de gerar, de forma artificial, pequenos buracos-negros que poderão conectar nossa realidade espaço-temporal a uma outra inimaginável, perdida em algum longínquo ponto do universo. Aviso, desde já, que o que faremos aqui não é nenhuma brincadeira, mas um experimento científico muito - mas muito mesmo - caro [risadas sacanas]. Portanto, tenham cuidado, leigos, e mantenham-se atrás da linha vermelha, pois os resultados podem ser catastróficos.

Em primeiro lugar, informo que o fato de trabalharmos com buracos-negros é devido ao nosso desconhecimento de outra maneira de deformar-se drasticamente a malha espaço-tempo de forma a fazê-la dobrar-se sobre si mesma como uma toalha qualquer. Sua espetacular concentração de massa em um ponto infinitesimal provocará o que chamamos de wormhole [ele quis dizer "buraco-de-minhoca"], fazendo com que a matéria viaje de um lugar ao outro em um curto espaço de tempo e... Bom, todos nós sabemos como os buracos-negros são **mágicos**, e temos absoluta certeza de que, quando ligarmos nossos geradores de energia citoplasmática (quântica, cibernética, como era mesmo?), o buraco-negro criará um portal autônomo e tangente à nossa dimensão, onde haverá simultaneamente a ocorrência de um fenômeno do passado e um do presente. Eu chamo isso de "dimensão passado-presente". Acho que maiores explicações serão desnecessárias. Peço apenas que apreciem o que deverá ser uma das mais fascinantes experiências que o ser humano já teve. Observem: vou ajustar os dispositivos de maneira que se crie um wormhole entre o ano de 75 d.C., na província romana da Judéia, e o centro comercial de Nova York. Ah! - sim -, queiram saudar a nossa convidada e voluntária especial, que conduzirá as relações da melhor forma com quem quer que surja no portal. Todos prontos? Sim? Então... ligar!

[Os geradores começam a funcionar espalhafatosamente, produzindo muitos ruídos, faíscas e fumaça. Uma enorme esfera é criada no centro do laboratório; inicialmente de intenso negro, começa a variar em muitas cores, até que começa a tomar definição, dando a ver a um mundo de coloração verde e de excêntricas formas. Surge, então, um gato alienígena de aspecto monstruoso no portal, lutando por escapar do campo magnético do wormhole aberto: "Huhuhumumamumamua! - gargalha o estranho felino de olhos cruéis e famintos de maldade. Finaaaalmente localizaaaaamos a posição da Teeeeerrrrra!!! Huhuhuhmuamua! Deixem-me saiiiirrrr! Deixem-me saiiiiiirrrrr! Preparem-se terráqueos, pois o seu fim está próóóóximo! Nossas trooop...Fiiiiisht! Miaaaaaar". O wormhole se fecha bruscamente sobre seu corpo delgado, provavelmente transformando-o em um espaguete de comprimento quase infinito].

Desculpem-me, deve ter havido algum erro. Vejamos... Ah! - sim -, sem querer a chave do painel havia escorregado para "mundos alienígenas hostis". Não se preocupem. Logo estará tudo resolvido. Um ajuste aqui, outro lá... Ahá! Pronto! Interligados o centro comercial de Nova York e a província de Judéia. Observem, meus pequenos! Observem!

[Os geradores começam a funcionar novamente. O portal se abre e por ele aparece um soldado romano caminhando calmamente ao longo de uma via orlada de oliveiras. Formas fantasmagóricas de nova-iorquinos começam a aparecer e caminham em sua direção: sem o ver. Ele, então, estaca assombrado com aquelas estranhas miragens, aprumando sua espada e escudo em posição de alerta. A voluntária, cheio de expectativas e retomando tudo aquilo que havia decorado, prende a respiração e adentra no portal:

- Ave, romano! Eu vim do fut...
- Tome isso, demônio! - grita chutando a terra e fazendo arremeçar uma nuvem de poeira contra o rosto da cientista. O romano larga a espada e o escudo no ar e lança-se aos tropeços colina abaixo.
- Aaaaah! Meus olhos! Meus olhos! Eles doem! Eu não enxergo a luz! Tirem-me daqui! Tirem-me daqui! Aaaaah!

O portal se fecha novamente. A cientista volta esfregando os olhos empanados de terra com as costas das mãos. Vários médicos acercam-se e levam-na às pressas para a ala hospitalar. O diretor abana a cabeça e volta-se novamente para o grupo de alunos, aliviando um longo suspiro pelas narinas].

