quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Sobre o que é descoser

Ante o fato de que, enquanto uma garrafa pequena de Sprite possui 300 ml, uma garrafa de Fanta possui apenas 290ml, nós podemos tirar três conclusões principais:
  1. As empresas de refrigerante sabem que o sabor de laranja é mais doce e por isso mais enjoativo, o que necessariamente forçaria a produzir refrigerantes de laranja em uma quantidade inferior aos de limão, haja vista que para cada sabor há uma quantidade limite ideal, minuciosamente estudada e prevista, de modo que, a partir do momento em que é superada, torna-se menos agradável para o consumidor;
  2. Os refrigerantes de laranja exigem matéria-prima mais cara ou processos de fabricação mais custosos que os de limão, de modo que, embora os refrigerantes de laranja sejam vendidos em menor quantidade, os preços entre ambos sejam exatamente os mesmos para uma garrafa pequena;
  3. Trata-se, na verdade, de uma prova de que vivemos inseridos em uma realidade simulada, não passando esse fato senão de um erro de computador causado por processos randômicos e ainda não solucionáveis pela tecnologia atualmente disponível.
Embora as três conclusões sejam igualmente possíveis, e embora as três possuam o mesmo grau de verificabilidade, seja lógica ou empiricamente, nosso contexto sentimental induz-nos a raciocinar de tal forma que apenas uma resposta seja verdadeira, ou seja, apenas uma possui existência em nosso universo. Tal seleção não é absolutamente aleatória, e podemos igualmente postular pelo menos três princípios não excludentes entre si, os quais nos permitirão um maior esclarecimento a respeito da conclusão que deverá ser imediatamente sobreposta às demais:
  1. Entre 0 e -1, temos que este último ainda possui existência, e, portanto, será necessariamente preterido em relação ao que é nulo;
  2. Entre -1 e 1, temos que este último é que possui existência real, de modo que será preferido em relação ao que possui existência meramente abstrata;
  3. Contudo, se -1 significar dimensão realizável atrás da linha e logo abaixo ou acima do horizonte de expectativas do sujeito, então -1 será preferível a 1, ainda que este seja o único possível.
Tendo isso em conta, conclui-se que: o refrigerante de laranja por mim consumido, embora fosse esperado que tivesse a mesma quantidade de 300ml que o de limão, possuía no mundo existente 290ml. Entretanto, o desejo de que o refrigerante de laranja possuísse a mesma quantidade que o refrigerante de limão levou meu universo sentimental a construir uma dimensão realizável atrás da linha e logo abaixo ou acima do meu horizonte de expectativas, de modo que o refrigerante passou a existir duplamente: o primeiro como uma garrafa de 290ml, e outra como uma garrafa de 300ml. Aquele é consumível e sujeita-se a processos causais e necessários que inevitavelmente levarão à sua destruição e transformação. A segunda é perene e autônoma ao próprio refrigerante, de modo que bebê-la não é bebê-la, pois que intangível ao meu corpo físico.

Assim, nós podemos dizer que cindimos necessariamente os objetos em duas realidades: a que nós sentimos, concebemos e compartilhamos com os demais, de modo que aquilo que eu vejo, outros necessariamente o vêem; e a que nunca existe, não importa o quanto se deseje - não é possível sequer dizer se morre, e mesmo a sua origem é bastante nebulosa, pois que surgida no íntimo. Contudo, se processos randômicos são capazes de causá-la, da mesma maneira podem encontrar seu fim. Se eu bebo meu refrigerante de laranja 300ml, não estou fazendo outra coisa senão dar-lhe continuidade. Mas se meu universo sentimental for capaz de parar sua reprodução como existência paralela ao objeto real, então será como se nunca houvesse existido: não cessa, mas desaparece em absoluto, sem passado. Basta que eu olhe na embalagem e perceba que a garrafa possui 290ml, e não 300ml como havia pensado inicialmente. Pronto, é aqui que se rompe, se quebra, se morre, como quiser.

