domingo, 18 de dezembro de 2011

Outrem em bandanas

No supermercado aqui perto, quando você faz uma compra superior a certa quantia, eles emitem um comprovante da sorte: você ganha um desconto de 30% em determinada bolacha, sabão em pó e até mesmo entradas para cinema. Eu sempre olhava atrás desse papel para ver se eu tinha ganhado alguma coisa (um desconto de 10% em chocolate seria algo maravilhoso para mim). E isso sempre com muita discrição, muita sabedoria. Nunca ganhei nada, nadinha, pois imagino que as compras que faço são em valor muito aquém ao necessário.

Acontece que, um belo dia, enquanto eu me dirigia às portas automáticas da libertação, o Sr. Guarda do Estabelecimento flagrou-me olhando o comprovante para ver se tinha alguma coisa. E, como se isso não fosse o bastante, ele sorriu. Ele sorriu, e de tantos dentes e em tais fileiras corretas que não tive dúvida. Meu Deus, ele havia captado a minha expressão facial que, nesse momento, devia ser bastante idiota. Certamente havia notado aquela parte comunicável, o lado miserável de todo ser humano, o que há de pior em mim e em todos nós. Havia visto a ânsia pueril em meus olhos, o brilho mesquinho, os músculos dispostos a formar o ar  daquele personagem tonto e fútil que há em todo consumidor. Eu era um consumidor e ele havia percebido isso!

E, agora, como esquecer aquele sorriso escandaloso, luxurioso, indecente, aberto em meia-lua púrpura e, desde a sua libré encarnada em panos cinzentos e sem viço, usurpador? Como afrontar aquele sorriso de caçador satisfeito e de certa forma compadecido, de quem vê a caça que, tão ingenuamente, tão ridiculamente, procurava abrigo em meio aos arbustos? Recorrer a uma adaga mágica e magicamente cortar-lhe o sorriso e expô-lo em praça pública para que sirva de exemplo? Não, claro que não. Apressar o passo, maldizendo-o por todo o caminho e arrastando panos e mais panos, tiras e tiras de seda e, se possível, abrir a sombrinha de um golpe seco e preciso, apoiando-a levemente em meus ombros e virando-lhe as costas e a existência inteira? Sim, eis a única solução coerente.

Maldito guarda. Será que não sabe que vivo de sutilezas, de precauções, de um complicado cálculo de equilíbrios e desequilíbrios, movendo cuidadosamente pesos de cobre sobre o tabuleiro? Pois desde então, quando recebo o comprovante do atendente do caixa, eu amasso imediatamente e atiro no lixo, que é para mostrar quem manda. O guarda que se cuide. Ou ele pensa que meu repertório é limitado como o deles, sim, eles, os outros, o resto? Aqui, minhas bandanas! Aqui, minhas caixas de lenço! Aqui, as escrituras de minas do Oeste, dos bordéis em Saint Louis, dos escritórios em Boston e Chicago! E eis meu arcabuz: quando eu terminar de carregá-lo, verá, meu senhor, a potência e alcance que tem.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Mas - oh - não vá ainda

Mas - oh - não vá ainda. Tal qual a condessa de Báthory, percebo que suas lágrimas ao molhar-me rejuvenescem a pele. E conta-me - retenho-te - a tua triste história, que de nossos defeitos não nos envergonharemos. Mais além - não vês? - desta janela, entre pomares de neve eu também cantei. E calvos senhores então me olhavam, e de meus sapatos enlameados ralhavam desde o pórtico até as escadarias que ascendiam ao meu quarto. E não era eu que limparia as pegadas; em tais templos, seres como nós somos mais do que espíritos, pois até mesmo os espíritos um dia neste mundo de um esfregão estiveram ocupados. Nossa condição é maior e mais difícil de entender. Somos, talvez, canalhas, e nessa cadeira em que te sentas sou obrigado a ver senão igualmente um canalha. Há algo de madeira em nós, não ossos; de palha sob estes panos, não carne. E em nossos olhos, algo opaco, como se em seu lugar houvessem posto cascas de noz. É assim que talvez nos vejam. Mas, neste camarim, deles estamos seguros, e por isso não deixa de esvaziar-te essas sombras movediças do peito: somos como naus antigas, anacrônicas, bruxuleando entre padarias e salas de aula. Não temos fim: que somos? Somos um pente, um banho. Se entramos em um supermercado, somos seus corredores, seus carrinhos vazios, o estrépito agourento de quando se encaixam. Se lemos algo, sua história absorve-nos por completo. É necessário que nos transformemos em arcos e pilastras antes que nos digam que deste Reino não poderemos beber. Não temos existência e no mundo nos dissolvemos. Mas - oh - não pare de teu pranto. Contar-te-ei ainda coisas mais tristes, histórias de soldados, de moços jovens que morrem em gaiolas, de moças pequenas abandonadas no ralo da pia; de países assolados pela desesperança e colinas em chamas, de florestas onde sempre é outono e onde cachorros farejam por coelhos que há muito foram extintos. Cutucar-te-ei até que tuas lágrimas cheguem ao fim, e de ti nada mais reste. Ouves esse barulho lá fora? Estão lavando nossas culpas; seus esfregões trabalham incansavelmente; estão jogando baldes de água - ou mais bem ácido - sobre nossas pegadas. Nada disso que fazemos é necessário. Para quê? De nossa beleza então fazemos nossa glória. Vês nossos rostos no espelho da penteadeira? É terrível, eu sei. Estamos cada vez mais belos. Ah, sim! É horrível aquilo que nos reserva a existência inútil. Mas não se preocupe: eu sustentarei o teu rosto desfeito em minhas mãos delgadas e frias e, sem dizer-nos palavra alguma, tudo cessará. Então, quando irromperem por esta porta, surpreender-se-ão por não mais encontrar-nos. Em nossos lugares, verão pássaros empalhados, de plumas coloridas e olhos de um brilho que, sem deixar de ser bem um brilho, aos seus olhos afigurar-se-iam tristemente baços. E eles mexerão em nossas coisas, em nossos baús, brincarão com nossos escritos e nossas roupas finas: nós ainda poderemos assisti-los. Mas não se preocupe, pois até mesmo isso terá seu fim.

Rápido, a pedra!

Há uma cena em Dragon Ball Z em que Babidi está prestes a ser destruído por um colérico Piccolo. Não me lembro dos detalhes, apenas disso: um arruinado, ensangüentado, esbugalhado e empoeirado Piccolo, contraindo todos os músculos de seu corpo e espírito, aos urros e gemidos, em toda a concentração animalesca de sua energia vital e a do universo, espasma suas garras virulentas de onde um potente raio amarelo tenta, penosamente, atravessar o escudo mágico que Babidi havia convocado murmurando, tão singelamente, "proteção". Um verdadeiro ator da burocracia.

Essa cena é o paradigma da minha vida. Resume, de certa forma, o meu temperamento e o meu ideal. Os poderes de Piccolo provém de sua condição animal; é a conversão de sua força física em energia luminosa, não sem antes a custo de muita luta e sofrimento. O universo plasma-se em um cone imensurável desde a palma da mão de Piccolo até as galáxias mais distantes, pois Piccolo é o próprio Universo, a própria vida: está condicionado à matéria, às suas vicissitudes e transformações; é ele próprio a degradação e a dor. E, como resultado, seu poder é muito superior, ao menos quantitativamente, ao de Babidi.

Já os poderes de Babidi não são outra coisa que não mágica. São fórmulas, sentenças capazes de manipular a realidade. Seu uso não implica em gasto, cólera ou destruição, pois esses atalhos, capazes de levar o mago de um extremo ao outro de maneira instantânea e segura, não são criações nem implicam qualquer transformação. Já estavam ali, e tudo o que Babidi precisa fazer é descobri-los, conhecê-los e, assim, dominá-los. Babidi não cria leis, apenas as conhece e as usa. Diferentemente de Piccolo, um mago não distorce o Universo: de seu emaranhado de gravetos, um mago puxa-os para si ao seu talante sem fazer desmoronar a pilha. Parece contraditório, mas Babidi, de alguma forma, é capaz de sair sereno e limpo.

E, bom, aonde eu quero chegar com isso? Acontece que, de ambos, o único que sai intacto é Babidi. Piccolo, ao fundir os elementos do universo, destrói a si mesmo. Babidi, ao contrário, conservando-o, é capaz de preservar-se, e mesmo que, tal como Piccolo, sua ação desencadeie as forças naturais, com elas não se identifica, pois as manipula desde um ponto externo sem que se imiscua o mago. Piccolo, ao contrário, age como um conversor de energia, e, no final das contas, não é ele muito diferente de uma estrela ou de qualquer outro elemento do universo  (não lembro se Piccolo destruiu o escudo; o que não não vem ao caso).

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Júpiter, tua ronda

Enquanto sinto meus dedos liquefazendo-se pelas teclas superaquecidas de meu computador, ponho-me a refletir, refletir e refletir. Mas mais do que refletir, estou sonhando, e os ruídos do exterior (pois eles realmente resolveram fazer um churrasco sob a janela de meu quarto) ricocheteiam pelas paredes, compondo ao meu redor um santuário de imagens hindus, através das quais meus olhos se fixam, mas minha mente, não.

Não. Minha mente apartou-se do mundo sublunar e às estrelas alçou-se como um chapéu fosforescente, e apenas uma tênue linha ainda a mantém unida, desenhando tremeluzente pelos ares celestes seus inesperados meandros. Marujos, valentes capitães e caçadores de monstros marinhos em vão a perseguem, e quando mal seus olhos vêm a sombra de seu dorso sob as águas, imediatamente torna a desaparecer sob as vagas turvas.

E se ela pudesse, ainda que fosse seu último ato, lançar-se de um promontório lunar em direção à Terra, despencando como um pequeno cometa através do espaço, e assim sobre a superfície deitar-se como um raio, que seria? Seria um fugaz brilho, talvez a fagulha de um foguete que se avista de longe, a iluminar não mais do que os pés de alguém que, tão vulgar, nada mais fazia senão esperar o ônibus?

Mas semelhante imagem não pode fazer jus a algo que tão naturalmente ascende e das montanhas lunares traz seu vislumbre. O sonho é muito mais do que se afigura aos demais; não é aquilo que dizem as pessoas quando entrevistadas em um programa de televisão. Um sonho não revela de todo seu rosto, pois entre o banal não poderia sobreviver. Ele é único e intangível, e, quando descende, não é como se morresse ao penetrar em solo.

Um sonho, na verdade, ao descender das esferas superiores, incorpora-se ao mundo, entranha-se (a muitos de maneira imperceptível) como um elemento químico completamente novo. Bromo, cobalto, zinco; nas mãos desesperadas de ourives fazem-se esses terríveis anéis, objetos de cobiça e superstição, capazes de lançar luz e sombra sobre as faces sobranceiras dos que a pouco acordaram e agora tomam seu café.

sábado, 12 de novembro de 2011

Sou de adamantium

- E quanto o senhor acha que isso sairia?
- Hum... Deixe-me ver... Tira aqui, ajeita ali, puxa, repuxa... Hum... Duzentos e quarenta pesos.
- Du... du... zentos e quarenta pesos? Bom, eu esperava algo como cinqüenta. [leva a mão ao cabelo].
- Ah! Ah! Ah! Não.