Bom, acho que posso chamar isso de... incidente diplomático. Nossas técnicas, é claro, estão em fase de experimento. Talvez se tentássemos em uma época mais próxima, como os anos 60... De qualquer modo, deixo já avisado que todos os envolvidos com este projeto sabem dos riscos envolvidos, e assinaram, para tanto, um contrato onde declaram estar cientes e de acordo com as conseqüências que podem advir. Talvez tenhamos subestimado a capacidade dos antigos povos em lidar com o desconhecido e com o fabuloso. Apesar do ocorrido, não devemos desistir. Isso, é claro, são apenas algumas deficiências de nosso experimento que, aos poucos, iremos superar conforme formos aprendendo sobre a interessante reação das pessoas do pretérito. Como medida cautelar, todos vocês deverão permanecer de quarentena nos subterrâneos do laboratório, até que possamos certificar-nos de que estão saudáveis e livres de qualquer contaminação radioativa dos cosmos. Obrigado pela visita.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Luto

23 de Junho de 2010. É essa a data. Um dia alegre em algum lugar do mundo, onde risadas infantis ecoam em ambientes mal iluminados e smurfs cantam a sua labuta... Talvez.  Mas não para Magda Fantonelle. Magda era uma nobre senhora, com seus já 65 anos de idade, mas com cara de 40 (o segredo, dizia, eram camadas generosas de protetor solar todos os dias). De vida pacata, viúva, filhos crescidos e muitos gatos, passava as tardes a tomar chá nas casas das amigas, jogando baralho, predizendo o futuro e fazendo doce de abóbora. Excelente criatura. Aos domingos, ajudava as crianças pobres da periferia de Petrópolis, dando aulas de música e invocando os mortos. Mas a sua candura não pôde fazer frente a isso. A pobre não teve voz, não teve espírito, não teve tempo. Foi tudo tão rápido e confuso que ainda é difícil perceber a falta que faz. Não dá para entender.  Três anos de existência e de muita luta por continuar a ser bem vista na comunidade (nunca ninguém recebeu mais convites de meadd do que ela) para terminar assim, no vácuo, no esquecimento... Qual o sentido de tudo isso? Vidas vão e vêm, mas dessa vez ela simplesmente se apagou. De tudo, restou somente essa gravação minutos antes de ser hackeada:

YLoveJesus: Me paça a çua sehna, burxa dos enpherrrrno!!!
Magda: Nunca! O meu segredo é a minha vida. Um sonho não se entrega, se faz e se conquista! O que o gênio cria, não se perde nem se escraviza!
YLoveJesus: Ah eh??? huashuahsuah!!!1! Tah achadno ki tem mais poder qui Jesus?? hushsuhusha! Para tras, pagã increhdula, ki eu vou temostar!!!!
Magda: Não! Jamais! O que guardo é um instante que lampeja! Um olhar mais alto do que as próprias estrelas! Sou fruto, sou obra, sou dom, a senha ninguém me tira e pode ir abaixando o tom!
YLoveJesus: Huhuahauahushua! Soh jesus reina, meu bem. Agora toma iso satanikkaaaa!!! Unlimited powerrrrrrr!!!!!! [ruídos misteriosos].
Magda: Não! Por favor, pare! Aceite esses biscoitos felizes da amizade, estão quentinh... Aaaaaaaah! [som de um corpo tombando pesadamente no chão].
YLoveJesus: Huhuhaushuahu! Biscoito? [arranca um biscoito da mão de Magda, já morta no chão; dá uma mordida e cospe com rancor para o lado]. Com jesus naum se bargahna naum, é intransigivele! Huahuahauashua! Toma isso, sua impia! Cade os seus poder agora eim? Huahuahauaahua!

Só pude chegar horas depois de ocorrido o crime. Na cena, não encontrei nenhum vestígio de sangue, briga ou qualquer contenda que pudesse ter havido. As portas e janelas estavam todas trancadas, e tive que entrar secretamente pela chaminé. A casa estava silenciosa e arrumada, com a diferença de que aquela já não era mais a casa de Magda Fantonelle: estava tudo mudado. Era como se ela jamais houvesse existido. Nem sinal de Lilieth, sua gata que sabia indicar com as patinhas a presença de espíritos de suicidas. Toda a sua memória havia sido varrida dali. Em busca de algo que me explicasse seu sumiço, encontrei sobre a cadeira em que costumava sentar a misteriosa mensagem: "JESUUUUSS .. TE AMA :) SABIA .. NÃO SE PREOCÚPE NÃO A BRUXA DAKI, FOI RAKEADA.. QUE JESUS ILUMINE SEU DIA." Enojado, saí de lá correndo, e nunca mais voltei.

