sexta-feira, 18 de março de 2011

Obituário

Há cinco coisas pelas quais nutro efetivo ressentimento: a) refinamentos; b) inaptidão para o trabalho; c) misericórdia desmotivada; d) excesso de alimentos; e) tomada de decisões fundamentadas no coração. Por outro lado, há cinco coisas pelas quais prezo, independentemente do quão equivocadas e absurdas na prática sejam: a) racionalização dos sentimentos; b) destruição da camada de ozônio; c) estatização das formas de exploração dos recursos naturais; d) dialética na argumentação; e) lógica.

Embora não elencado, há o sexto elemento de minha lista. O que realmente faz meu cérebro doer, o que arde em minha alma e suja o lenço do meu bolso é o feito que, se feito por mim, teria sido incomparavelmente melhor. Acho injusto, imoral, humilhante que alguém ganhe dinheiro com uma coisa tão ruim, enquanto eu, que poderia fazer muito melhor, fico aqui a engolir artigos secos e a defender leis e ordens. Do que estou falando? Ora, das frases sortidas do Serenata de Amor da Garoto! Esse bombom que quer mais romance e sei lá o quê. Olha só que triste:

"E assim tudo começou. Se você não consegue dizer o que sente, dê uma dica e espere. Antigamente, as pessoas faziam serenata. Hoje, uma boa idéia é comprar um Serenata em qualquer supermercado."
Ou seja, declare-se com uma frase do tipo "quem tem um amor platônico..." ou "pesquisas científicas indicam que...", que é o que você vai encontrar nesses bombons.

"Boca seca, taquicardia e tremedeira configuram o que chamamos de 'amor à primeira vista'. Segundo a psicanálise, a expressão correta é 'paixão à primeira vista'. Seja qual for o nome, é bom pra caramba."
Em que pese a linguagem jornalística e as informações pseudocientíficas (afinal, todos sabem que a psicanálise não é uma ciência), era para ser uma frase de amor. Fail. Sem falar no final, que é uma espécie de "vamos usar nossas bundas para viver".

"Amor platônico só existe na imaginação de uma pessoa, e o outro nem desconfia que é amado. Se você está nessa situação, só temos uma coisa a dizer: não queríamos estar na sua pele".
O que é isso, meu Deus? Lança desconfiança onde ainda não tem, e depois se pretende um bombom a ensejar 'romansse'? HAHAHAHAHAHA. Parece um cartão ruim de feliz aniversário!

"Amizade pode se transformar em amor? Pode. Mas, se você já está apaixonado, dificilmente esse papinho de amizade vai colar."
Não faz sentido algum. Se se afirma inicialmente que uma amizade transformou-se em amor, como é que depois... Qual é o seu QI? 90? HAHAHAHAHAHA. [Engasga com o chá].

Há mais, mas os bombons acabaram. Céus, era para ser algo tão fácil, mas tão fácil, que eles devem ter feito isso de propósito. Não é nem um pouco difícil. O assunto justamente mais explorado e procurado em poesia, principalmente quando em música. Qualquer poeta vagabundo de esquina pensa melhor. Por experiência própria. E fazem rimando, inclusive. Sinceramente, eu é que deveria estar ganhando dinheiro com isso. Eu faço muito melhor, mas muito melhor. Sou eu que mereço uma banheira. Sou eu que mereço lenços bordados. Eu. Eu. E não esses que não possuem senso algum de lógica. Garoto, contrate-me. Mas eu cobro caro, sim? Muito caro. Credo, é como se fossem o ranho de meu lenço.

Malditos. Eu, aqui, usando sachê e adoçante porque o açúcar acabou. Ah, prostrem-se ante meus pés de prata gélida. Beijem os anéis de sangue de minha mão. Contemplem minha imagem terrível e curvem suas sombras ao vale profundo de minhas órbitas. Quero que todos desabem em minha superfície de ódio e destruição. Quero limousines, mansões e bancarrotas! Vou afogar as mágoas em minha xícara e comer meus rins com as torradas. Pois não é justo, não é justo.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Sepulcros no ar

Há horas em que paro, fito as estrelas e penso: "Está na hora de passar uma mensagem de paz, amor e harmonia, uma mensagem que faça as pessoas se sentirem bem e que motive o bem acima de tudo". Mas então logo me ocorre que o maior bem que almejo para a Terra seria uma humanidade toda trabalhada na engenharia genética, um mundo de natureza 100% controlada, um lugar totalmente feito por humanos e para humanos. Daí eu me lembro porque as pessoas não deveriam votar em mim caso eu me candidatasse a um cargo político.