E foi exatamente assim que passei a beber meu refrigerante de 290ml sem jamais tê-lo feito em 300ml. Porém, fazer com que a dimensão desejada interrompa-se exige, obviamente, que se corte a própria vontade, o que, convenha-se, não é algo nada fácil, só possível através da fé ou da melancólica entrega da única coisa que o mundo ainda não foi capaz de negar o seu exclusivo pertencimento.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Ovos de páscoa mesopotâmicos

Homens, cachorros, mulheres e bicicletas, todos agora devem saber de meu achado. E se for verdade que falo coisas sem sentido, e se for verdade que invento coisas e falseio emoções, quero que algo bem impossível aconteça. Pelos céticos, jejuarei e guardarei os dias de Lua Cheia, e se isso não for o bastante, mandarei lembranças de meu jazigo. Quanto aos demais, que as doninhas os comam. Ou os corvos, não faço distinção onde há.

Pois bem. Enquanto eu circunavegava o mundo, povoado de vermes, insetos, lodo e outras asquerosidades da natureza, planejando convertê-lo sob o jugo de minha tirania em vidro e aço cinzento, eu os descobri. Sim, os próprios. Mesopotâmicos ovos de páscoa embrulhados em papel alumínio policromo, surgidos assim, inesperados, bem diante de meus olhos. E ante sua extravagante, aberrante e desarmoniosa aparição, prostrei-me fiel. Mais uma vez.

Sob o seu encanto, abri os meus salões, e até mesmo a Joelma e o Pixinguinha puderam entrar. Qualitativamente, não houve restrição, e qualquer um que se dispusesse a vestir mais de três cores, e qualquer um que ousasse se emaranhar em tecidos espelhados e serpentinas tinha a chance de divertir-me e de merecer meu agrado. Alguns, não devo esconder, tiveram a minha piedade, mas jamais o meu desprezo.

Pois tais ovos mesopotâmicos não são meros prismas, mas religião; alienada, dramática e deslumbrante. Positrônico, cachos de banana, propulsores intergalácticos; não são definições, mas seus rebentos. Eles crescem com plástico amarelo, em painéis eletrônicos, variando facilmente entre o ridículo e o bizarro, sempre em excesso. São como florestas tropicais, mas as folhas são de celofane e a chuva de etano líquido.

Não, é claro que ninguém gostaria de viver entre eles. Pertencem à mesma dimensão dos sonhos, não é possível sequer tocá-los, ao menos que você tenha perdido a noção de realidade. Estão envolvidos com a liberdade de fluxo, ou melhor, com a espontaneidade, trajetórias sem coordenadas e sem cálculo. Não vou mentir, eles têm mais de um aspecto: o encanto e a repulsa, a idiotice e a genialidade.

É possível trajá-los por certo tempo, mas deles se enjoa rapidamente, e mesmo é aconselhável que se enjoe e os largue a um canto qualquer. Caso contrário, provável que se torne um ridículo irresponsável. Em verdade, são idéias sublimadas, e por isso idéias para algumas ocasiões. Não há como vesti-las para ir à padaria ou ao cinema. Exigem para a sua aparição um espaço especial onde a sua excentricidade possa ser desejada.

Exige um espaço especial? Sim, mas ele não está pré-configurado em lugar algum: os ovos mesopotâmicos desencadeiam tal espaço, de modo que o que eu falei a respeito de vestir ovos mesopotâmicos para ir na padaria é bastante relativo, pois não é verdade que existem lugares próprios para a sua aparição, no sentido de predeterminados.

Não sei se estou sendo claro. Exclua o lado sombrio, o lado profano e o lado fashion, e ainda assim não se chega aos ovos mesopotâmicos. É algo mais específico. Está próximo do fashion, mas o fashion é demasiado sisudo perto dos ovos mesopotâmicos. É preciso um salto maior. Um salto de maior liberdade para se atingir uma beleza bastante peculiar: se você dançasse ovos mesopotâmicos, você não dançaria sexy, embora você exalasse carne e sangue. Enfim, enfim...

Eu venderia a minha alma por tais ovos. Infelizmente, o jarro estava vazio quando fiz a oferta, e eu não tinha mais nada que pudesse interessar o dono dos ovos. Então quebrei o jarro na cabeça dele e saí correndo com a cesta. Mas, chegando em casa, a cesta encontrava-se vazia novamente. Sentei no parapeito da janela e comecei a escrever. Sem jarro, sem, alma, sem ovos.