Enquanto girava a chave entre meus dedos, impunha velocidade ao meu raciocínio tanto quanto podia, pois não queria que o alfaiate chileno lesse em minha alma a confusão moral que eu tão inesperadamente passei a infligir-me. Terminei por largar aquele vulto enorme e negro sobre seu balcão, sob a promessa de que em quinze dias eu retornaria para pegá-lo. Livrava-me daquilo que havia se tornado quase um corpo mumificado, a espera do Juízo Final, e com a bolsa agora vazia seguia meu caminho. Tentaria não mais pensar no assunto, como se não pudesse haver volta, uma decisão cometida que de seus despojos apenas se ocupariam os policiais por curiosidade e sem esperança.

E, no entanto – o que fizeste! o que fizeste! -, mais cedo ou mais tarde eu teria que ir ao sapateiro para que me consertasse a alça de minha bolsa, que estava rota e apresentava desde então uma atadura de barbante que eu havia improvisado. E quanto me cobraria dessa vez? Mais cem pesos? E não posso esquecer-me também da pulseira de meu relógio, que igualmente havia arrebentado e tive que expender trinta e cinco pesos por uma nova. Tudo agora se me afigura tão caro e cansativo. Meus tênis, minhas roupas, tudo parece estar se desfazendo sem que, contudo, possa eu dar uma solução satisfatória.

De qualquer modo, não há mais jeito. Está enterrado. O peso da vida que reclama ao meu mundo de sonhos suas necessidades inadiáveis arrasta-me em seu grande redemoinho sem fim. E o que farei? Chamar o alfaiate, o sapateiro, o relojoeiro e toda esses senhores para quem devo abrir minha carteira ou mostrar minha amabilidade e gratidão e convidá-los a dormir? E, assim, enrodilhados uns sobre os outros, elevar-nos sobre o mundo até que na noite resplandeçamos como uma constelação distante e indistinguível (perguntar-se-ão, os que ficaram, o que seriam aquelas figuras, se carneiros, leões, cervos)?

Ah, não... Desta solução também estou cansado. Que revirem o quanto queiram os panos de meus bolsos. Que arranquem e façam deles lenços, encantadores atavios, que eu, tão insurgente quanto qualquer um deles, sairei pelas ruas arrastando meu casaco de alta-costura e boas maneiras. E a população, pasmada ante minha aparição repentina, como que descendendo por uma longa escadaria ao grande salão, abanará seus grandes leques, tomada de grande calor e confusão, pois que nem a véspera de uma bancarrota foi capaz de fazer-me renunciar a esse belo mundo de sonhos.

domingo, 6 de novembro de 2011

Grande Festa

É com grande honra que venho por meio desta dizer que: bem-vindo ao mundo, novo blog (não é tão novo assim, mas...)!!!! Demorou - o quê - um ano, mas enfim posso dizer que está pronto. Já possui corpo, um nome definitivo e um estatuto de condomínio. Não pude fazer uma festa muito grande porque gastei todo o dinheiro do mês para comprar estes lindos sapatos cor de gema. Tia Claudette chegou mais cedo para ajudar-me a fazer os brigadeiros e fritar os salgadinhos. Convidei o porteiro, a Nastácia, a Zumira e a enfermeira que cuida dela. Tudo bem pobre, bem imigrante eslavo. Mas o que ele não tiver de dignidade, a gente preenche com alegria \o/\o/.

Gabinete 009 funciona como um apêndice ileocecal, servindo para desviar conteúdo do Roda Elegante para um canto mais humilde. Se você não gostar, poderá dirigir-se ao nosso balcão de reclamações, onde será delicadamente atendido pela Duquesa de Bâle, a qual vem passando atualmente por uma espécie de transtorno compulsivo por guarda-chuvas e botões coloridos. Como todo blog, ele também tem seu post fundante, o qual pode ser acessado aqui. E tudo isso sem alarde, sem quebrar prato e sem arrendar minhas terras.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

É que, no entanto

Necessito de uma experiência culinária toda vez que uma idéia maligna me assalta. Hoje, eu faço flan. Amanhã, biscoitos amanteigados. E nem queiram saber no que eu estava pensando acaso me surpreendam assando um soufflé de queijo. Se é algo menor, insignificante para muitos, um simples brigadeiro será suficiente para acalmar esse senhor sombrio que desperta em meu íntimo. E assim por diante, numa razão entre o grau de imoralidade e a dificuldade na execução da receita.

Preciso (e apenas não uso o verbo no plural porque justamente desconheço meus semelhantes) de obras para acalmar-me, agitar energicamente as mãos e revolver o conteúdo das extremidades da panela. Ou, então, tendo os membros desimpedidos e a mente livre para que se desenvolva pelas sendas que bem entenda, estarei tentado a executar... o mal. Mas mesmo à boca - vejam só - é necessário impôr algum encargo, e, nesses momentos, surpreendo-me saindo pela janela a cumprimentar vizinhos que nunca vi, golpear violentamente suas portas e narrar-lhes o tempo.

Porém, não deixa de ser tudo em vão. O corpo uma hora cansa, e falar levianamente apenas perturba mais a mente (se bem que alguns parecem encontrar nisso algo de encantador, o que, possivelmente é um mau sinal). E, então, sou obrigado a dirigir-me aos rastros à minha cama, espiritualmente esgotado pela sensação de inutilidade, pois sei que, assim que afrouxe a vigília, retornará; ele, o mal. Inicialmente arrastará suavemente as correntes pelos úmidos corredores, tornando-se mais violento a medida que se aproxime da porta. E, ao encontrá-la trancada, baterá, golpeará e chutará, até que enfim irrompa, olhando-me arfante e sedento.

Por isso, é que, por meio desta, venho aqui para encontrar uma solução que eu não encontro no silêncio (não que eu cogite que isso seja possível) e que não alcançaria nem que eu monologasse por séculos inteiros. Aliás, tão pouco pretendo encontrar em vocês, pois essa solução não pode ser dada por quem vivencia os mesmos problemas e, portanto, padece sob uma mesma condição. Atados aos mesmos vícios e usando os mesmos encanamentos, por que é que, então, dirigimos-nos uns aos outros com esses olhos indagantes?

É que - e então alguém me avisa aos cochichos - não somos exatamente iguais nem vivemos exatamente sob as mesmas condições, de modo que, nesse estreito espaço de intersecção e dispersão, da mesma maneira que confirmamos no outro algo que havia em nós, podemos encontrar o que é estranho. E a realidade é exatamente isso, um salão formado por aquilo que compartilho e por aquilo que me distancia dos demais. E se é assim, posso dar meia volta e retornar à minha proposta inicial, que era falar a respeito de eugenia.

Que deselegante, no entanto, o que me acomete agora, pois terei que deixar esse assunto de lado. Por outro lado, sintam-se poupados de ouvir palavras tão pouco sensatas e pouco afeitas ao convívio social. O que acontece e o que acontecerá parece-me tão inevitável e tão indiferente, que não tenho vontade mais de dizer que, por exemplo, a mim me assombra que alguém possa decidir, não apenas se alguém nasce ou não, mas como ela nascerá, sem que, contudo, deixe de maravilhar-me com isso e desejá-lo secretamente. Tão poucas coisas escapam de ser humanas, e agora nem mesmo ao seu próprio início permitir-se-ia. Como se o mal não fosse mau, e como se ser moral ou não fosse uma questão de conveniências e vaidades. Enfim, enfim. Adeus, e que morramos cedo.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Enviado Especial

Desde a primeira vez em que bati os olhos numa extensa lista de títulos usados pelo Grande Líder (devo chamá-lo assim?) da Coréia do Norte, Kim Jong Il - que pode ser livremente consultada aqui -, tenho-me esforçado em forjar eu mesmo mais um título que agrade à Pessoa Suprema. No entanto, era com angústia que eu constatava que jamais poderia superar algo como Supremo Líder da Nação ou Grande Sol do Séc. XXI.

E passava tristes horas assim, frustrado, esperando o ônibus em um banco cinzento e aspirando fumaça de cigarros. Até que, ainda esta manhã, um pouco antes de eu dirigir-me aos salões brilhantes da comida coletiva, entregaram-me este panfletinho de MÉTODO BADRA: PARA ESTUDIAR MEJOR (ative sua inteligência, concentre-se melhor, potencie sua memória e leia muito mais rápido), o qual reproduzirei apenas no que me interessa:

"(...) Galardonado por la Academia de las Naciones con Distinción Académica Internacional de Honored Fellow de la Cámara Top de la Meritocracia (Altas Esferas de la Humanidad) en carácter de Máxima Jerarquía, declarándolo Patricio de la Humanidad Solidaria del capítulo argentino (...)".

No começo, senti-me um pouco atordoado, e as palavras demoraram um pouco a fazerem-se ouvir em minha mente. Sem olhar a comida, e sequer notando dessa vez as maneiras aviltantes de meu colega ao lado, absorvia-me nesse enigma. Mas, então, entendi. E não importa quem e o que são todas essas instituições. Aprendi muitas coisas em tão pouco tempo e em tão poucas letras que me é difícil explicar-lhes - vocês, prisioneiros das sombras - esse sol que me ilumina e me cega.

Oh! Patrício da Humanidade Solidária! Oh! General da Máxima Hierarquia! Oh! Querido Líder, Aquele Que Descende das Altas Esferas da Humanidade! Jamais me esquecerei do dia em que, sentado diante de um prato frio de batatas com ervilhas, ecoou seu terrível nome pelas plagas etéreas de meu espírito. E como tremeram as ruínas de prístina saudade! E como eram distantes e fundos meus olhos!

Ah! Carlos Badra e tantos outros! E a faca escorregava ruidosamente pelo prato quase vazio. Criava toda uma extensão de verdejantes colinas onde estariam proibidos de pisar, onde suas expressões vulgares de satisfação pessoal seriam desonrosas. Planejava as medidas exatas de uma janela, e, através, contemplava todo um reino imerso em diáfana luz. Indagava-me, porém, se também não seria isso a que eu também aspirava. A vaidade e o orgulho que os alimentam seriam os mesmos que os meus? Ou eu teria outros fundamentos? E teria sido terrível reconhecer e desfazer o que com tanto afã eu beijei.

Então, não, não quis encontrar resposta. Pois eu escolhi, ao invés, pela extensão dessas colinas, plantar um bosque de pinheiros, sobre o qual, de quando em quando, eu relançasse uma vaga mirada desde o gabinete, cheio de paciência e distância. E é por isso que pude levantar-me quase purificado de meu assento, entregar a bandeja de comida e seguir com meus afazeres, orientado por uma diretriz de ação e pensamento muito distinta - assim julgo eu. E basta.

Pela mesma razão, entrego a você, Kim Jong Il, esse título que encontrei e, de um delírio, quase me apoderei. E podem usá-lo sem que necessitem seqüestrar-me (as notícias de seqüestro de cidadãos japoneses mexeram comigo, tenho que confessar) ou render-me qualquer homenagem. Oh, não! Não quero suas homenagens assim como não quero constar em uma lista em que figurem os nomes de Carlos Badra e Augusto Cury.

sábado, 24 de setembro de 2011

Calma, é só exasperação

As luvas que eu tenho são de lã sintética, de fios grossos, bem vagabundas. Comprei no Brasil, claro, sem saber que eu poderia ter arranjado luvas bem mais bonitas e que não dão a impressão de que minhas mãos estão inchadas. É difícil manejar qualquer objeto com elas: escorregam entre os dedos, perde-se a sensibilidade e a precisão dos movimentos. E foi assim que, revolvendo minha bolsa a procura de minha carteira para pagar pelos dois alfajores, acabei por assomar aos olhos do vendedor duas embalagens de chocolate que eu havia mantido ali e esquecido de jogá-las no lixo.