"Mas, meu filho, não tem consciência do perigo que isso seria?". Tenho, claro, sou estudado nessas coisas. Porém não sou eu, é o mundo que caminha nesse sentido, e não vejo problema algum nisso. Se você pudesse garantir que uma pessoa nascesse sem doenças genéticas, você não garantiria isso? Ou será que você confiaria nos místicos processos da natureza que, por sinal, fazem tanto sentido quanto você pretender que têm? Eu acho que não. Você projetaria o mais perfeito que pudesse. Riscos? Bem, é difícil confiar totalmente na Ciência, e projetos semelhantes quando ainda se dispõe de pouco conhecimento a respeito realmente poderiam trazer mais mal do que bem. A começar pelo singelo fato de que a natureza, por enquanto, seleciona genes de um modo muito mais adequado do que se estivesse em nossos cuidados.

Mas a natureza não é uma deusa, e suas falhas podem ser corrigidas. O bom de se viver na modernidade é que o impossível e o inalcançável é uma questão técnica, e não mais metafísica. Marte não é um mundo inóspito porque a humanidade está fadada por uma ordem superior a rastejar na Terra, mas tão somente porque não dispomos de tecnologia que possibilite a nossa vida lá. Ainda. Os limites são paupáveis e cognoscíveis, não dependem de nossa fé. Não é maravilhoso? Profilaxia. Exatidão. Beleza tecnológica e genética. A modernidade tem muito ainda por nos proporcionar.

Terrível, não? Eu sei. Pergunte-se agora porque a história de "Admirável Mundo Novo" não assusta as nossas gerações. Tornou-se tão paupável. Eu não vejo muitos problemas no apocalipse que pretende o autor. A ruína da civilização não é relativa? Não tendemos a ver a mudança dos atuais valores como decadência? Acontece, entretanto, que nem mesmo isso é possível garantir, e mesmo a destruição de toda a humanidade é uma possibilidade tão real quanto a sua sobrevivência. Podemos fracassar a qualquer momento, seja pelas nossas mãos, seja por meio de causas externas. E não há nada lá fora que diga qual é o certo e qual é o errado.

Ah, engenharia genética, ouve a minha prece. Pode ser que, por nossa própria limitação cultural, destruamos muitas possibilidades. Por outro lado, muito sofrimento, tão inútil e tão não-edificante para si e para os seus ao redor, poderia ser eliminado. Tudo o que eu quero é um mundo mais bonito, onde seja possível garantir que uma pessoa não nascerá com um corpo degenerado. É errado? Problemas serão muitos. Mas serão novos problemas, e não há razão para permanecermos nos debatendo com problemas cuja solução já se encontra ao nosso alcance. Não faz sentido, entende? Não, você não entende. Entende sim.

domingo, 13 de março de 2011

Gólgota iluminado

Há um fenômeno que vem ocorrendo em meu quarto há pelo menos cinco anos. À noite, uma única abelha entra em meu quarto através de pequenos buracos em minha janela e voa em direção à lâmpada. A lâmpada, por sua vez, é protegida por uma cúpula de vidro, de modo que a abelha, voando em direção à lâmpada, consegue facilmente entrar mas não sair. Ela luta desesperadamente por sair e ao mesmo tempo sentindo-se atraída pela luz. Certamente seu corpo deve sentir dor enquanto se debate contra a lâmpada, ou algo semelhante a dor. "O constante contato com o forte calor da lâmpada e o excessivo dispêndio de energia são causas fatais", garantem os especialistas. A abelha zumbe por muito tempo até morrer. Minhas reações, ao seu turno, consistem em:
  1. Sentir medo, pois se não morrer e conseguir escapar, ela vai voar para cima de mim e... me matar;
  2. Sentir irritação, pois não consigo me concentrar com seu zumbido de agonia;
  3. Sentir pena, pois afinal é um ser vivo, que produz mel e é bonitinho;
  4. Sentir ânsia, pois a expectativa da morte não é das mais agradáveis.
Geralmente acabam morrendo. Em casos mais raros, há as que conseguem escapar. Das que conseguem escapar, algumas delas acabam morrendo no chão do meu quarto pois, ou estão muito fracas para voar, ou suas asas estão bastante danificadas, ou mesmo ambos, enfim. Uma delas eu tentei salvar resgatando-a do chão e colocando-a para fora de meu quarto em uma folha de papel, mas ela não voou e acabou caindo feito um inseto sem asas no chão da garagem. Ela ainda estava viva. Fracassara. Mas há, no entanto, aquelas que escapam completamente da morte e conseguem voar através da janela rumo às suas casas, vitoriosas.