Se não ficou claro o que é um ovo de páscoa mesopotâmico, isto aqui é um bom exemplo: http://www.youtube.com/watch?v=BW3gKKiTvjs. Sim, a letra é baseada no livro homônimo: O Morro dos Ventos Uivantes [:)]. Sim, ela está dançando como um legítimo ovo de páscoa mesopotâmico.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Carta aberta aos chineses

Caros chineses,

Ao longo desses meus anos de estudo e meditação, venho observando esse estranho fetiche pelo qual dinastias inteiras se entregaram, e pelo qual todo um povo nele ainda se identifica e se une. Sim, estou falando da Grande Muralha, e é em atenção a ela que vim até vocês, pois o que me surpreende é que ninguém ainda se apercebeu de seu real significado na História da China. O que eu quero lançar é na verdade muito simples, e tão simples que permite a uma pessoa como eu questionar. Quero dizer, olhem para a Grande Muralha! Ela é enorme, estende-se ao longo de mais de oito mil quilômetros. Compreende todo um complexo militar de fortes e estalagens, e no entanto jamais foi capaz de preservar totalmente o país da incursão dos estrangeiros. A Grande Muralha não impediu que hordas do norte assolassem a China, nem impediu que estrangeiros usurpassem o trono imperial. A Grande Muralha não amenizou a fome nem a opressão, e nada fez quando os japoneses desembarcaram as suas tropas. A Grande Muralha nunca impediu que pessoas fossem e viessem pelo singelo fato de que é uma grande muralha. Quero dizer, o fato é que a Grande Muralha simplesmente cuida da Grande Muralha. A Grande Muralha apenas se importa para com a Grande Muralha. E isso porque o que melhor pode fazer uma grande muralha é velar por si mesma, e a sua maior ambição não é barrar tanques de guerra ou oferecer abrigo a refugiados das enchentes, mas tão somente resistir à deterioração do tempo. Para provar isso, basta recordar que as sentinelas de uma grande muralha não fazem nada senão avisar ao imperador que tribos bárbaras transpuseram as fronteiras, e dentro em breve estarão às portas de Pequim. Percebem agora? E não importa que eu esteja baseando todas as minhas assertivas em um filme da Disney (ver Mulan). Os fatos falam por si mesmos. Eu posso pôr tijolo sobre tijolo, e fazer disso um monumento. Mas o espaço ganha espaço, e coisas tendem a se transforma em espaço. A Grande Muralha é agora mais um espaço. Ou pelo menos é bom acreditar nisso.

Pois bem, chineses. Isso é para que reflitam mais a respeito de uma grande muralha. Vocês podem até ambicionar cercar todo o seu território com pedra e Deus sabe lá mais que material ou feitiço, mas saibam que a maior glória neste mundo é resistir e ser lembrado. E, vejam só, a própria Grande Muralha não se tornou senão um monumento, e que isso lhes sirva de prova e lição. É claro que há outras glórias (imagino), mas certamente barrar fluxos não está entre elas.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Estiolasse-me

Estou corado, meu cabelo levemente mais dourado, minhas pernas mais magras. Jejum? Vitaminas de cenoura? Nada disso é necessário quando se tem atitude. Atitude para vender o que não se tem. Atitude para usar jóias roubadas nas galerias da *vida*. Atitude para... Ser-se, de pá virada, do avesso, como bem entender. A atitude alonga o passo, define as pernas, arrasta brumas e olhares de glíter. Atitude veste bem, em casaco justo nos ombros, levanta queixos com um dedo, sussurra no ouvido. Atitude abre portas de vidro, gira banquinhos de bar, anda em vigas de metal e profana belezas naturais. Os médicos vêm, fazem prognósticos, diagnósticos, prescrevem pílulas, mas você, de óculos escuros, resume-se a olhá-los por debaixo das lentes. Eles cochicham e falam alguma coisa sobre eríneas esperando debaixo do horizonte, mas você tem taças enormes de limonada para tomar, e sente que  poderia protelar o encontro por toda a vida. Isso é atitude. Ah, espere, isso aí não é, não. Mas não vou mentir, vim aqui só para postar esta imagem, de Douglas Allen - quem? É, esse mesmo.

