Magda, sentiremos falta da dança das xícaras, de seu chá alucinógeno e de sua poltrona flutuante. As partidas de tarot nunca mais serão as mesmas. De você, só nos resta, agora, a lembrança das tardes ensolaradas em que jogávamos peteca enquanto a brisa cochichava em nossas ouvidos a alegria de um mundo melhor mas secreto. Sim, ainda corisca em minha mente as raquetes altas deslizando sobre os últimos raios, quando então borrifávamos o ar com suor e saliva de satisfação. Sim, ainda consigo ouvi-la dizendo como se fosse hoje: "NÃO DEIXA A PETECA CAIR". Não, não deixaremos.

domingo, 20 de junho de 2010

Minúcias noturnas

Constelação de Capricórnio, de Orion, de Pegasus... Você diz: "Legal, legal...". Eu também digo: "Legal, legal...". Ma será que está tudo legal, mesmo? Tantas constelações, tantos nomes... Não consegue visualizar algo de errado por trás dessa alegre celebração dos mapas estelares?... Pois há! Saiba que nem todas as estrelas estão incluídas em uma constelação: são as renegadas. Muitas não foram abarcadas pelos tradicionais desenhos. Vagam pelo espaço, tristes, desoladas, desertas de sentido, pois ninguém se importa com elas. Jogadas no baú do esquecimento, comendo pó e sorvendo a amarga ignorância dos humanos, são párias rodopiando na escuridão da indiferença, enquanto consomem como gordas depressivas o seu gás. Milhares delas! Párias luminosos, sim. Mas párias tristes, de lúrida luz. Pense nisso: todas apenas sonhando intensamente com o dia em que serão incluídas em uma constelação. Ilusão? Talvez... Mas que sonhos não o são?...

E agora, Leif Eriksson, você as consulta gratuitamente pelo céu. Não demorará muito, e logo embarcará em um pequeno e leve barco rumo ao Oeste, através dos mares gelados, movido pela intrepidez ou não. E, com certeza, serão elas - sim, elas - que o carregarão são e salvo quando a noite cerrar-se diante de seus olhos. Veja bem, você se guiará por elas, devotará toda a segurança de sua tripulação em suas mãos. A embarcação não irá a lugar algum senão antes orientada pelos sábios caminhos que cintilam. As estrelas contam-lhe histórias, apaziguam a sua fúria, murmuram mistérios e vaticinam sobre o futuro. E, apesar de sua indiferença, elas sempre estão lá, firmes e certas. Afinal, elas não têm escolha... Você as olhava - eu mesmo as olhava - e pensava: "Como são bonitas, como é agradável observar seu tremeluzir azul e frio, tão distantes e ao mesmo tempo tão ternas, etc.". Sadismos! Elas estavam chorando!

Não há inveja entre as estrelas. As "consteladas" e as "aconsteladas" acolhem-se mutuamente, pois se sabem irmãs. Apenas a tristeza de quem foi deixado de lado. Aquelas consolam estas de sua triste sina, e torcem com toda a sua ternura pelo fim dessa tragédia milenar. As "desconsteladas", por sua vez, sussurram nos sonhos dos astrônomos os nomes que gostariam de ter, murmuram suas histórias e os segredos que desenham... Em vão! Até quando? Copérnico, até você? Não as viu? Você não as escutou, não soube interpretá-las, pois estava mergulhado em sofismas matemáticos. Olavo, Olavo!... Que decepção... Até a pouco não as decantava, vangloriando-se de poder ouvi-las? Mas só pensava em si mesmo; a sua vaidade emudeceu seu sideral suspiro. Se nem você, eu pergunto: quem? Leif Eriksson, sei que está me ouvindo. Você parte e por dias não vê outra coisa senão estrelas. De algum modo elas devem ser importantes para você. Pois tenha compaixão delas: risque no alto negrume as histórias nunca antes contadas! 

Tenho aqui comigo alguns nomes. Sente-se, lerei para você: "Nestlê, Parmalat, Petrobrás, Samsung...". Tenho um plano para incluir todas as estrelas. Não pretendo com isso, claro, estabelecer a plena felicidade sideral. Mas penso que, se podemos ao menos amenizar a sua tristeza, por que não fazer se nos custa tão pouco? Gostaria de sua opinião para os nomes que eu elaborei. Venho até você, primeiramente, porque sei como os Vikings são bons em dar nomes. Tudo o que peço é que inclua, não precisa ser todas, mas pelo menos algumas em seus mapas estelares. Conheço de suas sagas e de sua verdadeira devoção pelas noites abertas, e sei que nenhum viking deixaria ao desamparo suas tão fiéis companheiras. Se você puder dedicar um pouco de sua atenção a esse meu pedido, um minuto somente de sua reflexão, nós poderíamo...