Minha conclusão: estou presenciando a evolução natural das abelhas. Só aquelas inteligentes e fortes o bastante para escaparem da prisão de vidro e sobreviverem à armadilha transmitirão seus genes superiores às gerações seguintes. Meu trabalho: observar e não ajudar as fracas, garantindo, assim, que somente as aptas sobrevivam. A natureza: sutil e asquerosa como a picada de um inseto. A lâmpada de meu quarto: um pequeno gólgota randomicamente escolhido pelas abelhas para ali acharem a sua ruína e seu futuro geneticamente melhor. Amém.

terça-feira, 8 de março de 2011

Traço 9

O PROBLEMA

Pois bem, a constituição do que denominamos de "boa-vida" tem se tornado cada vez mais difícil, e os caminhos que a ela conduzem estão cada vez mais raros e difíceis de serem tomados. Dados obtidos da Universidade de Colúmbia demonstram que, hodiernamente, a formação rápida e fácil da fortuna não pode ser obtida através senão da patente de um invento. A apropriação psiquíco-privatístico-financeira de uma descoberta, embora moralmente controvertida nos meios vulgarmente denominados "hipongas", permite ao seu autor não somente fama, coisa que cada vez é mais dispensável e vago em nossa sociedade, mas, sobretudo, dinheiro suficiente para condicionar uma vida de ócio e luxo. Há os que aduzem que resultados semelhantes podem ser observados em atividades como "apostar" na bolsa de valores. No entanto, "apostar" na bolsa exige perspicácia, coisa não muito observável em quem procura o ócio. Ou, ao menos, o que procuro não pode ser alcançado senão por métodos intuitivos e desconcentrados em objetivo.

Foi pensando nisso que resolvi dedicar o meu tempo em busca de algo absolutamente novo e útil, algo pelo qual as pessoas sonham em ter mas sequer imaginam como isso seria possível. E, olhando para o meu quarto, percebi que certo objeto ocupa estranha e insistentemente pelo menos um oitavo do espaço disponível: o armário. Pode não parecer muito, mas leve-se em consideração que em um quarto deve haver minimamente uma cama, uma cadeira, uma mesa/escrivaninha e um armário. Se um quarto possui 12 m², supondo que uma cadeira ocupa 1 m², uma cama 2,16 m², uma escrivaninha 1,8 m² e um armário 1,5 m², temos então que pelo menos 6,46 m² do espaço encontra-se ocupado por um objeto sólido e relevante, restando, ainda, 5,54 m² por onde transitar. O que foi? Ainda não conseguiu visualizar o problema? Pois saiba agora.

O seu armário ocupa, em geral, um oitavo do espaço não porque um armário deve ocupar um oitavo do espaço, mas simplesmente porque esse é o máximo de tamanho que consegue alcançar. E, no entanto, sabemos que esse tamanho não é suficiente para abrigar todas as nossas coisas. Ventiladores, casacos, cachecóis, miniaturas de ídolos pagãos, patins, balas de hidrogênio, jogos de tabuleiro. Todos eles e muito mais competindo aguerridamente por um espaço tão limitado. "Onde guardarei o meu exoesqueleto?", você pensa. "Onde porei meus vestidos de casamento?", você se espanta. As portas não ficam maiores através da vontade. Novas prateleiras não surgem por mágica, nem que você pranteie o mundo. Seu armário é diminuto para fins práticos, e não porque você precisa de menos coisas.

Além do que, repare que o espaço ocupado pelo armário impossibilita a plena manifestação da vida em seu quarto. Imagine como seria bom ter um sofá de três lugares em seu lugar. Imagine que incrível poder dar uma festa em seu quarto, com direito a luminárias, castiçais e pista de dança. Contudo, contudo... O seu armário ocupa um oitavo de seu quarto, e nada disso poderá ser feito. Esqueça aquele mostruário de elementos químicos raros. Esqueça aquela coleção de enciclopédias. Ele ocupa um oitavo da sua vida, e nada pode ser feito. Se seu armário fosse menor, tanto seria possível, e tanto espaço você teria... Para comer, dançar, comemorar e correr. Percebe agora?