Enfim, atitude. Para entender o outro lado? Claro que não. Atitude apenas para exibir uma bela silhueta em roupas plastificadas. Não se precisa nem de verdades se se sabe sorrir. Cinismo? Imoral? Eu chamo isso de atitude. O mundo do crime? O que é a marginalidade, o desprezo às liberdades alheias, o desenquadramento e a violação dos limites quando se tem atitude? Pratique isso e... Ah, espere. Não pratique, não. Já tem muita gente fazendo isso, se é que me entende. Mas não fique triste, você ainda pode ser... Sempre haverá lugar para o que abre a cortina, ou mesmo para quem não se importa em interpretar a pedra ou a árvore. Er... vai lá! Eeeeee.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Retrospectiva

Após tantos sonhos de luxúria, resolvi narrar eu mesmo a minha história, quero dizer, expor as minhas percepções acerca de minha própria vida, o que nem sempre achei prudente, haja vista o risco que se corre em cair nas garras de gente fofoqueira ou mesmo até ser preso por alguma confissão indevida. Sim, as minhas histórias. Então pensam que somente vocês têm suas histórias? Sei que farão as objeções de costume, dirão que o máximo que eu poderia conhecer das esfinges, das pirâmides, dos castelos e dos palácios são as cópias plastificadas de alguma loja de fast-food. Mas, como eu estava dizendo, eu tenho sonhos de luxúria. Memoráveis? Gosto do termo “satisfatório”. Encantadoras? Eu diria que estão mais para o mundo do pequeno inefável.

Sim, eu visitei príncipes e cortes inteiras que haviam se instalado recentemente no vaso de orquídea. Vi rainhas e seus filhinhos reais refestelando-se em enormes banquetes à luz de milhares de lustres orvalhados. Vi cortejos e pompas, e eu mesmo tive a honra de presidir um torneio de cavalaria. Vi seu reino conhecer a glória e a decadência, até que foram finalmente dizimados por substâncias tóxicas e condições não propícias à reprodução de seu estilo de vida. As ruínas de suas casas e castelos agora dão espaço às raízes. Não há turistas nem peregrinos, apenas fantasmas perambulando por seus escombros.

Sim, eu estive presente quando o boneco do Jaspion foi eleito Favorito do Achocolatado após um acalorado concurso. Vi quando lhe entregaram a taça de leite achocolatado, e vi como minutos após ter bebido morreu por excesso de açúcar. Sim, eu vi o médico pegar-lhe nos pulsos e sentenciar em assombro que agora "esse homem está morto". Descemos seu caixão ao profundo jazigo e nunca mais tomamos leite com achocolatado. Durma em paz, Jaspion, eu disse espargindo folhas de laranjeira sobre o túmulo. Parti para a Floresta das Sombras e lá permaneci por dois ou três anos de luto, rememorando seus dias de glória enquanto as estações se revezavam em meus olhos baços.

Sim, eu conheci a presidenta. Eu mesmo escrevi o seu discurso de posse numa máquina de escrever. Aceitava insinuações e dicas de tias, primos e eventuais bêbados. Um dia antes de sua proclamação, fiz-lhe promessas e ela me fez promessas, e então permanecemos em silêncio olhando para a Lua Argêntea. Ela se levantou e disse: "Vou estatizar tudo". Que bom, eu disse. Ela então pegou no meu braço e disse: “Estou falando sério”. A partir de então aprendi a nunca mais duvidar de sua palavra. Precisei ir ao médico devido às luxações. Está bem, está bem, melhor ainda para mim, eu respondi esfregando onde ela havia apertado. Tomo remédios e faço tratamento psiquiátrico uma vez por mês desde então.

Sim, explorei a Antártida e suas montanhas geladas. Tive que ser consolado por pingüins após descobrir que não havia nada de inédito em explorar a Antártida, e que muitos outros já haviam feito isso. Sim, eu dizia-lhes entre lágrimas, mas nenhum deles fez isso por amor. Eles então cochicharam entre si e tiveram que concordar que realmente isso nunca havia sido feito. Entretanto, não me deram ouro, jóias ou qualquer recompensa, de gratidão ou de admiração. São mesmo muito esquisitos. Brinquei durante dias com eles, até que eu enfim estivesse cansado de meus dias de gelo, e decidi que já era hora de abandonar as plataformas da Antártida e seguir para terras mais quentes. É a vida, eu explicava. Eles então disseram que era possível que eu esperasse que um bloco de gelo se desprendesse, ou eu simplesmente poderia usar o cadáver de uma baleia como esquife, digo, como jangada. Esperei, claro, o tal iceberg.