Agora eu sou o maníaco dos chocolates. Sim, eu confesso. Tenho compulsão por chocolates, chego a andar quadras e mais quadras em sua busca, e passarei os dias sem eles senão com muita angústia e sofrimento. Acabou. Descobriram tudo e não adianta negar. Toda uma vida de aparências ruiu-se ante a comunidade inteira, e meus vícios, um a um, deslizaram da escuridão de minha bolsa para desfilar ridículos e tristes no balcão de uma loja de doces.

Deixei a nota de cinco pesos amassada e suja em suas mãos, e saí correndo em direção à rua, pálido e convulso, caminhando rapidamente em direção à minha casa, sem reparar nos caminhos tortuosos e confusos que tomava. Nesse ínterim, uma multidão de idéias soltas e sombrias atormentavam-me a mente, e teria lançado minha bolsa no primeiro contêiner de lixo se houvesse tido tempo para raciocinar. Desejava chegar o quanto antes sem, contudo, forçar o passo mais do que seria aceitável.

Tirei o molho de chaves do bolso e enfiei a maior e mais dentada na fechadura, girando-a bruscamente e com rara precisão. Bati a porta atrás de mim, detendo-me de costas ao exterior. Estava petrificado e com as roupas empapadas de suor. "Ao amanhã" - eu pensei - "não reservo nada senão o crime: a prostituição de minha vida. Debaixo do viaduto mandá-la-ei em cosméticos caros vagar pela noite em busca de quem a queira tomar em seus braços pestilentos. E, com o dinheiro de sua corrupção, comprarei os olhos daquele vendedor".

No entanto, tive pena de minha vida, e não pude entregá-la ao mundo para que pagasse por meu processo de inocência. Então, abracei-a, coloquei-a dentro de minha bolsa como um pokémon e saí deslizando sobre patins pela ciclovia alta, cambaleando como um principiante. E os carros, logo abaixo de nós, passavam ligeiros sobre um asfalto feito de crimes, todos eles pendentes em processos enormes e carcomidos por insetos, amontoados em um cômodo escuro e sufocante de uma delegacia.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Ifigênia

E eu pergunto: quem nunca teve vontade de perambular entre os corredores de uma biblioteca durante a noite, sem iluminação alguma? Ora, é o sonho de todos. E a Biblioteca San Martín vem a presentear-nos com essa tocante fantasia, convidando pequenos grupos a fazer excursões pela madrugada, em meio a atores que podem ser poetas, meros leitores notívagos ou heróis da independência argentina. 

No entanto, nem todos estão preparados para agir em um ambiente assim. Por mais que eu tentasse, era impossível não me incomodar com a moça que disparava flashes na cara dos atores, relançando na escuridão a lembrança de que aquilo tudo não passava de mais um espetáculo dentre tantos na cidade. A cada flash era a mesma biblioteca de todos os dias que emergia das trevas. Ainda bem que não era pago, pois então o colapso teria sido total.

Se eu pudesse voltar no tempo, tocaria de leve no ombro da moça, e lhe pediria gentilmente para que "Com licença". E tomaria a máquina fotográfica de suas mãos e jogaria com força contra o chão. Mal teria tempo de olhar seu rosto de espanto, rapidamente encoberto pelo breu da biblioteca. Eu venci, todos vencemos, um continente selvagem salvou-se e eras inteiras não seriam suficientes para redescobri-lo.

Para que se lhe explique que, às vezes, em situações assim, é necessário esquecer que, lá fora, há um mundo a esperar: pais, marido, filhos, colegas de trabalho. Explicar que essas paredes que defendo são muito mais frágeis do que qualquer parede de papel de um pavilhão japonês. O exterior ameaça-as a todo instante, é necessário um esforço enorme para concentrar-se e não se deixar arrastar pelos fachos de luz intermitentes dos carros. Não que o exterior também não seja constantemente ameaçado, também ele é frágil, mas a fantasia é muito mais. 

Bom, por enquanto, só posso sugerir que, ao invés de um grupo de doze pessoas, um grupo de, não sei, quatro. Ou, melhor, de apenas duas pessoas. Um único companheiro que sirva de garantia de que haverá um retorno ao mundo e de que não nos perderemos entre as estantes da biblioteca, permanentemente presos na escuridão.

domingo, 4 de setembro de 2011

Boneco de Olinda

Enquanto caminhava pela Avenida San Martín, ocorreu-me lembrar que, uma vez, haviam me dito que os rapazes da minha antiga turma da faculdade tinham baixa estatura. E, eu mesmo, caminhando assim entre a gente e esses edifícios de portas colossais, dou-me conta que eu não era uma exceção. Mas eu acho é ótimo. Assim poderíamos juntar-nos e organizar uma compra coletiva em uma clínica e conseguir um desconto para que nos serrem os ossos das pernas. Eu, já estendido sobre o leito do hospital, empurraria toda a modéstia de minha escrivaninha para a lata de lixo e ordenaria de uma vez que me aumentassem trinta centímetros. "Mas, senhor..." - tentaria um doutor com uma prancheta nas mãos. "Não, por favor. Poupe-me de suas parolices médicas" - eu replicaria, levantando a mão e pondo eu mesmo o inalador.

E, assim, trinta centímetros mais alto, eu poderia desfilar novamente pela Avenida San Martín, dessa vez como um boneco de Olinda. E minhas pernas estendidas fincariam meus passos vacilantes, e eu oscilaria meu corpo de encontro às paredes e às pessoas que, caminhando ligeiras, tentariam ultrapassar-me o mais rápido possível.

Não, por favor, não estiquem apenas minhas pernas. Serrem-me os ossos dos braços, estendam-nos também trinta, quarenta, cinqüenta centímetros. E dêem-me um chapéu para que eu possa tirá-lo e cumprimentar uma empregada assustada que varria o chão da sacada. E meu braço, no gesto de cortesia, mover-se-ia ameaçador como um pêndulo gigante em direção aos transeuntes.

Porque essas calçadas, essas ruas, essa gente são herança que me reservam as cidades, e eu, boneco de Olinda, sou seu conde que vacila em pernas gigantes, arrastando minhas mãos por seus muros e arrebentando varais com roupas estendidas.

domingo, 28 de agosto de 2011

Mate cocido

Por favor, diga que há bananas com chocolate na geladeira. Diga que há biscoitos recheados no armário e hambúrgueres no congelador. Nunca a comida foi tão fundamental para mim. E comer bem e gostoso, até que a razão, e não o estômago, o qual é invencível nesses dias de fome nostálgica, diga que devo parar. E recomeçar tudo de novo pela manhã seguinte, as refeições coloridas, os pratos finos e decorados. E não mais esse chá adocicado que eles bebem. É isso o mais próximo do chá inglês? Não, para mim ponha o chá de nossas matas sul-americanas, o chá sulcado pelas mãos dos bandeirantes. As folhas pisadas por botas, deixadas ao sol e esquecidas no afã de desfazer o acampamento.

Mas, hoje, descobri seu nome. Adivinhei-o no cardápio, e nunca havia pensado que poderia vestir-se em nomes rústicos assim. Você é meu agora, tirei-o das mãos cafetinas daquela cafeteria de luz amarelada e feia. E fugirei com você, ainda essa tarde, em um ônibus amarelo, para as terras frias e desoladas do extremo sul. Comprei ponches, comprei livros de história para você. E eu os lerei em suas costas, gravarei esse perfume verde e bandoleiro em suas folhas. Fundaremos missões e ensinaremos os índios que restaram a tocar flauta. E você, mate cocido, incendiaria seus cabelos de pólvora e meus anos ancestrais, roubados de uma página de apostila escolar.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Amor, pois que deveras venero

Eu, que desprezava meus antepassados, sou forçado agora a reconhecer que são muito poderosos. Antes, eu pretendia que eu fosse um início totalmente desvinculado das gerações que me precediam. Eu queria existir como um esporo livre, inteiramente novo. Hoje, tenho consciência de que, não só é impossível que eu me desvincule de minhas causas, como não desejo mais essa separação. Afundo minha cara no charque de meus antepassados a fim de que minha existência prolongue-se e ramifique-se ao longo de décadas e  acontecimentos. Sou mais sólido e mais real assim, nessa perspectiva de rostos que se cruzam e se vão à minha revelia, caminhando por ruas paralelas e, por vezes, reencontrando-se em cruzamentos.

E agora que já não sou mais um ponto morto, posso enfim acreditar na minha própria perpetuação. Até onde eu sei, na lógica desse pensamento, tenho que jamais deixarei de existir, e que, qualquer coisa que eu faça, repercutirá no futuro. Embora tudo o que eu disse seja intuitivo, só queria deixar que meus antepassados, por menor que seja a glória com que eu os vislumbre, são maiores do que eu, e que, em me ver relacionado em uma trama que se estende desde um remoto início, não posso pretender qualquer valoração absoluta sobre as demais existências, animadas ou inanimadas. Extraio daí todo um respeito sobre aquilo de que pouco sei, e, por isso mesmo, deve permanecer até que a razão me diga se devo modificar.

Pois isso não me impede que eu seja um início, algo novo. Não sinto necessidade de desprezar aquilo que precede minhas ações e nem devo, mas, por outro lado, eu mesmo já sou um ponto de flexão e de modificação. Acho que, enquanto pertencente deste mundo de matéria, a possibilidade de compreender meu passado e nele alçar minhas causas é melhor do que se eu simplesmente o desconsiderasse e, por um efeito de abstração, lançasse-me no ar como um esporo, o qual, longe de ser especial, parece pouco diferenciar-se dos demais. Tal desprezo só alimentaria a perspectiva de ridículo, pois o conhecimento do que temos bem diante de nós é bastante frágil, e não é sábio destruir aquilo que não se compreende.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Diário de uma paixão

Quando minha dentista disse - e eu interpretei o seu tom como cínico entusiasmo - que eu teria que usar aparelho para o resto de minha vida, eu quase acreditei. É claro que, para ela, não há nada nessa vida que substitua seus rigorosos instrumentos, e ela mesma mandaria toda sua técnica em forma de ondas através do espaço sideral. A ditadura do aparelho se instalaria. As crianças seriam condicionadas a venerá-lo e a temê-lo. O aparelho seria objeto de culto, todos as manifestações girariam ao seu redor. Por toda a minha vida. Antes eu achava que era uma sentença de condenação, mas não era isso, ou pelo menos não só isso. Era a importância e devoção de seu trabalho triunfando.

Certa vez, um advogado, em semelhante atitude, explicou para mim, e Deus sabe como me era difícil fingir interesse, que o Direito deveria ser lecionado em todos os cursos superiores. Na verdade, todos deveriam saber Direito. Isso lhes abriria em muito a compreensão do mundo. Evidentemente. Mas hoje eu respondo que qualquer outro ramo enriqueceria igualmente suas vidas. Eu mesmo deveria saber muito mais de informática e de engenharia elétrica, pois isso facilitaria muito o meu cotidiano. Botânica, sociologia, psicologia, gramática, todos pretendendo um monopólio de importância. Bom, na verdade, devo confessar que os ramos que geralmente fazem isso pertencem à área de humanas.

Claro que aparelho ortodôntico e processo civil são coisas importantes para a vida de qualquer cidadão. Não estou negando isso. Claro que não. Não sou eu. É toda uma dinâmica ao redor deles que contradizem o triunfo da dentista histérica que gritava com suas funcionárias em público. Eu olho à minha volto e só vejo significâncias e importâncias. Ai - você suspira -, vou espalhar essas verdades achadas na calçada suja, envolver a todos em meu ideal precipitado, essa compreensão quase infinita de sentimentos bem guardados debaixo do braço. Mas então eu levo um tapa na cara e um galho despenca em cima do meu carro, que é para me mostrar que tudo é, na verdade, insignificante.