"Rrrrruaaaaaaaghtrrrrraaaaaaaagh!!!!!!!!"*

PS: Bom, talvez o senhor Leif Eriksson não esteja muito preocupado com a situação das estrelas sem constelação (saiu um tanto zangado da taberna; nem ao menos chegou a terminar a sua caneca de cerveja). Mas e você? Será que é pedir muito que você invente nomes para as estrelas renegadas? Será que é pedir muito que você descubra sua história, sua ventura, seus desejos?

*significa em viking: Helga estar me chamando para o almoço; não ter tempo para as suas bobagens.

sábado, 5 de junho de 2010

Inove o seu miojo

Todo mundo sabe o que significa macarrão instantâneo. Uma comida rápida e barata para preguiçosos sem muito ânimo em cogitar de seu nulo valor nutritivo. Gerações inteiras de oligofrênicos têm, entretanto, posto constantemente uma séria questão entre o dever de estar minimamente alimentado e o tempo disponível dividido por duas vezes a preguiça: o miojo, após semanas de seu exclusivo consumo, enjoa! O que fazer? Procurar uma nova opção igualmente barata e talvez mais nutritiva? É claro que não! Ahil! O segredo está em inventar o molho. Eu sei, eu sei... Nada substitui as altas quantidades de sódio do sachê. Mas convenhamos, já está na hora de mudar! Contudo, contudo... É necessário muito cuidado para escolher os ingredientes do molho. Não é qualquer coisa que cai bem.

Está vendo isso aqui? É noz-moscada. Cheira. Bom, né? As maravilhas do oriente cuidadosamente subtraídas de suas propriedades alucinógenas por um processo mágico (*o*) de industrialização. Mas não é para pôr no miojo! Fica horrível! É bom para bolo, biscoitos, doces em geral... Mas não no miojo! Não me faça isso. O resultado é simplesmente incomível! É muito forte, e anulará simplesmente qualquer coisa que você tente pôr no macarrão. Eu diria que é como beber perfume.

Ah! O que temos aqui? Azeite. O Mediterrâneo tenta uma sedutora excursão em sua mesa, liquidamente tremeluzindo a harmonia musical das oliveiras farfalhando ao morno vento. Mas você não vai deixar! Não no miojo! Argh! Excelente para a salada e para a saúde. Mas no miojo dará um efeito viscoso, além de um vago sabor rançoso. Tem que ficar esperto.

"Oh! Sou um senhor apressado e vou pôr molho de soja com molho inglês". Está louco? Quantos fígados você tem afinal? Lembre-se: você está pondo salgado em cima de salgado. Isso não vai dar certo... Além do mais, você quer substituir o gosto hermético do sachê por outra coisa, e não por seu semelhante. Se for para fazer isso, coloque de uma vez o pó.

O que pôr então? Salsicha? Calabresa? Queijo? Eu não faria isso, a não ser que eu queira morrer de câncer. Ora! Molho de tomate. Simples assim. Levemente ácido, brandamente doce, o molho de tomate equilibrará o excesso de sal do macarrão instantâneo. Sanada a dúvida, sem mais a dizer, aconselho, ainda, e aqui debruço-me sobre o balcão da cozinha e chamo para mais perto o meu interlocutor, que lugar de refrigerante é no copo, não na comida.

domingo, 23 de maio de 2010

Quando o teflon não mais existir

Pelo desgaste do constante usar, então perceberás que a sua frigideira não era eterna. Parece triste, mas não sou eu que escrevo o roteiro. Se fosse eu o autor, eu certamente não teria posto teflon. Eu faria uma panela absolutamente simples, mas durável. E por durável entenda-se algo que não se consome em alguns anos, mas algo que possa sobreviver tempo suficiente para servir de legado ao museu local. Eles não têm lá algo muito interessante a ser mostrado, de qualquer modo (ainda lembro de uma exposição, de caráter muito duvidoso, que veio apresentar-nos os sapatos de cristal da Cinderela - é, eu acreditei).