Eis, portanto, o nosso problema: o armário é pequeno demais para todas as coisas que você pretende guardar, e, ao mesmo tempo, grande demais em relação ao tamanho de seu quarto.

A SOLUÇÃO

Então eu pensei: como fazer um armário que fosse simultaneamente espaçoso e compacto? Parece impossível? Einstein sabe que não. Quando imprimimos velocidade a um objeto, este ao mesmo tempo ganha massa e sofre contração em seu tamanho. Deste modo, se fizermos com que um armário viaje a uma velocidade próxima à da luz, teremos um objeto menor e mais massivo. Isso nos permitirá construir enormes armários que ocupam um reduzido espaço dentro do quarto. As vantagens? Muitas:
  • A enorme velocidade fará com que o armário fique muito maior e muito mais compacto, proporcionando-lhe mais espaço interior e exterior;
  • Coisas que antes eram reservadas para o porão poderão ser acondicionados em seu armário, como bicicletas, material de construção, ferramentas, etc;
  • Você poderá organizar um ateliê de costura, pintura ou fotografia, ao seu gosto, e ainda assim sobrar espaço para a sua coleção de sapatos e casacos;
  • As suas roupas, devido ao efeito da dilatação temporal, parecerão envelhecer mais devagar, o que significa roupas mais duradouras e preservadas;
  • Você poderá dormir dentro do armário, e assim envelhecer mais lentamente;
  • O seu dinheiro estará livre dos efeitos inflacionários;
  • E muito mais.
"O que acontece quando unimos a Física Moderna com a indústria moveleira?", eu brinco. "Armários viajando a uma velocidade próxima à da luz", eu respondo. Minhas lentes de contato já conseguem refletir as verdinhas; meu coração já se refestela em ouro e porcelanas caras.

Ah, o brilhantismo... Tão raro e tão fugaz. Como eu sempre digo, o mundo está na palma de sua mão, bastando poder. Digo, querer. Não, é poder mesmo. Quem quer não pode se não pode. Mas quem pode e quer é alguém em ação. Dêem-me um pouco de velocidade da luz, um pouco de conhecimento elementar em física e um pouco de cega confiança em meus valores estéticos, e eu transformarei a Terra em uma parque de diversões. Para o bem. Para o mal.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Sobre o que é descoser

Ante o fato de que, enquanto uma garrafa pequena de Sprite possui 300 ml, uma garrafa de Fanta possui apenas 290ml, nós podemos tirar três conclusões principais:
  1. As empresas de refrigerante sabem que o sabor de laranja é mais doce e por isso mais enjoativo, o que necessariamente forçaria a produzir refrigerantes de laranja em uma quantidade inferior aos de limão, haja vista que para cada sabor há uma quantidade limite ideal, minuciosamente estudada e prevista, de modo que, a partir do momento em que é superada, torna-se menos agradável para o consumidor;
  2. Os refrigerantes de laranja exigem matéria-prima mais cara ou processos de fabricação mais custosos que os de limão, de modo que, embora os refrigerantes de laranja sejam vendidos em menor quantidade, os preços entre ambos sejam exatamente os mesmos para uma garrafa pequena;
  3. Trata-se, na verdade, de uma prova de que vivemos inseridos em uma realidade simulada, não passando esse fato senão de um erro de computador causado por processos randômicos e ainda não solucionáveis pela tecnologia atualmente disponível.
Embora as três conclusões sejam igualmente possíveis, e embora as três possuam o mesmo grau de verificabilidade, seja lógica ou empiricamente, nosso contexto sentimental induz-nos a raciocinar de tal forma que apenas uma resposta seja verdadeira, ou seja, apenas uma possui existência em nosso universo. Tal seleção não é absolutamente aleatória, e podemos igualmente postular pelo menos três princípios não excludentes entre si, os quais nos permitirão um maior esclarecimento a respeito da conclusão que deverá ser imediatamente sobreposta às demais:
  1. Entre 0 e -1, temos que este último ainda possui existência, e, portanto, será necessariamente preterido em relação ao que é nulo;
  2. Entre -1 e 1, temos que este último é que possui existência real, de modo que será preferido em relação ao que possui existência meramente abstrata;
  3. Contudo, se -1 significar dimensão realizável atrás da linha e logo abaixo ou acima do horizonte de expectativas do sujeito, então -1 será preferível a 1, ainda que este seja o único possível.
Tendo isso em conta, conclui-se que: o refrigerante de laranja por mim consumido, embora fosse esperado que tivesse a mesma quantidade de 300ml que o de limão, possuía no mundo existente 290ml. Entretanto, o desejo de que o refrigerante de laranja possuísse a mesma quantidade que o refrigerante de limão levou meu universo sentimental a construir uma dimensão realizável atrás da linha e logo abaixo ou acima do meu horizonte de expectativas, de modo que o refrigerante passou a existir duplamente: o primeiro como uma garrafa de 290ml, e outra como uma garrafa de 300ml. Aquele é consumível e sujeita-se a processos causais e necessários que inevitavelmente levarão à sua destruição e transformação. A segunda é perene e autônoma ao próprio refrigerante, de modo que bebê-la não é bebê-la, pois que intangível ao meu corpo físico.