Sim, fiz a minha própria fortuna vendendo empadinhas e empadões na praia, e comi muita areia e grosseria dos banhistas em troca. Eu oferecia tudo ao vento, e surpreendentemente sempre havia quem entendesse isso como um chamado. Eles diziam: "Tem gosto de areia com siri". Mas é claro, eu retrucava, se são empadinhas e empadões de areia com siri. Fiquei cinco dias preso até que alguém me pagou a fiança. Infelizmente a fiança não era para mim, mas para seu filho, mas que, devido a um erro de pronunciação, acabei livrando-me. O dinheiro foi entregue a uma instituição de caridade que, fiquei sabendo há alguns meses atrás, acabou em um incêndio anônimo e sem explicação. Antes eu tivesse apostado em corrida de cachorros, fico a lamentar-me.

E muitos e muitos outros. Não vi elefantes, leões nem águias. No máximo baleias, marmotas e águas-vivas, e quem sabe ouriços-do-mar, corais e sargaços. Afora isso não vi nada. Nem deserto nem florestas selvagens, no máximo a Antártida e formigueiros. De tudo ficaram as ruínas e as sombras, como convém à minha idade. Mas, como dizia Florbela Espanca ("não, você não ousaria!"):

"Se é sempre Outono o rir das primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair...
Que a vida é um constante derruir
De palácios do Reino das Quimeras!

E deixa sobre as ruínas crescer heras.
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida é um contínuo destruir
De palácios do Reino das Quimeras!

Deixa tombar meus rútilos castelos!
Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
Mais altos do que as águias pelo ar!

Sonhos que tombam! Derrocada louca!
São como os beijos duma linda boca!
Sonhos! ... Deixa-os tombar... deixa-os tombar..."

Aliás (vai ficar feio a formatação, contudo), olha só a confiança, é disso que gosto nela:

"O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém.

Porque o meu Reino fica para além...
Porque trago no olhar os vastos céus
E os oiros e clarões são todos meus!
Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém!

O mundo! O que é o mundo, ó meu Amor?
— O jardim dos meus versos todo em flor...
A seara dos teus beijos pão bendito...

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços...
— São os teus braços dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o Infinito."

"Se é sempre Outono o rir das primaveras". Não sei se há outro poeta que eu leria com tanto prazer quanto ela. Quero dizer, outros há, mas que importa agora?

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Nossa imagem de glória

Antes que outro alguém resolva ter a mesma idéia, deixo já aqui registrado para que no futuro todos reconheçam a grandiosidade e o pioneirismo de meu pensamento. Um pouco que se assiste de Discovery Channel já basta para perceber que a concorrência no campo está crescendo, e cada vez estão mais ousados, e acho que chegou a minha vez de tomar parte. Os projetos vão desde cobrir as geleiras do Pólo Norte com capas de cor branca, a infestar os mares com navios onde se produziria energia solar. Eu, ao meu turno, não decepciono. Bem é verdade que de tanto eu repetir já deve ter ficado enjoativo, porém ainda não há registros sólidos o suficiente que possam resistir à minha morte. No máximo tenho ouvintes esporádicos que, muito provavelmente, não espalharão a minha boa-nova, nem se importarão em mencionar a minha autoria. Sim, uns malditos. Entretanto, eu mesmo já estou trabalhando para enviar essa mensagem em ondas de rádio e fazê-las propagarem através do espaço.