Eu, ao meu turno, soluciono esse problema com a simples crença de que nada é tão importante que mereça a glória. Pode-se acreditar, quando se toma um objeto isolado, que, isolando-o e fazendo-o girar lentamente na sua mente num vazio ideal, ele é o próprio umbigo do mundo. Porém, eu prefiro basear toda a minha conduta na idéia de que todas as coisas existem da mesma forma e que, por isso, não possuem graus de hierarquia entre si. É nesse sentido que uma casa é feliz da mesma forma que uma pessoa é. Mas óbvio que essa crença desenvolvida aqui igualmente é uma  dentre tantas coisas, e, por isso mesmo, ausente de qualquer significado quando isolada. Risos, pois agora eu tornei todo esse texto desnecessário. Com licença, senhores, que agora tentarei salvá-lo de sua autodestruição.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Conta com vontade

Vou dizer uma coisa que me fascina. Não, vou dizer uma coisa que me faz ser brilhante. Isso mesmo. Aquela mania peculiar que todo ser humano, um belo dia, num encontro em patamares superiores de civilização, descobre para si e faz hastear no mastro. Então ele se dependura na beirada de sua gávea e faz assim com as mãos, como quem olha o horizonte e muito mais além. E todos lá embaixo, personagens coadjuvantes por um instante fugaz, contemplam o misterioso observador, boquiabertos.

Não, não adianta dizer. Eu sei o quanto isso me torna especial. A minha especialidade, inclusive, eu suspendi num anzol, e sei que todos os peixes do mundo virão fisgá-lo. Amarão tanto quanto eu, e isso nem é meu coração que diz, mas minha sagacidade humana, a qual tão sabiamente eu surpreendo pilotando um automóvel desgovernado numa metrópole sem vias. Daí, sim, eu posso dizer que aquilo que me torna especial é surpresa igualmente nos corações alheios.

Mas não pode ser anseio, porque o anseio é algo bem mais íntimo, e é bom que os demais desejem de uma forma totalmente diferente da minha. Essa força motora não se põe no mostruário juntamente com seu objeto. O afã, que está por trás daquilo que suponho ser admirado pelos outros, não dá sua cara. Quem gosta de mostrar sua intensidade já é outra coisa, é exibicionismo, como quem beija os músculos, e provavelmente sequer desconfia quão fútil e desinteressante é essa força perante os demais.

sábado, 11 de junho de 2011

Calmaria, com quem combates

- Como foi o banho, senhor? 
- Oh, maravilhoso! Mandarei construir uma réplica de seu banheiro em meu quarto! 

Despedi-me na porta, deslizando para fora antes mesmo que a houvesse aberto totalmente. Tinha permanecido pouco tempo dentro do box, não esfregara os cabelos e nem atrás das orelhas, apenas deixara-me estar debaixo da água quente, incomodado com aquela posição forçada em pé. Havia trazido meus sais de banho, porém não havia banheira, o que motivou minha saída afoita, fazendo-me esquecer o relógio no ralo da pia. Alfredo ainda permaneceu na soleira, acompanhando-me com o olhar, as mãos nos bolsos, talvez desconfiado. Emprestara-me o banheiro por aquela noite, deveras, e certamente eu deveria retribuir o favor. Mas com o quê? Um presente. Um lindo chapéu de bruxo, encimado com plumas de corvo. Não, sua esposa detestaria. Talvez, então... Cerâmica! Todos adoram, enfeita a casa, põem-se flores, as crianças derrubam, há de se criar encantadoras epopéias em seu entorno. Um belo presente, um belo presente... Virei a esquina e comecei a subir para casa, os postes pouco iluminando a via. Era noite, pessoas já haviam voltado do trabalho, as ruas, enfim, pouco a pouco se esvaziavam. 

O calor do banho logo ia se desfazendo de minha pele conforme eu atravessava o ar frio. Murchei as orelhas e me cerrei mais perto de meu casaco, o qual se estirava levemente para trás com os passos rápidos, embora trêmulos e incertos em minha ineficiência em reter o calor interno. Mais dez minutos apenas e logo estaria em casa, ao abrigo do aquecedor. Um pouco mais de convicção e num instante todo o frio se findaria desde a soleira de meu lar. Margot poria mais carvão nas fornalhas, e toda a casa se levantaria em meio aos vapores quentes e macios. Essa amálgama orgânica de folhas e umidade sobre a qual pisava abandonaria meus sapatos, e um brando sopor acolheria meus pés, agora gelados e rijos como tábuas. Minha casa ficava realmente muito perto da de Alfredo, e, embora eu habitasse a parte superior da colina, não via nisso qualquer relação de superioridade, da mesma forma que não me sinto inferior aos seres que habitam a Lua. Meus pensamentos alongavam-se, a calmaria abatia-se sobre a noite e nem mesmo o vento agitava a neblina que se formara. 

Já no segundo quarteirão, no entanto, o calmo silêncio que me acompanhava parecia esmaecer-se aos poucos, e, agora, era possível ouvir o ruflar das asas dos morcegos, encapuzados em seu negrume, sobrevoando a poucos metros do chão. Parece mais frio agora, eu me espantei. A altitude é um fator determinante da temperatura, mas isso não é suficiente, não explica, e deve-se, certamente ao fato de que o banho não foi quente o bastante, eu calculava. Ao longe, um longo silvo deslizava por sobre as copas, um chamado soturno estendendo-se juntamente com as névoas, enrolando-se em volutas ao redor de minhas pernas, de minha cintura. Qualquer outro já teria visto nisso terrível presságio. Eu, porém, nunca dera importância a fantasias. Que bobagem, eu pensei. Isso é o que dá conviver com gente inferior. Isso me faz lembrar tia Rita e seus vaticínios, que, no máximo, eram versos graciosos, embora por vezes macabros. Genaro, igualmente, com seus corvos e sua corujas, abutres e negros cães. Jamais pensaria em extrair qualquer fundo de verdade de suas repetitivas histórias. Monstros, bruxas, todos macaqueiam a troco de nada. Não fazem sentido senão para entreter tolos e crianças, eu repetia. O silvo, então, foi-se apagando, diminuindo, até que cessou, incógnito tal qual havia surgido. Nem mesmo os morcegos voltaram a esvoaçar acima de minha cabeça. O frio, porém, parecia cada vez mais intenso. Acalmei-me, ervilhas fresquinhas haviam de me esperar, Dona Ana ligaria o rádio e Cláudio Eleonor passaria meu terno. 

No entanto, mal havia se instalado o silêncio, o silvo voltava a tocar, bruxuleando desta vez pelas minhas costas, fatal e misterioso. Olhei para trás, receoso. Um vulto moveu-se rápido detrás de um tronco ao outro, pálido. Não lhe pude adivinhar a matéria, talvez... Minhas espinhas eriçaram-se, mas não me dignei a relançar qualquer olhar em sua direção. Continuei caminhando, dessa vez mais rápido, sem me importar com o frio. Mera impressão, certamente, eu divagava, respirando de modo acelerado e já empunhando o guarda-chuva à minha frente. Homem-pássaro, fantasma, vampiro, todos eles têm de alguma forma aparecer primeiro para só então atacar, não é? Nenhum protagonista é vítima do nada. Isso só acontece com os outros personagens, e essa voz íntima é prova de que o que acontecerá comigo de algum modo revelará antes seu semblante. Tentei me tranqüilizar, imaginando iniciar mais um plano para pôr-me em forma assim que chegasse. A escuridão, contudo, me envolvia cada vez mais profundamente, enquanto a umidade das árvores e todo o resto iam se perdendo distantes além da neblina. É noite como qualquer outra noite, e tendo eu saído, retornarei tal como sempre fiz, eu dizia. Arcanos, eu murmurei, não esvoaçam em uma simples noite de banho. Nada, no entanto, mexia-se. 

De repente, um insólito peso improvisou-se sobre a minha coluna, fazendo-me tombar sobre o chão, e, embora sua dureza e realidade mostrassem-se a mim com a dor, minha mente consumia-se atônita em espirais de terror e incompreensão. Caído sobre as folhas úmidas, senti um forte cheiro pútrido, exalando de todos os lados. Um fraco sussurro jazia em meus lábios e meu corpo tremia arfante. Em pânico, girei o corpo para cima, meus olhos desesperados por enxergar o motivo, mas, diluídos no ataque, nada viam e nada percebiam, a não ser as névoas e o frio quase material ao meu redor. Não era possível, eu pensava. Talvez tenha sido um galho, ou um animal grande... como um cavalo. Despencando de alguma árvore? Não faz sent... Foi então que senti algo envolvendo-me os tornozelos, gélido como o ar das catacumbas. Olhei então para baixo e vi. Um esqueleto agarrava-se a mim, os ossos brancos e reluzentes, a olhar-me de suas órbitas vazias e a entreabrir seu maxilar sem que som algum proferisse. Aproximava-se, acendendo-se sobre mim, enquanto meus músculos esmoreciam com o medo. Como em um sonho ruim, ao meu redor a paisagem ruía, meus membros não obedeciam e as árvores ao redor eram sombras cúmplices. 

Larga-me, larga-me - eu repetia, roufenho, indefeso. Sua caveira, no entanto, impassível, tremeluzia de um fúnebre alvor. Arrastando-se sobre mim, deitou sequiosa uma de suas garras sobre meu peito, e, com a outra, envolveu-me o pescoço, possuindo-o em suas descarnadas falanges. Sequer me debati. Meu cérebro sufocava e meus pulmões padeciam de um inane desespero. A caveira aproximou suas órbitas de meus pasmados olhos, assomando sua estranha face em sombrio plenilúnio, a desfazer-me os sonhos e as horas presentes. Um vago estrídulo começou a ecoar em meu crânio, o mesmo silvo que havia ouvido antes, mas agora vindo de dentro. Como um esquecido sentimento, um passado inteiro a pungir-me o corpo, o terrível grito inumano perseguia-me nos mais esconsos recantos de minha alma. Abismos inteiros, crateras, mundos outrora habitados, mas agora em completa desolação, saltavam e giravam em convulsos vórtices. “Dá-me, dá-me!”, eu ouvia murmurar-se em minha mente. A despeito do frio, minhas vestes encharcavam-se de suor. Sentia suas costelas deslizando por sobre mim, arrefecendo-me qualquer esperança, suas mãos agora pressionando forte meu pescoço e meu peito. “Arranca-o e dá-me, arranca-o e dá-me”, dizia a voz, febril. A caveira aproximou-se, então, ainda mais, e meus olhos cerraram-se e meu coração desfaleceu, sucumbido sob a terrível mortalha de ossos. 

Acordei na manhã seguinte, estendido sobre a calçada. Tênues raios de luz chegavam-me à face, e todo um cansaço dominava meus membros. De início, nada entendi. Lembrava-me somente de ter me dirigido a minha casa após ter tomado banho. Depois disso, apenas névoas, um silvo e uma espécie de sonho, um pesadelo ruim. Levantei o tronco, procurando nos bolsos minha carteira, minhas chaves - sabe Deus o que poderiam ter feito comigo naquele estado. Ao deslizar, porém, minha mão, notei que havia um rasgo no casaco, na altura do coração. O pano encontrava-se todo esgarçado, e a lembrança daquela noite voltou. O silvo, a caveira, a dor. Então não era um sonho. Levantei a camisa, tomado de pavor, apalpando minhas costelas, meu esterno, algum indício. Nada. Não havia qualquer sinal de violência, nenhum arranhão, nenhum sangue manchava as vestimentas. Agora, no entanto, tudo retornava. O sentir de suas mãos esqueléticas sobre o meu peito, apertando-me o pescoço, infligia-se novamente sobre mim, como se sua presença não houvesse desaparecido com a chegada do dia. O que teria sido aquilo? Como era possível? Que sortilégio? Talvez Alfredo... Sim, eu pensava. Ele teria entendido a fina ironia em minhas palavras e decidiu vingar-se mandando um esqueleto e... Bom, certamente que não. 