Assim, nós podemos dizer que cindimos necessariamente os objetos em duas realidades: a que nós sentimos, concebemos e compartilhamos com os demais, de modo que aquilo que eu vejo, outros necessariamente o vêem; e a que nunca existe, não importa o quanto se deseje - não é possível sequer dizer se morre, e mesmo a sua origem é bastante nebulosa, pois que surgida no íntimo. Contudo, se processos randômicos são capazes de causá-la, da mesma maneira podem encontrar seu fim. Se eu bebo meu refrigerante de laranja 300ml, não estou fazendo outra coisa senão dar-lhe continuidade. Mas se meu universo sentimental for capaz de parar sua reprodução como existência paralela ao objeto real, então será como se nunca houvesse existido: não cessa, mas desaparece em absoluto, sem passado. Basta que eu olhe na embalagem e perceba que a garrafa possui 290ml, e não 300ml como havia pensado inicialmente. Pronto, é aqui que se rompe, se quebra, se morre, como quiser.

E foi exatamente assim que passei a beber meu refrigerante de 290ml sem jamais tê-lo feito em 300ml. Porém, fazer com que a dimensão desejada interrompa-se exige, obviamente, que se corte a própria vontade, o que, convenha-se, não é algo nada fácil, só possível através da fé ou da melancólica entrega da única coisa que o mundo ainda não foi capaz de negar o seu exclusivo pertencimento.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Ovos de páscoa mesopotâmicos

Homens, cachorros, mulheres e bicicletas, todos agora devem saber de meu achado. E se for verdade que falo coisas sem sentido, e se for verdade que invento coisas e falseio emoções, quero que algo bem impossível aconteça. Pelos céticos, jejuarei e guardarei os dias de Lua Cheia, e se isso não for o bastante, mandarei lembranças de meu jazigo. Quanto aos demais, que as doninhas os comam. Ou os corvos, não faço distinção onde há.

Pois bem. Enquanto eu circunavegava o mundo, povoado de vermes, insetos, lodo e outras asquerosidades da natureza, planejando convertê-lo sob o jugo de minha tirania em vidro e aço cinzento, eu os descobri. Sim, os próprios. Mesopotâmicos ovos de páscoa embrulhados em papel alumínio policromo, surgidos assim, inesperados, bem diante de meus olhos. E ante sua extravagante, aberrante e desarmoniosa aparição, prostrei-me fiel. Mais uma vez.

Sob o seu encanto, abri os meus salões, e até mesmo a Joelma e o Pixinguinha puderam entrar. Qualitativamente, não houve restrição, e qualquer um que se dispusesse a vestir mais de três cores, e qualquer um que ousasse se emaranhar em tecidos espelhados e serpentinas tinha a chance de divertir-me e de merecer meu agrado. Alguns, não devo esconder, tiveram a minha piedade, mas jamais o meu desprezo.

Pois tais ovos mesopotâmicos não são meros prismas, mas religião; alienada, dramática e deslumbrante. Positrônico, cachos de banana, propulsores intergalácticos; não são definições, mas seus rebentos. Eles crescem com plástico amarelo, em painéis eletrônicos, variando facilmente entre o ridículo e o bizarro, sempre em excesso. São como florestas tropicais, mas as folhas são de celofane e a chuva de etano líquido.