Bom, a questão é: encontrar novas formas de produção de energia que sejam ao mesmo tempo eficientes e limpas. A energia solar e eólica, embora limpas, são muito caras e ineficientes comparadas com, por exemplo, a energia nuclear. Então resolvi olhar um pouco mais para cima, e lá encontrei a Lua, vagando vagabundamente ao redor da Terra. Pensei: por que não fazer de seu inaproveitado movimento orbital uma solução para o problema do aquecimento global? Por óbvio que não estou insinuando painéis que captariam a luz lunar, embora isso seja particularmente interessante. Mas acho que estou me demorando. A minha idéia é bastante simples. Sugiro a construção de uma ferrovia ao redor do planeta, que atravessaria oceanos e continentes inteiros. Uma imensa locomotiva percorreria seus trilhos, fazendo girar milhares de gigantescas turbinas construídas ao seu redor. Pergunta: e qual seria seu combustível? Resposta: Nenhum. Através de um cabo amarrado à Lua, enquanto esta orbitasse naturalmente a Terra, moveria a locomotiva ao longo dos trilhos, em uma velocidade espetacular. Eficiência: total. Conseqüências para a natureza: nenhuma, a não ser a gradual desaceleração de nosso satélite, o que, mesmo assim, demoraria muito tempo para que sofresse uma significativa redução.

O meu projeto possibilitaria, além de uma eficiente e limpa produção de energia, um rápido sistema de transporte ao longo de todo o Equador, conectando populações de diferentes regiões, como África, Brasil, Indonésia e... Bom, se é verdade que o slogan "conectando regiões pobres a regiões pobres" não é muito atrativo, certamente a imensa produção de energia é. Teremos problemas? Nem tudo é perfeito, eu direi. Se haverá certa dificuldade em imaginar como seria o embarque e desembarque desse hipotético trem, uma vez que não há como parar ou sequer freá-lo, penso que se as populações do século passado puderam acostumar-se aos bondes, nós também conseguiremos. Da mesma forma, deve-se levar em conta que este é apenas um esboço, e será fácil imaginar como podemos aperfeiçoar o sistema através de um engenhoso sistema de roldanas, possibilitando não apenas uma locomotiva, mas muitas, que poderiam percorrer diferentes latitudes e, até mesmo, longitudes.

Ademais disso, pense no espetáculo que não será nosso mundo se nós, ao longo dos trilhos e dos cabos, criarmos um sistema de iluminação que poderia ser vista do espaço. As civilizações alienígenas hão de reconhecer que conseguimos transformar nosso planeta no mais divertido do Universo, e que, no final das contas, não somos tão patéticos assim se podemos fazer da Terra um imenso brinquedo (pense nas montanhas-russas, nas rodas-gigantes, tudo movido a energia lunar).

Bom, é isso. Ainda estou hesitante quanto a contactar o Discovery Channel. Minha promessa? Um futuro de energia lunar, muitas luzes e glória sobre trilhos e loopings em alta velocidade.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Fantasma das águas

Atado à cauda em brumas de trêmulo peixe
Sobre as mesmas pedras sibilante circulo
Qual fantasma sem sonhos de lúgubre azul
Que no vazio das órbitas fundas em luto
Sacode-se desfeito em véus sem som ou luz
Dos frios cristais contra o meu peito insepulto.

O meu crânio ardeu ébrio do noturno trago
Os mudos lábios desvanecidos em névoas
Nas bordas em lâminas de um cálice incauto,
E soturnas contornaram as rodas férreas
O périplo das estrelas mortas nos passos
Descarnados do destino fremente em trevas.

Agitam-se as palmas áridas e sem cor
Atrás do vitral partido em vozes sem rosto
Que murmurantes rastejam folhas de sangue
Em vão pelas réstias esquecidas dos rotos
Vórtices de sol acendidos sobre o estanque
Lago onde agora jazem em sombras envoltos.

Antes jamais houvesse em fulgor fustigado
Pelos cabos gotejantes de claros ventos
Tremeluzente íris de tergiverso fado
Sobre o orvalho esvoaçante em meu degredo,
Do que saber-me agora em cinzas transtornado
Dos ásperos anéis de cobre ferrugento.