Pus-me de pé, ainda um tanto trêmulo, absolutamente confuso e um tanto terrificado. A aurora já despontava no horizonte, e nenhuma neblina mais turvava minha visão. Certifiquei-me o pulso. Ainda havia um coração, certamente. Pensará que é bobagem minha, porém era o que parecia tão convulsivamente querer extrair. Até então nunca havia ouvido falar de nenhum relato a respeito de esqueletos que atacavam transeuntes durante a noite, e bem que poderia não ter passado de um devaneio. A sensação, no entanto, perdurava, e mesmo agora não estou certo se de fato me livrei de seu terrível peso, ou se, em sempre o trazendo, acostumei-me a ele. De qualquer modo, é uma rua que evito desde então, e hoje mesmo, ao ir comprar pastéis - e eu adoro pastéis -, utilizei um trecho bem mais longo, tamanho o medo, a terrível lembrança e esse peso que não cessa.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Humano com peruca cai





















Sei que parecerá absurdo, mas eu já quis ser humano. Não é tão divertido quanto dizem, com exceção dos patins. Adotei-os para a minha vida em definitivo. E as perucas. Ah, sim, as perucas... Mas, como eu estava dizendo, em querer ser humano, tornei-me insaciável. Não, não falo de cartões de crédito. É outra coisa. Eu queria ser mais do que um humano, queria poder mais do que eu podia, significar mais do que eu conseguia suportar. De meu quarto, centrifugado em meio aos lençóis, sonhos estranhos atormentavam o que devia ser a minha alma. Eu passava horas olhando pela janela, tentando abarcar todo o horizonte de edifícios com uma única pretensão, um único estigma. Um dia, inevitável como eu só agora posso assim dizer, sombras intermináveis atravessaram minhas órbitas, espalhando a loucura pela cidade, empalhando desertores ao longo das avenidas, seus fantasmas de idéias e suas vaidades. Então, quando toda a cidade restou rendida perante meus pés, resolvi que era hora de parar. Liguei os propulsores e parti. Anos de terapia com nossos melhores médicos não seriam suficientes. De manhã, ainda sou capaz de senti-la, interminável, em eterno abismo, agitando-se de entre minhas costelas, meu esôfago. Quando pergunto se podem retirá-la, eles não entendem, respondem que não há nada. Então me levanto e sacudo meus maxilares frouxos. Saio pelo portal e arrasto-me em palidez pelas imediações do palácio, vagando, intransponível em palavras e anseios. E sempre com ela que, temo, nunca me abandonará.

sábado, 28 de maio de 2011

"Antes te houvesse roto na batalha"

Porque é assim: espero meses pela resposta, em dúvidas agonizantes, vendo brumas em meu destino, a cada momento checando a caixa de correio, que quando finalmente chega, já não há surpresa nem ansiedade que me prema o peito. Se sequer houvesse chegado, acho que nem me importaria. Respostas tardias não adiantam de nada - talvez de consolo em saber que não fui ignorado. Mas, mesmo assim, só é consolo se de alguma forma ainda se espera pela resposta. Quando nem isso, é só um "humpf" que me resta.

De qualquer forma, ali está a água, ali na terceira porta do armário está o alpiste. Alimente esse corvo cansado que me entregou a resposta e deixe que parta. Para essa terra misteriosa de negras torres e vazios guardiões, que talvez seja o limbo, no fim do mundo, onde de tudo se esquece, até mesmo do cansaço. Onde a sua carta tremula desolada presa nos galhos secos de uma árvore morta, e onde seres encapuzados caminham em silêncio pela amurada, sem anseios e sem qualquer interesse pelo horizonte que os espreita.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Venham, venham ver

No episódio de hoje (levando-se em conta que, para o bem ou para o mal, eu vivo no Brasil), Sheldon Cooper lançou o seguinte problema:
  1. Em um contrato entre duas pessoas, que chamaremos singelamente apenas para fins didáticos de A e B, B propõe a seguinte cláusula, que deverá ser necessariamente avaliada por ambos antes de encerrado o contrato: "em havendo desacordo entre A e B, de modo que um diga "sim" e outro "não", B decidirá como instância última;
  2. Sendo assim, A, analisando essa cláusula, diz que não concorda. B, ao seu turno, diz que concorda. Desta forma, temos um empate: B diz sim à cláusula e A diz não;
  3. Tendo havido empate, B, então, assume a posição, conforme a cláusula descrita, de árbitro, e decide por sim.
  4. Em decorrência disso, a cláusula é validada e regerá todo o restante do contrato. Basicamente, temos que a única vontade válida é de B.
Acho que, procedendo dessa maneira, a falta de lógica do problema fica bastante evidente. Porém, em defesa de Sheldon Cooper, eu alego que isso só prova que ele é tão humano quanto os demais, não porque seu raciocínio falhou, mas simplesmente porque ele apenas é ilógico quando o interessa ser. Nos demais casos, é infalível e imparcial (talvez atue em defesa do Universo como um todo indissociável, ainda não sabemos).

E é assim que eu salvo a série e dou-me permissão para divertir-me com ela. Não porque eu saiba identificar erros propositais de Sheldon Cooper, nem porque eu digo sim para tudo o que ele faz, mas porque me interessa interpretar dessa forma, e assim vou vivendo. Por exemplo, David Bowie pode fingir dar um chute no traseiro de seu guitarrista que eu tolero. Há todo um contexto ao seu redor que será necessário ele dar muitos chutes para destruir a imagem que faço dele. O que não significa que eu ache essa atitude digna, mas simplesmente porque: todo mundo erra, comete gafes.

Mas talvez ele possa fazer muitas outras bobagens que eu não me importarei. Tudo isso, gostar e não gostar é bastante arbitrário. Nem cotas as pessoas têm: mesmo que a barrinha de vergonha delas extravase, nossos motivos são unidades absolutas, e não funcionam com regras de aritmética. Não é possível subtrair nem somar pontos, e não deixarão de existir enquanto houver razão de ser que os sustente. Eu sei muito bem os motivos que me levam a gostar de Sheldon Cooper, e estão tão dissociados do quão não-engraçado sejam suas piadas que não me importarei.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Albatroz visitante

Foi assim que tudo começou. Ele veio se debatendo na nossa janela. Era um dia frio e tempestuoso. O mar estava agitado, as ondas chegavam a vários metros de altura e alguns barcos morriam despedaçados. "Um albatroz!", gritou Durvalina. Fraco, desengonçado, o mal tempo fizera ruína de suas asas. Abrimos a janela e ele entrou, desesperado. "Comam-me, vim do céu", foram suas últimas palavras. Seu corpo desabava no chão da cozinha. Cortamos a sua carne em cubos. Pusemos pimentões, batatas e cebola. Fervemos tudo até engrossar o caldo. O relógio soava meia-noite e os pratos fumegavam em cima da mesa. Foi a sopa mais gostosa que já havíamos tomado.

Presépio

Voltando para casa em meu carro-forte, de volta ao meu sobrado geminado, parei na loja para escolher os personagens de meu presépio. Todos teriam um lugar na história, inclusive eu, que não gostava de luzes. O seu papel seria o dos Reis Magos, indissociáveis em sua busca. Perdidos na estação rodoviária, mendigando informações a respeito dos portões de embarque para que uma a uma fossem formando o caminho. E uma vez de bilhetes nas mãos, partiriam, cegos e seguros. Jurando, porém, que a sua longa jornada era na verdade a sua própria busca, se dispersariam no meio do caminho, distribuindo olhares pelas vitrines, pelas escadas rolantes, pelas praças de alimentação, até que, um dia, se cansassem de seu desejo. E eu, já elencado em um cenário brejeiro e religioso, apagar-me-ia sob o monte de feno enquanto os Reis Magos,já sem suas posses e já sem suas iniciais vestimentas, confundiam-se à multidão, sem elo.

No entanto, não conseguia vislumbrar mais ninguém para os papéis restantes, nem mesmo um para mim. Na verdade, o elenco já estava completo. Acabei saindo da loja com apenas três bonequinhos. O presépio ficaria, assim, vazio, de modo que, quando enfim chegassem os Reis Magos, não encontrariam ninguém na manjedoura. Um preço que teriam que necessariamente pagar. Plantando, assim, a ilusão em seus peitos, eu dava-lhes cordas para que buscassem até que o mundo se acabasse. Confesso que a mim próprio causava-me estranheza, e, dirigindo absorto, não percebia que me perdia pelas ruas, cruzando semáforos sem olhar e assustando pedestres carregados de sacolas. "Quantos sapatos vermelhos você tinha que comprar?", eu gritei pela janela. Seria realmente excêntrico.

Mesmo assim montei o presépio na sala. Abri uma garrafa de champagne e esperei. No relógio, os ponteiros marcaram meia-noite em ponto, e, mesmo sem badalo, soou a noite. Abri a escotilha do porão e busquei mais provisões de vinho e pão. Não sabia quantos magos seriam, nem se sendo três reis magos não seriam na verdade já seis. Desabotoei o casaco que eu sempre quis ter e sentei. Enquanto esperava, fiz de mim peru assado, mingau de ervilha, arroz temperado. Tudo o que eu imaginava que alguém pudesse gostar. Deitei na manjedoura e cochilei. Se eu não conseguisse acordar, os convidados tocariam a campanhia e ninguém viria lhes abrir a porta. Ninguém comeria o jantar e ninguém entregaria os presentes. Pelas janelas fehadas do sobrado veriam que as luzes estavam apagadas e assim iriam embora. Era um risco que eu corria.

Mas era no ponto de ônibus que eu me encontrava, sozinho, olhando para um cachorro vagabundo que se abrigava debaixo de uma marquise. O presépio emudecia, vazio, no canto da sala, sobre o aparador. O que existia era a espera do último ônibus do dia. Fechei a jaqueta de tactel para mais perto do corpo, pois que fazia frio. Meu tênis impermeável não podia, contudo, evitar que a chuva molhasse o cano da meia que a barra curta das calças expunha. Os Reis Magos eu já tinha, embrulhados no fundo dos meus bolsos, e eu faria de tudo para que chegassem ao seu destino. Ao cobrador do ônibus ofereceria a minha alma e o meus antepassados. E se isso não funcionasse, lhe daria o relógio de pulso. E se não houvesse a trajetória, seria necessário entregar os próprios Reis Magos. Mas então de nada adiantaria chegar.