Eu não! Porei teflon, imagine que não!... As facilidades da tecnologia não devem ser descartadas. Pelo contrário, devem ser maximizadas até que possam substituir toda a força animal. Teflon nos bancos dos carros: você dirigirá escorregando, eu diria dançando muito loucamente enquanto aprecia os acidentes, digo, a paisagem. Teflon no chão da cozinha, nos corredores do colégio, nas escadas, no fórum, na prisão: todos dançando loucamente. Dancem! Dancem! Teflon é mesmo uma maravilha, é preciso saber apreciá-lo, seja na fluidez de um hambúrguer deslizando em sua própria gordura, seja na candura de uma lambada.

A força animal deve ser eliminada. Não há natureza que possa ser conhecida. Creiam-me, é tudo falácia qualquer coisa que se diga a respeito de uma natureza humana; ninguém sabe o que é isso. Ninguém gosta e nem nunca gostou do trabalho árduo, sofrido e repetitivo. Eu ainda não tive notícias de uma elite baseada no trabalho manual... Dancem! Dancem! Teflon faz bem. Mas ele também será substituído.

PS: Finaliza-se a presente cena com todos dançando sobre teflon. Eu elejo o fórum, pois acho divertidíssimo, mas pode ser qualquer outro lugar e... Mas, heim! Eu estou ouvindo gente gritar, mas não estou ouvindo gente dan-ça-ar!

terça-feira, 20 de abril de 2010

Odisséia mais-que-noturna

[Por favor... Não confundam "tchan-tchan-tchan-tchan" com a derivada e degenerada onomatopéia que designa a apresentação de forma infantil ou jocoso-débil. Estou referindo-me à Sinfonia nº 5 de Beethoven, assim, enérgica e totipotente - para uma idéia mais concreta, ver a marcha nupcial em Die Klage der Kaiserin, parte 5, minuto 5 e tantos]. Ah, sim, os princípios do periculosismo: maximização do sofrimento; obstaculização do necessário; imperativo do constante perigo e temor. Eis a trindade, eis os pilares que deverão reger sua vida a partir de... agora. Não se assuste, aderir a isso é uma simples questão de sabê-lo. Quando me dei por conta, eu já o vivia e já o fazia como uma das principais razões do meu humor: começou com o fosso incrustado de ossos pontiagudos próximo aos bares, o copo envenenado somente em uma parte das bordas, mais ossos pontiagudos adornando as traseiras e frentes dos carros... Então vi que não conseguia mais parar e procurei ajuda. Hoje, sei que devo, não abster-me, mas minimizar essas práticas compensando-as com insumos quí... Bom, não sei se há necessidade de maiores explicações. Observe que há uma gama quase infinita a ser explorada (ventiladores de teto com lâminas, janelas com guilhotinas, filas de banco entremeadas por campos minados, balcões de informação cravejados intermitentemente de pregos, escadarias móveis ou sacolejantes, etc.). Basta apelar para a dor e à frustração.

Sem dúvida que você encontrará outras maneiras de concretizar por meio da imaginação os princípios do periculosismo. Tudo o que queremos é um mundo mais difícil e absurdo, onde qualquer possibilidade seja constantemente obliterada e obscurecida em uma nuvem de perigo, medo e morbidez, burocrática ou não.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Tchan-tchan-tchan-tchan


É do Laerte, se não for subestimar demais. Agora, deixando essas bobagens de lado, é com muito prazer que venho anunciar o meu mais novo SISTEMä OPERäCIONäL DE MäXIMIZäÇäO DE PERICULOSIDäDE. Depois eu dou mais detalhes. Por enquanto, você precisará tão somente de:

1. Uma caixa de pregos católicos, do tipo opus dei.
2. Barbante ruim (não queremos garantir a qualidade).
3. Lâminas de barbear.
4. Cola.
5. Pedra britada.
6.Três pedaços de pau.

Disponha os objetos referidos de modo a formar três clavas (vou ter que pedir pra usar a imaginação?). Pendure-as com o barbante e cole no teto do seu quarto. Apague a luz. Dance. Amanhã ensinarei a fazer bordas cortantes nas mesas dos bares.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Aguardando abdução

Desculpa, mas agora eu só uso Tostines. Já passei da fase Bauduco. Só me satisfazem biscoitos de terceira categoria, de recheio duro e insosso, daqueles que você morde e sente grânulos de açúcar. Não, não estou incentivando o brega ou o cafona. Não, não estou fazendo apologia ao prosaico. É uma maneira diferente de comer Tostines. Envolve a não-sedução, a não-exaltação, o não-envolvimento com algo mais digno de valor. Sim, estou confinando tudo a quatro paredes. Sim, estou convencido de que a abdução nos redimirá.

P.S.: Isso não é um cartão. Eu ainda estou fornecendo-os de graça, ok?