Não, é claro que ninguém gostaria de viver entre eles. Pertencem à mesma dimensão dos sonhos, não é possível sequer tocá-los, ao menos que você tenha perdido a noção de realidade. Estão envolvidos com a liberdade de fluxo, ou melhor, com a espontaneidade, trajetórias sem coordenadas e sem cálculo. Não vou mentir, eles têm mais de um aspecto: o encanto e a repulsa, a idiotice e a genialidade.

É possível trajá-los por certo tempo, mas deles se enjoa rapidamente, e mesmo é aconselhável que se enjoe e os largue a um canto qualquer. Caso contrário, provável que se torne um ridículo irresponsável. Em verdade, são idéias sublimadas, e por isso idéias para algumas ocasiões. Não há como vesti-las para ir à padaria ou ao cinema. Exigem para a sua aparição um espaço especial onde a sua excentricidade possa ser desejada.

Exige um espaço especial? Sim, mas ele não está pré-configurado em lugar algum: os ovos mesopotâmicos desencadeiam tal espaço, de modo que o que eu falei a respeito de vestir ovos mesopotâmicos para ir na padaria é bastante relativo, pois não é verdade que existem lugares próprios para a sua aparição, no sentido de predeterminados.

Não sei se estou sendo claro. Exclua o lado sombrio, o lado profano e o lado fashion, e ainda assim não se chega aos ovos mesopotâmicos. É algo mais específico. Está próximo do fashion, mas o fashion é demasiado sisudo perto dos ovos mesopotâmicos. É preciso um salto maior. Um salto de maior liberdade para se atingir uma beleza bastante peculiar: se você dançasse ovos mesopotâmicos, você não dançaria sexy, embora você exalasse carne e sangue. Enfim, enfim...

Eu venderia a minha alma por tais ovos. Infelizmente, o jarro estava vazio quando fiz a oferta, e eu não tinha mais nada que pudesse interessar o dono dos ovos. Então quebrei o jarro na cabeça dele e saí correndo com a cesta. Mas, chegando em casa, a cesta encontrava-se vazia novamente. Sentei no parapeito da janela e comecei a escrever. Sem jarro, sem, alma, sem ovos.

Se não ficou claro o que é um ovo de páscoa mesopotâmico, isto aqui é um bom exemplo: http://www.youtube.com/watch?v=BW3gKKiTvjs. Sim, a letra é baseada no livro homônimo: O Morro dos Ventos Uivantes [:)]. Sim, ela está dançando como um legítimo ovo de páscoa mesopotâmico.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Carta aberta aos chineses

Caros chineses,

Ao longo desses meus anos de estudo e meditação, venho observando esse estranho fetiche pelo qual dinastias inteiras se entregaram, e pelo qual todo um povo nele ainda se identifica e se une. Sim, estou falando da Grande Muralha, e é em atenção a ela que vim até vocês, pois o que me surpreende é que ninguém ainda se apercebeu de seu real significado na História da China. O que eu quero lançar é na verdade muito simples, e tão simples que permite a uma pessoa como eu questionar. Quero dizer, olhem para a Grande Muralha! Ela é enorme, estende-se ao longo de mais de oito mil quilômetros. Compreende todo um complexo militar de fortes e estalagens, e no entanto jamais foi capaz de preservar totalmente o país da incursão dos estrangeiros. A Grande Muralha não impediu que hordas do norte assolassem a China, nem impediu que estrangeiros usurpassem o trono imperial. A Grande Muralha não amenizou a fome nem a opressão, e nada fez quando os japoneses desembarcaram as suas tropas. A Grande Muralha nunca impediu que pessoas fossem e viessem pelo singelo fato de que é uma grande muralha. Quero dizer, o fato é que a Grande Muralha simplesmente cuida da Grande Muralha. A Grande Muralha apenas se importa para com a Grande Muralha. E isso porque o que melhor pode fazer uma grande muralha é velar por si mesma, e a sua maior ambição não é barrar tanques de guerra ou oferecer abrigo a refugiados das enchentes, mas tão somente resistir à deterioração do tempo. Para provar isso, basta recordar que as sentinelas de uma grande muralha não fazem nada senão avisar ao imperador que tribos bárbaras transpuseram as fronteiras, e dentro em breve estarão às portas de Pequim. Percebem agora? E não importa que eu esteja baseando todas as minhas assertivas em um filme da Disney (ver Mulan). Os fatos falam por si mesmos. Eu posso pôr tijolo sobre tijolo, e fazer disso um monumento. Mas o espaço ganha espaço, e coisas tendem a se transforma em espaço. A Grande Muralha é agora mais um espaço. Ou pelo menos é bom acreditar nisso.