Entrei no ônibus, arrastando os calçados úmidos pelo chão metálico como se patinasse. Tentei abrir a janela, mas estava trancada, e embora eu tentasse desembaçar o vidro, conforme avançávamos, menos podia ver lá fora. Sentei os Três Reis Magos nos bancos da frente e um ao meu lado. Perguntei a um deles se esse era mesmo o ônibus certo, pois eu não conseguia ver o caminho. "Disfarça", ele disse, "que tem gente olhando pra você". Achei deveras tolo, pois no ônibus não havia quase ninguém, e, estando as luzes apagadas, não haveria como me reconhecer. "Presta atenção você", retruquei, "que da última vez você não conseguiu achar nem o endereço. E vê se faz bonito, porque não vai ter ninguém lá para lhe corrigir". E, de fato, quando enfim chegássemos, não haveria ninguém no presépio esperando.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Desertor porque desertor

Algumas situações me pegam pelo braço com a força de quem quer me ver famoso, fazendo sucesso como um artista de filme americano. Há outras, porém, que igualmente me pegam pelo braço. Sim, mas é para arrastar-me ao armário de limpeza, confundindo o meu lindo terno amarelo com pregas que o meu alfaiate levou semanas fazendo com o uniforme de algum agente da faxina; ou simplesmente porque eu estava parecendo um esfregão. Essa coisa de vestir peruca com tiras de pano retangulares e andar como se estivesse com as juntas das pernas imobilizadas; não funciona, como empiricamente comprovei.

Eu não sirvo para o papel de quem distribui o bolo. Eu nasci para comentar mal do bolo e fazer beicinho com o copo, para ornar a samambaia com os meus braços e jogar-me no chão aos berros: "Derrubaram suco na toalha! E molho também!". Meu coração se fatia quando é obrigado a dar sem amor verdadeiro. Eu digo para ele: "Coração, não se estrangule, não se mate". Mas ele está muito além de mim, e inevitavelmente se suicida para o escândalo dos demais órgãos vitais.

Quando me pediram para que eu distribuísse os copinhos de refrigerante tive vontade de ser a Shadowcat e ir-me lentamente afundando pelo chão até o térreo. Mas, como a gente é gente, e como tal nos sujeitamos a leis físicas e morais que não controlamos, tive de aceitar o encargo e comecei a distribuir. Após o quarto copinho, já estava com vontade de entorná-lo no conviva. Sinceramente, o refrigerante estava ali, sem zona de proibição ou de segurança, sem alarmes e atiradores de elite. Quem quisesse que atingisse a autonomia de pegar. Saí de fininho e não voltei, para longe desses seres prestativos e nocivos ao meu espírito.

Por quê? Porque o Murilo é um moço excelente que descobriu muito cedo que existe o nosso mundo e esse mundinho aí no qual vocês vivem. E lutou bastante para conseguir passar para o lado de cá. E passou. Porque o Murilo não é moço de ficar distribuindo bolinho, copinho de refrigerante... Nasci para ser uma ponte, um rio e só, enrolado em zibelina e fazendo barquinhos de dinheiro. Quanto ao resto, que se limite a  pagar o meu táxi, ou, se preferir, a minha passagem de ônibus, que não sou assim tão ruim que não consiga sustentar ares de paciência e benignidade.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Eu vos apresent... Ei!

Aforismas do Dr. Cebola:
I - "Nas gôndolas não hesitar, no sol não bobear"
II - "Para um bom caldo, coração não basta"
III - "Doença de alma se arranca pelo nariz"
IV - "Eu não sei, não, mas terra boa mesmo é só da nossa hortinha"
V - "Cebolinha, por que tão caprichosa se é teu o meu tempero?"

Agendinha do Dr. Cebola:
Segunda-feira: Dia Feliz - não trabalhar
Terça-feira: Insurgir-se contra o sistema
Quarta-feira: Feira do produtor com a Dona Marta
Quinta-feira: Olhar a chuva
Sexta-feira: Dormir na terra
Sábado: Sopa no jantar, tempero na carne, rodelas na salada
Domingo: Renascer da mãe-terra

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Florença

Eu estava aqui pensando em como enciclopédias e livros de história abusam da expressão "cidade florescente". Né? Qualquer vilarejo com quinhentos habitantes torna-se "cidade florescente" se está às margens do Mediterrâneo e vende azeite ou cerâmica. Como é que pode? Toda cidade com que me deparo e lá está: florescente cidade ou expressão equivalente. Qual é o critério afinal? Repentino inchaço populacional? Mas daí, iluminando-me mais um pouco, eu pensei: mas é claro, né, Murilo. Você esperava o quê? Que os livros mencionassem as cidades medíocres? "Mitzbeu'h Am-Zalam: surgida no ano de 2.000 a.C às margens do Pirapó. Criavam ovelhas. Submeteram-se a toda e qualquer potência regional. Nunca se rebelaram. Inicialmente com cerca de 15 edifícios, hoje conta com 13. Sem expressão política ou cultural. Uma vez tentaram construir uma biblioteca mas o projeto não chegou a ser votado pois a população havia se recolhido nas cavernas durante as enchentes ocorridas naquela época". Não, né? Der... O que fica nos registros históricos são as cidades florescentes, e mesmo as decadentes pressupõem esplendor em algum momento de sua história. As medíocres, as inexpressivas só servem mesmo como curiosidade arqueológica, e poucos se ocuparão delas.

Conclusão: Há que se esperar o ato de molhar o bico.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Oh, Caudilho, leva-me este cacto

- Por que você quer saber? - eu pergunto.
- Porque é isso o que pessoas normais fazem! - responde-me a sabedoria encarnada.

Bom, se concordo ou discordo, a verdade é que eu realmente não sei o que pessoas normais fazem, o que pensam, como interagem, e quanto mais as analiso menos quero saber. Vejamos, segundo esse ser superior que se ergueu contra minha reclusão, pessoas normais fazem perguntas. Pessoas normais igualmente trapaceiam, tecem comentários incoerentes, fazem cálculos errados. Se um fenômeno ocorre com determinada freqüência, a sua correção não será proporcional a essa mesma freqüência. A natureza fede, apodrece. Espécies inteiras esforçam-se para se adequarem ao ambiente, o qual as condiciona e as maltrata, e a todo instante correm o risco de serem dizimadas. A natureza (sinceramente, isso devia ser óbvio) erra. Logo, normalidade não é critério, é fato, e não serve como argumentação.

Para mim, o mundo bem que poderia se parecer com aquilo que imagino que Titã deva ser: um mundo gelado, encoberto de brumas e povoado de lagos silenciosos. E, nesse mundo, não haveria chatos a me fazerem perguntas que não devem. Não porque suas perguntas sejam esdrúxulas, mas pelo singelo fato de que, quando educadamente indago do motivo de sua pergunta, é porque não o considero autorizado a saber. Entenda, não porque o considero burro, ou mesmo pedante, ou mesmo de modos asquerosos e impertinentes, mas se eu mesmo não contei a você é porque eu não quero que você saiba. É difícil?

O mundo é assim: uma algazarra aviltante a que eu pacientemente tento enxergar uma ordem. Por favor, não pense que eu me juntarei a isso pelo mero fato de que eu o compartilho com você. Há fatos que eu não posso controlar, e nem por isso os encaro como corretos.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Melhores dias

Eu inventei uma piada e não sei o que faço com ela. Infelizmente tive a idéia durante meu estágio, distante de qualquer pessoa que pudesse rir dela. Minha ansiedade era tanta que tive ímpeto de contá-la ali mesmo, mas demoraria tanto para explicar os detalhes, e seria tão penoso para mim gesticular de modo que entendessem melhor (eu não precisaria gesticular em outras ocasiões, o entendimento se daria por intermédio da imaginação), que desisti.

É assim: os alienígenas chegam à Terra, encontram um humano e falam: "Nós viemos destruir a Humanidade inteira porque ela se tornou uma ameaça a todo o planeta Terra, e não podemos nos dar esse luxo porque mundos que suportam a vida são raros no Universo". O humano, que é um professor/cientista/intelectual, responde: "Oh, meu Deus, vocês têm toda a razão. Somos maus mesmo. Ok, aceito". Mas então os alienígenas percebem que o humano estava ouvindo uma música e falam: "Oh, meu Deus, eles também ouvem Cat Power! Ok, não mais. Ainda há esperança". Daí eles desistem de destruir a Humanidade e vão embora.

A piada aceita qualquer outro artista. Coloquei Cat Power apenas como exemplo, mas poderia ser qualquer outra coisa. Aconselho um artista badalado, não necessariamente pop, mas de compreensão geral. Você pode contar para quem quiser, eu deixo. Atingi um ponto de não-egoísmo hoje. Nada me pertence. Sou átomo do Universo [abrindo os braços e empurrando a cabeça para trás com os olhos fechados].

domingo, 17 de abril de 2011

Roleta Russa, que me fizeste?

Foi numa sexta-feira, numa ocasião de faxina. Eu estava aqui, em meu apartamento, limpando o chão da cozinha, rabiscando a parede com molho de salsicha, quando então veio. Não bateu na porta, entrou rolando pelo chão úmido, se jogou contra o meu esfregão e não largava de jeito nenhum. Agarrado às tiras de pano, gritava meu nome, berrava que iria vencer antecipadamente todas as minhas contas, disse-me coisas atrozes. Eu, claro, botei no colo, afaguei, dei sopa. Na sujeira em que esperneava, eu, do alto de minha recém-indolência, tão arduamente adquirida, me condoía. Uma jóia rara, um anel que caía assim no dedo, não podia ser desperdiçado. A oportunidade escolheu a minha porta entre tantas outras, não cabia a mim, já hipnotizado pelo tempo, desprezá-lo.

Nem de longe, no entanto, quis tê-lo. Não o estimava, na sala não lhe velava, no centro da mesa não me chamava a atenção. Quando o encontrava, era como um tropeço. Dentro do meu armário, na gaveta da escrivaninha, no fundo da geladeira, logo atrás da alface, guardado para supostamente mais tarde. Mas se me lembrava era somente em ocasiões de surpresa, de susto. "Você ainda aqui?". Os únicos momentos juntos foram no sofá, assistindo à novela das oito, enquanto ele servia de suporte para a minha bandeja de chá com pipoca. Às vezes chorava, soluçando um tanto, fazendo trepidar a xícara. Eu mudava o canal à sua revelia, sem me importar, distraído. Confuso, me olhava, súplice, e eu, clarividente como uma rocha pode ser, perguntava se queria mais gelatina ou se o som estava muito alto.

Não demorou e acabei enrolando-o em meu tapete. Era já noite, deixei minha sopa esfriando em cima da mesa. Abri a porta de meu apartamento e, do corredor, o desenrolei pela escada do edifício, e ele foi rolando, assim, até o térreo. Eu era tão pleno que não poderia perceber. Desci sobre o mesmo tapete e encontrei-o estendido, ofegante, quase morto lá embaixo. Abri a porta e ele foi saindo, deixando um rastro de terra às suas costas. Voltei e terminei o meu jantar. A sobremesa demoraria, mas eu a esperava como esperaria a sua volta. E, de hipótese em hipótese, vaguei, imaginando seus próximos destinos, até que, de cômodo em cômodo, se desfizesse e eu também. Olhei pela janela, pelas ruas pairava uma densa neblina. De vulto em vulto, ele poderia estar em qualquer um daqueles carros. Permaneci em vigília até que amanhecesse.

terça-feira, 29 de março de 2011

Ponto Euxino

À minha vitória desta tarde, uma saudação. Como vou explicar o gosto da vitória? Melhor não. Antes mais calmo, menos ufano, menos estrídulos de talheres. Meu coração agora está no Ponto Euxino, e em nenhum outro lugar senão em sua distância. Por que tudo isso? Porque ninguém melhor para se vencer que o seu próprio vencedor, sem que para tanto houvesse sido necessário qualquer estratégia. O acaso se encarregou de minha vingança, e prostrado o fez ante meus pés. Que direi agora? Que o meu valor está longe, em voluntário exílio, e de lá o observa, contente. Não necessitar sujar as mãos deste mundo, essa é uma vitória que não tem preço. Em minha nobreza nunca desacreditei, e foi isso que me fez velar por ela. Se me desconcentro e caio nas parvalhices que costumam me dizer, como se eu não soubesse e como se eu não os desprezasse, como se eu não me aturdisse e não me fizesse absolutamente desiludido, que serei eu? Não restou nada a não ser isso. Muitos que se transformaram em monstros, ou talvez sempre tenham sido, eu não sei. Mas eu não. Minha vitória foi bradada no Ponto Euxino, há milhares de quilômetros daqui,  cujas águas ninguém vai ouvir, e eu mesmo só sinto por inspiração. Alguém como a Chiquinha, alguém como a Umbanda. Lambada e outros ritmos decadentes. Eu não. Trabalho e tomo banho que é para ser limpo. Sentar na mesa e comer meu prato honesto. As sujeiras reservo para o meu lenço, o qual guardo muito apropriadamente em meu bolso. Afinal, e é bom relembrar, fazer de seus próprios vícios bandeira é cinismo e não sinceridade.