Fantasma que em pálidos sussurros transpõe
A garganta das escuras águas moventes
Em lentos braços agonizantes em vida,
E os gélidos pés que em desalento dormentes
Vão-se vaporosos pelas rochas esguias
Do cálido seio feito pórtico ausente.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Uma história de lágrimas e panquecas

Eu vivia em uma cidade pequena, no interior da província. Fazia trabalhos com ferro e usava uma banheira para cozinhar a sopa, a mesma que Tom e Fran de vez em quando alugavam para tomar banho. Um dia alguém levantou uma pedra à beira de um regato e descobriu a minha cidade. Não houve manchetes, apenas uma transmissão local de um rádio amador, que nunca foi ouvida, pois a mocinha que costumava ouvir naquela estação tinha se levantado para ir ao banheiro. De todos os habitantes, eu fui o primeiro a saltar, e por isso eles me chamaram de João I. No início isso deixava as pessoas um tanto confusas, e facilmente eu era confundido com alguma espécie de monarca, o que, claro, trazia uma série de regalias gastronômicas, culturais e geológicas. Mas logo eles começaram a perceber que monarca algum andaria vestido em um saco de batatas, e monarca algum ofereceria um balde de madeira para as visitas sentarem. Então, quando eu já não convencia a mais ninguém, fui expulso da Corte e forçado a trabalhar para viver.

Arranjei um trabalho nas minas de ouro e assim permaneci durante anos. Todas as manhãs partia em um vagão e não retornava até que estivesse cheio. Infelizmente não fiquei rico, pois gastava todo o ouro na construção de um navio de madeira. E quando finalmente ficou pronto, chegaram-me notícias de que já não havia mais ouro no oeste americano, e desisti de minha viajem. Era uma tarde de sol e fiquei olhando desconsolado para o meu navio de madeira, que já não serviria para mais nada a não ser atração turística ou ponto de encontro para bêbados. Então o desmontei e construí uma panquecaria. Era a única coisa que eu sabia fazer e precisava ganhar dinheiro. Ao lado ergui uma torre de madeira, que era onde ficaria o meu quarto. Você podia subir por uma corda de cipó e depois descer por um tronco em forma de espiral. Também havia uma escada, mas não era muito eficiente, pois em alguns pontos havia faltado tábua. Tinha uma vista que alcançava toda a baía, e de noite eu recebia astrônomos de todos os cantos do país, pois, diziam, era um lugar muito propício para ver as estrelas. Passei assim a vender panquecas a preços módicos. Tinha de framboesa, chantilly e frango com milho. Também vendia cerveja e mariscos cozidos, que não eram lá essas coisas, mas as pessoas comiam. Elas não conheciam mesmo o que era uma cozinha limpa e por isso não se importavam. Nem eu.

Um dia eu estava passeando pela praia, colhendo mariscos para o jantar, quando vi um velho marinheiro sentado em uma pedra. Olhava para o que restava do sol e voltava a esconder o rosto entre os seus braços, chorando. Ele tinha uma barba muito grande e negra. Aproximei-me e perguntei-lhe se acaso a minha vista era o motivo de seu pranto. Ele então me respondeu algo em norueguês, e voltou a chorar copiosamente. Passei o meu dedo nos cantos de seus olhos e experimentei. Tinha um gosto bom e ao mesmo tempo amargo. Resolvi pôr em minhas panquecas. Foi um sucesso. Todas as noites as pessoas vinham à minha panquecaria, e noutro dia sempre voltavam, querendo mais e mais. Foi então que em menos de uma semana os casos em toda a cidade começaram a ocorrer. Todos os dias centenas de pessoas dirigiam-se à baía e atiravam-se ao mar, convulsionadas de uma estranha querência que não podiam satisfazer ou explicar. Eu tentava impedi-las, mas elas me empurravam, presas em seu profundo e incompreensível delírio. Gatos, mulheres e crianças. Foram-se todos, levados pelas ondas, angustiados de uma saudade que não podiam aplacar, os seus corações apertados e vivos como nunca o foram.

Meu Deus!, eu pensei, olhando a cidade vazia ao meu redor, apenas as casas e as suas portas mudas. Sem saber o que fazer, corri para a capela que ficava no topo de um pedregulho, dependurada em direção ao mar. Abri as portas de madeira, que já estavam velhas e rangeram de um jeito medonho, e entrei, pálido e já sem olhos para o mundo. Minhas pernas estavam bambas como maria-mole, e tombei sobre o chão empoeirado, com a mão apertando um bilhete sem número, sem sorte. Não sei por quantos dias dormi. Acordei com um barulho que vinha do vitral, logo atrás do púlpito, como se alguém quisesse entrar. Havia sombras coloridas mexendo-se atrás do vidro, e por um instante cheguei a pensar que eram as pessoas que voltavam do mar. Mas eram apenas pombos, que levantaram vôo assustados quando abri a janela. Olhei para a brisa e assim permaneci por uma semana ou mais, salgando as minhas narinas. Então despedacei o meu bilhete no vento, que na verdade era onde eu havia escrito o nome de quem havia limpado as minha botas há muito tempo atrás, e voltei para casa, arrastando os meus sapatos de madeira pela noite.