Pois bem, chineses. Isso é para que reflitam mais a respeito de uma grande muralha. Vocês podem até ambicionar cercar todo o seu território com pedra e Deus sabe lá mais que material ou feitiço, mas saibam que a maior glória neste mundo é resistir e ser lembrado. E, vejam só, a própria Grande Muralha não se tornou senão um monumento, e que isso lhes sirva de prova e lição. É claro que há outras glórias (imagino), mas certamente barrar fluxos não está entre elas.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Estiolasse-me

Estou corado, meu cabelo levemente mais dourado, minhas pernas mais magras. Jejum? Vitaminas de cenoura? Nada disso é necessário quando se tem atitude. Atitude para vender o que não se tem. Atitude para usar jóias roubadas nas galerias da *vida*. Atitude para... Ser-se, de pá virada, do avesso, como bem entender. A atitude alonga o passo, define as pernas, arrasta brumas e olhares de glíter. Atitude veste bem, em casaco justo nos ombros, levanta queixos com um dedo, sussurra no ouvido. Atitude abre portas de vidro, gira banquinhos de bar, anda em vigas de metal e profana belezas naturais. Os médicos vêm, fazem prognósticos, diagnósticos, prescrevem pílulas, mas você, de óculos escuros, resume-se a olhá-los por debaixo das lentes. Eles cochicham e falam alguma coisa sobre eríneas esperando debaixo do horizonte, mas você tem taças enormes de limonada para tomar, e sente que  poderia protelar o encontro por toda a vida. Isso é atitude. Ah, espere, isso aí não é, não. Mas não vou mentir, vim aqui só para postar esta imagem, de Douglas Allen - quem? É, esse mesmo.

















Enfim, atitude. Para entender o outro lado? Claro que não. Atitude apenas para exibir uma bela silhueta em roupas plastificadas. Não se precisa nem de verdades se se sabe sorrir. Cinismo? Imoral? Eu chamo isso de atitude. O mundo do crime? O que é a marginalidade, o desprezo às liberdades alheias, o desenquadramento e a violação dos limites quando se tem atitude? Pratique isso e... Ah, espere. Não pratique, não. Já tem muita gente fazendo isso, se é que me entende. Mas não fique triste, você ainda pode ser... Sempre haverá lugar para o que abre a cortina, ou mesmo para quem não se importa em interpretar a pedra ou a árvore. Er... vai lá! Eeeeee.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Retrospectiva

Após tantos sonhos de luxúria, resolvi narrar eu mesmo a minha história, quero dizer, expor as minhas percepções acerca de minha própria vida, o que nem sempre achei prudente, haja vista o risco que se corre em cair nas garras de gente fofoqueira ou mesmo até ser preso por alguma confissão indevida. Sim, as minhas histórias. Então pensam que somente vocês têm suas histórias? Sei que farão as objeções de costume, dirão que o máximo que eu poderia conhecer das esfinges, das pirâmides, dos castelos e dos palácios são as cópias plastificadas de alguma loja de fast-food. Mas, como eu estava dizendo, eu tenho sonhos de luxúria. Memoráveis? Gosto do termo “satisfatório”. Encantadoras? Eu diria que estão mais para o mundo do pequeno inefável.

Sim, eu visitei príncipes e cortes inteiras que haviam se instalado recentemente no vaso de orquídea. Vi rainhas e seus filhinhos reais refestelando-se em enormes banquetes à luz de milhares de lustres orvalhados. Vi cortejos e pompas, e eu mesmo tive a honra de presidir um torneio de cavalaria. Vi seu reino conhecer a glória e a decadência, até que foram finalmente dizimados por substâncias tóxicas e condições não propícias à reprodução de seu estilo de vida. As ruínas de suas casas e castelos agora dão espaço às raízes. Não há turistas nem peregrinos, apenas fantasmas perambulando por seus escombros.

Sim, eu estive presente quando o boneco do Jaspion foi eleito Favorito do Achocolatado após um acalorado concurso. Vi quando lhe entregaram a taça de leite achocolatado, e vi como minutos após ter bebido morreu por excesso de açúcar. Sim, eu vi o médico pegar-lhe nos pulsos e sentenciar em assombro que agora "esse homem está morto". Descemos seu caixão ao profundo jazigo e nunca mais tomamos leite com achocolatado. Durma em paz, Jaspion, eu disse espargindo folhas de laranjeira sobre o túmulo. Parti para a Floresta das Sombras e lá permaneci por dois ou três anos de luto, rememorando seus dias de glória enquanto as estações se revezavam em meus olhos baços.