Hipocrisia também é um assunto que me incomoda e me pertence. Mas hoje não é o dia. Talvez para Botânica. Talvez para Heráldica. Hoje é um dia de vitória, e não importa o que é o passado, o que são as minhas marcas, o que fui. A aparência me redimiu, de minhas escolhas e de meu sombrio íntimo. A minha atualidade lava minhas vestes, longe, nas águas frias do Ponto Euxino. E basta. Como diria Sheldon (The Big Bang Theory): "Para a sua sorte, a metáfora acaba por aqui".

domingo, 27 de março de 2011

Fica esperto, Sieyès

Em minha busca entediante, quase aflitiva, por conhecimentos acadêmicos, deparei-me com o seguinte trecho de um artigo na Revista de Direito Constitucional e Internacional: "Segundo Sieyès (1982), o supremo poder no Estado não cabe ao povo, ao conjunto de homens num determinado momento e em um determinado território, mas à nação, que é uma entidade abstrata, a personalização dos interesses permanentes e profundos de um povo, das gerações em sucessões. Quem é representada é a nação, e não o povo. Este ao votar age como órgão da nação para a escolha de seus representantes. Assim, ao votar o indivíduo formula a vontade da nação soberana".

Curioso para saber mais e... Bom, na verdade mais por dever mesmo, resolvi ir atrás desse tal de Sieyès, tendo como única pista a referência bibliográfica deixada pela cara autora, de onde supostamente teria inferido a assertiva citada. Para minha sorte, a referência em questão era apenas um panfleto escrito à beira da Revolução Francesa, de poucas páginas e facilmente encontrável na internet: "O que é o Terceiro Estado, por Abade Emmanuel Joseph Sieyès".

Pois bem, tendo lido e relido o panfleto, ficou a pergunta: onde diabos Sieyès disse isso? Pois eu não encontro em lugar algum, e mesmo que fosse possível assim inferir, só se por meio de interpretação em conjunto com outros textos, o que aparentemente não aconteceu. Se é verdade que em algum lugar ele disse isso, certamente não foi nesse panfleto, o qual talvez ela nem tenha lido. Mas se leu o panfleto, dolosamente mentiu, por indolência ou egoísmo, que tal informação ali poderia ser encontrada. E se essa informação realmente existe, onde quer que ela tenha lido isso, não foi diretamente através de uma obra de Sieyès, mas de um autor qualquer que dolosamente omitiu em sua bibliografia final.

O que aprendo com isso é a desilusão, o ceticismo, o cansaço de mundo. O que faz uma pessoa agir assim? Indolência, pressa, ganância, sei lá eu. Não confio mais, eis tudo. Essa questão já havia passado pela minha cabeça repetidas vezes, mas até ter experimentado concretamente não pretendia levar a sério. Afinal, precisamos confiar nas informações que nos transmitem. Não é possível vivermos o tempo todo alertas. A desconfiança em demasia é nociva, beira à loucura. Mas é surpreendente como a mentira chega aos detalhes.

Isso é um aviso pro Sieyès, a fim de que tome as providências que achar necessário. Quanto aos outros, fica dado o alerta: acaso resolvam agir da mesma forma, fiquem sabendo que, sim, há chatos como eu que não se importarão nem um pouco em conferir e difamá-los. Aliás, o nome da autora é Regina Macedo Nery Ferrari. Vejo um dedo podre apontado para você.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Álibi

Sequer mais é ódio, é luxo. Treze portentos, treze destroços na praia. Há mais, eu pergunto. Porque se houver, quero que venha com diamantes. Caixas enormes, pesadas deles. Vou pôr diamantes em minha banheira, em meu cabelo e em meu café. Meu cachorro vestirá pulôver, e meu cacto se sentará à mesa de jantar, junto aos demais. Desde o dia em que comecei a suspeitar que toda pessoa merece ser tratada dignamente, não importa o que seja (e nós sabemos que a maioria de nós não vale a lasca de meu anel de zircônio), resolvi que então todos comerão diamantes. Eu comerei diamantes e vocês também, com ou sem tempero. Não arcarei esse luxo sozinho, não se iludam. Não, não é rancor. É vaidade. Inclusive confesso que é pertinente tão só a mim. Para que se sentem diante de seus pratos, mandarei casacos em suas portas. Bolsas. Chapéus. De que mais precisam? A dignidade ornamental daquilo que carece em inteligência. É razão mesmo de que falo, não se precisa sequer de conhecimentos em química ou outra ciência que seja (desde que verdadeira). Inteligência sei que não têm, por isso mando convites analíticos. E gravações, para que não se esqueçam durante o caminho. De beleza igualmente são desprovidos, e os que a têm a estragam da forma mais deprimente que podem. Mas as suas caras pastosas combinam tão bem com meu ranço e com a sopa amarga que lhes servirei que não me importo. Não esperem de mim sequer o tédio. Esperei tanto por vocês, e de uma forma tão ridiculamente egoísta, que não há espaço em mim para fingir o tédio. Eu os concebi em meus planos, objetos, orgânicos, compostos de qualquer coisa. Abro a porta, mostro-lhes o saguão. Seus lugares já estão marcados: desenhei flechinhas. Acredito no meu livre-arbítrio, não no de vocês. Puxo-lhes as cadeiras, penduro seus casacos. Que cor bonita eu não lhes escolhi, admiro-me. Cumprimentem o cacto, eu lhes peço. O pobre sequer sabe que é uma peça do meu xadrez.

terça-feira, 22 de março de 2011

O que farias por um milhão de guaxinins

A insistência de fazer da vida mais insuportável do que já é é um encargo de que me incumbo. Não por cansaço, não por ousadia ou desamor aos valores de nossa sociedade. Mas por ignorância mesmo. Bestial assim como me tomam. Fazer-me tolo e servil ante vossa gloriosa indolência é um regozijo que não encontro em fontes alternativas de energia. Como o carvão. Como as usinas nucleares. Ai, minhas mãos secas de fuligem e esse inefável sabor de derrota. Como poderia viver sem? Como alguém poderia imaginar viver sem? Insuportável em minha grafia e em minha dicção, contorno esses obstáculos tão cuidadosamente postos na esperança de que me edificassem. Mas edifícios já existem de monte, eu digo. A minha construção pessoal eu a toco tão egoisticamente quanto posso, até que eu atinja esse espaço intangível que, gosto de acreditar, foi projetado muitos milênios antes por uma civilização alienígena compadecida de criaturas  do meu tipo. Quero distância e tão só. Seja na lama ou nos páramos em que vos inoculais. Pois tolo igualmente sou, e não faz diferença a forma como se procede. Burrice é uma coisa que transcende níveis culturais.

Ah, modernidade, que me cansa e me atropela. E em não acreditar em minha própria boçalidade, e em descrer de minha própria inaptidão, refestelei-me em meu paiolzinho. Mandem minhas lembranças para os obeliscos, os grandes Budas de pedra. Digam que sempre me lembrarei delas, as pirâmides. Minhas considerações às catedrais, aos arranha-céus. Hoje eu como no cocho.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Obituário

Há cinco coisas pelas quais nutro efetivo ressentimento: a) refinamentos; b) inaptidão para o trabalho; c) misericórdia desmotivada; d) excesso de alimentos; e) tomada de decisões fundamentadas no coração. Por outro lado, há cinco coisas pelas quais prezo, independentemente do quão equivocadas e absurdas na prática sejam: a) racionalização dos sentimentos; b) destruição da camada de ozônio; c) estatização das formas de exploração dos recursos naturais; d) dialética na argumentação; e) lógica.

Embora não elencado, há o sexto elemento de minha lista. O que realmente faz meu cérebro doer, o que arde em minha alma e suja o lenço do meu bolso é o feito que, se feito por mim, teria sido incomparavelmente melhor. Acho injusto, imoral, humilhante que alguém ganhe dinheiro com uma coisa tão ruim, enquanto eu, que poderia fazer muito melhor, fico aqui a engolir artigos secos e a defender leis e ordens. Do que estou falando? Ora, das frases sortidas do Serenata de Amor da Garoto! Esse bombom que quer mais romance e sei lá o quê. Olha só que triste:

"E assim tudo começou. Se você não consegue dizer o que sente, dê uma dica e espere. Antigamente, as pessoas faziam serenata. Hoje, uma boa idéia é comprar um Serenata em qualquer supermercado."
Ou seja, declare-se com uma frase do tipo "quem tem um amor platônico..." ou "pesquisas científicas indicam que...", que é o que você vai encontrar nesses bombons.

"Boca seca, taquicardia e tremedeira configuram o que chamamos de 'amor à primeira vista'. Segundo a psicanálise, a expressão correta é 'paixão à primeira vista'. Seja qual for o nome, é bom pra caramba."
Em que pese a linguagem jornalística e as informações pseudocientíficas (afinal, todos sabem que a psicanálise não é uma ciência), era para ser uma frase de amor. Fail. Sem falar no final, que é uma espécie de "vamos usar nossas bundas para viver".

"Amor platônico só existe na imaginação de uma pessoa, e o outro nem desconfia que é amado. Se você está nessa situação, só temos uma coisa a dizer: não queríamos estar na sua pele".
O que é isso, meu Deus? Lança desconfiança onde ainda não tem, e depois se pretende um bombom a ensejar 'romansse'? HAHAHAHAHAHA. Parece um cartão ruim de feliz aniversário!

"Amizade pode se transformar em amor? Pode. Mas, se você já está apaixonado, dificilmente esse papinho de amizade vai colar."
Não faz sentido algum. Se se afirma inicialmente que uma amizade transformou-se em amor, como é que depois... Qual é o seu QI? 90? HAHAHAHAHAHA. [Engasga com o chá].

Há mais, mas os bombons acabaram. Céus, era para ser algo tão fácil, mas tão fácil, que eles devem ter feito isso de propósito. Não é nem um pouco difícil. O assunto justamente mais explorado e procurado em poesia, principalmente quando em música. Qualquer poeta vagabundo de esquina pensa melhor. Por experiência própria. E fazem rimando, inclusive. Sinceramente, eu é que deveria estar ganhando dinheiro com isso. Eu faço muito melhor, mas muito melhor. Sou eu que mereço uma banheira. Sou eu que mereço lenços bordados. Eu. Eu. E não esses que não possuem senso algum de lógica. Garoto, contrate-me. Mas eu cobro caro, sim? Muito caro. Credo, é como se fossem o ranho de meu lenço.