O tempo passou e hoje eu trabalho na cabine da estação de trem. Vendo passagens de ida, ida e volta, e volta. Para Zurique, Milão ou Petrópolis. Pelas catracas eu fico espreitando o senhor de olhar estranho que todos os dias pega o trem das seis para trabalhar. Por um momento pensei que esta manhã estivesse zangado comigo, ou apenas chateado. Eu realmente não sei. Acabo de botar um recado em sua carteira enquanto ele procurava os óculos, como quem arma uma bomba. E quando ele embarcar no trem e sentar-se no lugar de costume, vai conferir a sua identidade e vai ver que há também um papel cuidadosamente embrulhado. E quando ler, vai voltar e devolver-me como se fosse uma dinamite de pavio aceso. De vez em quando, no banheiro, eu olho por aquela janelinha redonda, e fico a observar se aparecem sombras como aquelas que vi no vitral da capela. Antes de dormir, eu ponho uma vela em minha cabeceira e fico escrevendo sob a sua meia-luz os nomes dos que partiram pelo mar. Depois eu sempre acabo esquecendo eles nos bolsos ou devolvendo sem querer junto com as moedas do troco.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Perfunctório cenho

Filosofias utilitaristas são bastante razoáveis. Eu mesmo raramente consigo evitar um pensamento utilitarista, e freqüentemente acho que o útil é sempre o melhor critério para tomar decisões. Mas é uma idéia tão feia que eu prefiro tangê-la só de leve, e quando tento me esquivar, pareço mais como alguém que sustenta bolinhas de Natal no ar. Fútil? Talvez. Mas veja pelo meu ponto de vista. Se tudo está lentamente se deteriorando (tudo, tudo mesmo), então não é lógico concluir que toda utilidade no fim será inútil? Meus valores são muito melhores, ainda mais quando me pego no mais flagrante pensamento acrítico, e não se preocupam em serem úteis, pois sabem que tudo termina e que nenhuma utilidade pode ser útil por muito tempo. Não é difícil imaginar como o útil pode levar a uma conclusão absolutamente absurda, dependendo apenas do ponto de partida que se toma.Se visássemos apenas o útil, restaria saber a que fim.

Por exemplo, o Estado não precisa submeter toda a população a uma cirurgia nos olhos para que vejam tão somente em preto e branco e assim não precisem mais gastar dinheiro com tintas. Mas se o fizesse, não estaria sendo útil? Afinal, gasta-se muito tempo, imaginação e recursos naturais com algo que pode ser dispensado. Da mesma forma, o Estado não precisa ser uma agência bancária onde você pode sacar mensalmente a sua parte nos lucros. E se assim fosse, também aqui não se vê na justificação do Estado como uma utilidade para o indivíduo? Não é isso ser útil? Mas o Estado não é o cocho do povo, nem tampouco é uma espécie de forno que precise ser constantemente alimentado. Não, Estado. Senta aqui que eu lhe explico: você não é apenas uma utilidade, nem é um fim último como é a fabricação de um móvel para um carpinteiro. Você é um fim que, digamos, consuma-se a cada instante. Bom, na verdade nunca se consuma, nem mesmo você é um fim, e o verbo melhor seria: Estado, você se realiza. O Estado não é somente uma utilidade para mim e para você, mas algo que se realiza. Se bem que acaba de ocorrer-me que isso pode não ser mais verdade quando todo o aparato estatal for controlado por robôs, e é bom não duvidar.

De qualquer modo, estarei aqui: "Eu jogo golfe assim. Você joga assim" [dá uma rebolada e finge acertar uma bola com o taco]. Por que mesmo? Porque eu acho que a minha opinião nunca vai ser lá muito fixa, e, no entanto, estarei esperando, nos jardins do monastério, depois do arco de pedra, atrás do carvalho sem rosto.