Sim, eu conheci a presidenta. Eu mesmo escrevi o seu discurso de posse numa máquina de escrever. Aceitava insinuações e dicas de tias, primos e eventuais bêbados. Um dia antes de sua proclamação, fiz-lhe promessas e ela me fez promessas, e então permanecemos em silêncio olhando para a Lua Argêntea. Ela se levantou e disse: "Vou estatizar tudo". Que bom, eu disse. Ela então pegou no meu braço e disse: “Estou falando sério”. A partir de então aprendi a nunca mais duvidar de sua palavra. Precisei ir ao médico devido às luxações. Está bem, está bem, melhor ainda para mim, eu respondi esfregando onde ela havia apertado. Tomo remédios e faço tratamento psiquiátrico uma vez por mês desde então.

Sim, explorei a Antártida e suas montanhas geladas. Tive que ser consolado por pingüins após descobrir que não havia nada de inédito em explorar a Antártida, e que muitos outros já haviam feito isso. Sim, eu dizia-lhes entre lágrimas, mas nenhum deles fez isso por amor. Eles então cochicharam entre si e tiveram que concordar que realmente isso nunca havia sido feito. Entretanto, não me deram ouro, jóias ou qualquer recompensa, de gratidão ou de admiração. São mesmo muito esquisitos. Brinquei durante dias com eles, até que eu enfim estivesse cansado de meus dias de gelo, e decidi que já era hora de abandonar as plataformas da Antártida e seguir para terras mais quentes. É a vida, eu explicava. Eles então disseram que era possível que eu esperasse que um bloco de gelo se desprendesse, ou eu simplesmente poderia usar o cadáver de uma baleia como esquife, digo, como jangada. Esperei, claro, o tal iceberg.

Sim, fiz a minha própria fortuna vendendo empadinhas e empadões na praia, e comi muita areia e grosseria dos banhistas em troca. Eu oferecia tudo ao vento, e surpreendentemente sempre havia quem entendesse isso como um chamado. Eles diziam: "Tem gosto de areia com siri". Mas é claro, eu retrucava, se são empadinhas e empadões de areia com siri. Fiquei cinco dias preso até que alguém me pagou a fiança. Infelizmente a fiança não era para mim, mas para seu filho, mas que, devido a um erro de pronunciação, acabei livrando-me. O dinheiro foi entregue a uma instituição de caridade que, fiquei sabendo há alguns meses atrás, acabou em um incêndio anônimo e sem explicação. Antes eu tivesse apostado em corrida de cachorros, fico a lamentar-me.

E muitos e muitos outros. Não vi elefantes, leões nem águias. No máximo baleias, marmotas e águas-vivas, e quem sabe ouriços-do-mar, corais e sargaços. Afora isso não vi nada. Nem deserto nem florestas selvagens, no máximo a Antártida e formigueiros. De tudo ficaram as ruínas e as sombras, como convém à minha idade. Mas, como dizia Florbela Espanca ("não, você não ousaria!"):

"Se é sempre Outono o rir das primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair...
Que a vida é um constante derruir
De palácios do Reino das Quimeras!

E deixa sobre as ruínas crescer heras.
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida é um contínuo destruir
De palácios do Reino das Quimeras!

Deixa tombar meus rútilos castelos!
Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
Mais altos do que as águias pelo ar!

Sonhos que tombam! Derrocada louca!
São como os beijos duma linda boca!
Sonhos! ... Deixa-os tombar... deixa-os tombar..."

Aliás (vai ficar feio a formatação, contudo), olha só a confiança, é disso que gosto nela:

"O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém.

Porque o meu Reino fica para além...
Porque trago no olhar os vastos céus
E os oiros e clarões são todos meus!
Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém!

O mundo! O que é o mundo, ó meu Amor?
— O jardim dos meus versos todo em flor...
A seara dos teus beijos pão bendito...

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços...
— São os teus braços dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o Infinito."

"Se é sempre Outono o rir das primaveras". Não sei se há outro poeta que eu leria com tanto prazer quanto ela. Quero dizer, outros há, mas que importa agora?