Malditos. Eu, aqui, usando sachê e adoçante porque o açúcar acabou. Ah, prostrem-se ante meus pés de prata gélida. Beijem os anéis de sangue de minha mão. Contemplem minha imagem terrível e curvem suas sombras ao vale profundo de minhas órbitas. Quero que todos desabem em minha superfície de ódio e destruição. Quero limousines, mansões e bancarrotas! Vou afogar as mágoas em minha xícara e comer meus rins com as torradas. Pois não é justo, não é justo.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Sepulcros no ar

Há horas em que paro, fito as estrelas e penso: "Está na hora de passar uma mensagem de paz, amor e harmonia, uma mensagem que faça as pessoas se sentirem bem e que motive o bem acima de tudo". Mas então logo me ocorre que o maior bem que almejo para a Terra seria uma humanidade toda trabalhada na engenharia genética, um mundo de natureza 100% controlada, um lugar totalmente feito por humanos e para humanos. Daí eu me lembro porque as pessoas não deveriam votar em mim caso eu me candidatasse a um cargo político.

"Mas, meu filho, não tem consciência do perigo que isso seria?". Tenho, claro, sou estudado nessas coisas. Porém não sou eu, é o mundo que caminha nesse sentido, e não vejo problema algum nisso. Se você pudesse garantir que uma pessoa nascesse sem doenças genéticas, você não garantiria isso? Ou será que você confiaria nos místicos processos da natureza que, por sinal, fazem tanto sentido quanto você pretender que têm? Eu acho que não. Você projetaria o mais perfeito que pudesse. Riscos? Bem, é difícil confiar totalmente na Ciência, e projetos semelhantes quando ainda se dispõe de pouco conhecimento a respeito realmente poderiam trazer mais mal do que bem. A começar pelo singelo fato de que a natureza, por enquanto, seleciona genes de um modo muito mais adequado do que se estivesse em nossos cuidados.

Mas a natureza não é uma deusa, e suas falhas podem ser corrigidas. O bom de se viver na modernidade é que o impossível e o inalcançável é uma questão técnica, e não mais metafísica. Marte não é um mundo inóspito porque a humanidade está fadada por uma ordem superior a rastejar na Terra, mas tão somente porque não dispomos de tecnologia que possibilite a nossa vida lá. Ainda. Os limites são paupáveis e cognoscíveis, não dependem de nossa fé. Não é maravilhoso? Profilaxia. Exatidão. Beleza tecnológica e genética. A modernidade tem muito ainda por nos proporcionar.

Terrível, não? Eu sei. Pergunte-se agora porque a história de "Admirável Mundo Novo" não assusta as nossas gerações. Tornou-se tão paupável. Eu não vejo muitos problemas no apocalipse que pretende o autor. A ruína da civilização não é relativa? Não tendemos a ver a mudança dos atuais valores como decadência? Acontece, entretanto, que nem mesmo isso é possível garantir, e mesmo a destruição de toda a humanidade é uma possibilidade tão real quanto a sua sobrevivência. Podemos fracassar a qualquer momento, seja pelas nossas mãos, seja por meio de causas externas. E não há nada lá fora que diga qual é o certo e qual é o errado.

Ah, engenharia genética, ouve a minha prece. Pode ser que, por nossa própria limitação cultural, destruamos muitas possibilidades. Por outro lado, muito sofrimento, tão inútil e tão não-edificante para si e para os seus ao redor, poderia ser eliminado. Tudo o que eu quero é um mundo mais bonito, onde seja possível garantir que uma pessoa não nascerá com um corpo degenerado. É errado? Problemas serão muitos. Mas serão novos problemas, e não há razão para permanecermos nos debatendo com problemas cuja solução já se encontra ao nosso alcance. Não faz sentido, entende? Não, você não entende. Entende sim.

domingo, 13 de março de 2011

Gólgota iluminado

Há um fenômeno que vem ocorrendo em meu quarto há pelo menos cinco anos. À noite, uma única abelha entra em meu quarto através de pequenos buracos em minha janela e voa em direção à lâmpada. A lâmpada, por sua vez, é protegida por uma cúpula de vidro, de modo que a abelha, voando em direção à lâmpada, consegue facilmente entrar mas não sair. Ela luta desesperadamente por sair e ao mesmo tempo sentindo-se atraída pela luz. Certamente seu corpo deve sentir dor enquanto se debate contra a lâmpada, ou algo semelhante a dor. "O constante contato com o forte calor da lâmpada e o excessivo dispêndio de energia são causas fatais", garantem os especialistas. A abelha zumbe por muito tempo até morrer. Minhas reações, ao seu turno, consistem em:
  1. Sentir medo, pois se não morrer e conseguir escapar, ela vai voar para cima de mim e... me matar;
  2. Sentir irritação, pois não consigo me concentrar com seu zumbido de agonia;
  3. Sentir pena, pois afinal é um ser vivo, que produz mel e é bonitinho;
  4. Sentir ânsia, pois a expectativa da morte não é das mais agradáveis.
Geralmente acabam morrendo. Em casos mais raros, há as que conseguem escapar. Das que conseguem escapar, algumas delas acabam morrendo no chão do meu quarto pois, ou estão muito fracas para voar, ou suas asas estão bastante danificadas, ou mesmo ambos, enfim. Uma delas eu tentei salvar resgatando-a do chão e colocando-a para fora de meu quarto em uma folha de papel, mas ela não voou e acabou caindo feito um inseto sem asas no chão da garagem. Ela ainda estava viva. Fracassara. Mas há, no entanto, aquelas que escapam completamente da morte e conseguem voar através da janela rumo às suas casas, vitoriosas.

Minha conclusão: estou presenciando a evolução natural das abelhas. Só aquelas inteligentes e fortes o bastante para escaparem da prisão de vidro e sobreviverem à armadilha transmitirão seus genes superiores às gerações seguintes. Meu trabalho: observar e não ajudar as fracas, garantindo, assim, que somente as aptas sobrevivam. A natureza: sutil e asquerosa como a picada de um inseto. A lâmpada de meu quarto: um pequeno gólgota randomicamente escolhido pelas abelhas para ali acharem a sua ruína e seu futuro geneticamente melhor. Amém.

terça-feira, 8 de março de 2011

Traço 9

O PROBLEMA

Pois bem, a constituição do que denominamos de "boa-vida" tem se tornado cada vez mais difícil, e os caminhos que a ela conduzem estão cada vez mais raros e difíceis de serem tomados. Dados obtidos da Universidade de Colúmbia demonstram que, hodiernamente, a formação rápida e fácil da fortuna não pode ser obtida através senão da patente de um invento. A apropriação psiquíco-privatístico-financeira de uma descoberta, embora moralmente controvertida nos meios vulgarmente denominados "hipongas", permite ao seu autor não somente fama, coisa que cada vez é mais dispensável e vago em nossa sociedade, mas, sobretudo, dinheiro suficiente para condicionar uma vida de ócio e luxo. Há os que aduzem que resultados semelhantes podem ser observados em atividades como "apostar" na bolsa de valores. No entanto, "apostar" na bolsa exige perspicácia, coisa não muito observável em quem procura o ócio. Ou, ao menos, o que procuro não pode ser alcançado senão por métodos intuitivos e desconcentrados em objetivo.

Foi pensando nisso que resolvi dedicar o meu tempo em busca de algo absolutamente novo e útil, algo pelo qual as pessoas sonham em ter mas sequer imaginam como isso seria possível. E, olhando para o meu quarto, percebi que certo objeto ocupa estranha e insistentemente pelo menos um oitavo do espaço disponível: o armário. Pode não parecer muito, mas leve-se em consideração que em um quarto deve haver minimamente uma cama, uma cadeira, uma mesa/escrivaninha e um armário. Se um quarto possui 12 m², supondo que uma cadeira ocupa 1 m², uma cama 2,16 m², uma escrivaninha 1,8 m² e um armário 1,5 m², temos então que pelo menos 6,46 m² do espaço encontra-se ocupado por um objeto sólido e relevante, restando, ainda, 5,54 m² por onde transitar. O que foi? Ainda não conseguiu visualizar o problema? Pois saiba agora.

O seu armário ocupa, em geral, um oitavo do espaço não porque um armário deve ocupar um oitavo do espaço, mas simplesmente porque esse é o máximo de tamanho que consegue alcançar. E, no entanto, sabemos que esse tamanho não é suficiente para abrigar todas as nossas coisas. Ventiladores, casacos, cachecóis, miniaturas de ídolos pagãos, patins, balas de hidrogênio, jogos de tabuleiro. Todos eles e muito mais competindo aguerridamente por um espaço tão limitado. "Onde guardarei o meu exoesqueleto?", você pensa. "Onde porei meus vestidos de casamento?", você se espanta. As portas não ficam maiores através da vontade. Novas prateleiras não surgem por mágica, nem que você pranteie o mundo. Seu armário é diminuto para fins práticos, e não porque você precisa de menos coisas.

Além do que, repare que o espaço ocupado pelo armário impossibilita a plena manifestação da vida em seu quarto. Imagine como seria bom ter um sofá de três lugares em seu lugar. Imagine que incrível poder dar uma festa em seu quarto, com direito a luminárias, castiçais e pista de dança. Contudo, contudo... O seu armário ocupa um oitavo de seu quarto, e nada disso poderá ser feito. Esqueça aquele mostruário de elementos químicos raros. Esqueça aquela coleção de enciclopédias. Ele ocupa um oitavo da sua vida, e nada pode ser feito. Se seu armário fosse menor, tanto seria possível, e tanto espaço você teria... Para comer, dançar, comemorar e correr. Percebe agora?

Eis, portanto, o nosso problema: o armário é pequeno demais para todas as coisas que você pretende guardar, e, ao mesmo tempo, grande demais em relação ao tamanho de seu quarto.

A SOLUÇÃO

Então eu pensei: como fazer um armário que fosse simultaneamente espaçoso e compacto? Parece impossível? Einstein sabe que não. Quando imprimimos velocidade a um objeto, este ao mesmo tempo ganha massa e sofre contração em seu tamanho. Deste modo, se fizermos com que um armário viaje a uma velocidade próxima à da luz, teremos um objeto menor e mais massivo. Isso nos permitirá construir enormes armários que ocupam um reduzido espaço dentro do quarto. As vantagens? Muitas:
  • A enorme velocidade fará com que o armário fique muito maior e muito mais compacto, proporcionando-lhe mais espaço interior e exterior;
  • Coisas que antes eram reservadas para o porão poderão ser acondicionados em seu armário, como bicicletas, material de construção, ferramentas, etc;
  • Você poderá organizar um ateliê de costura, pintura ou fotografia, ao seu gosto, e ainda assim sobrar espaço para a sua coleção de sapatos e casacos;
  • As suas roupas, devido ao efeito da dilatação temporal, parecerão envelhecer mais devagar, o que significa roupas mais duradouras e preservadas;
  • Você poderá dormir dentro do armário, e assim envelhecer mais lentamente;
  • O seu dinheiro estará livre dos efeitos inflacionários;
  • E muito mais.
"O que acontece quando unimos a Física Moderna com a indústria moveleira?", eu brinco. "Armários viajando a uma velocidade próxima à da luz", eu respondo. Minhas lentes de contato já conseguem refletir as verdinhas; meu coração já se refestela em ouro e porcelanas caras.

Ah, o brilhantismo... Tão raro e tão fugaz. Como eu sempre digo, o mundo está na palma de sua mão, bastando poder. Digo, querer. Não, é poder mesmo. Quem quer não pode se não pode. Mas quem pode e quer é alguém em ação. Dêem-me um pouco de velocidade da luz, um pouco de conhecimento elementar em física e um pouco de cega confiança em meus valores estéticos, e eu transformarei a Terra em uma parque de diversões. Para o bem. Para o mal.