terça-feira, 19 de outubro de 2010

Roldanas, apenas

Vim aqui apenas para conciliar-me. Gostaria de mostrar que, por trás dessa máscara de pó-de-arroz e debaixo desse chapéu de plumas, esconde-se um humilde ser humano pronto a montar na frente de sua propriedade uma fila do sopão, acendendo nos tambores de lixo dos necessitados uma ardorosa chama da caridade e dando a todos, sem olhar a quem, uma bela caneca de legumes e carne. Deixo a frente de combate e assumo meu lugar no mundo mais uma vez, para dizer a todos sobre "as terras por onde andei, e os amigos que lá deixei". Abro então um grosso volume da estante - não que precise estar algo escrito, mas apenas enquanto uma maneira de abrir um livro suspirando e relaxando a musculatura das costas no estofado - e chamo para mais perto minha caneca de chocolate-quente. É preciso deixar os rosnados de lado, ao menos por um tempo, e esquecer o olhar nas fagulhas que ascendem em estrépitos da lareira, pois o mundo - eu sei, vai ser um choque - não é aquilo que eu disse. Bem é verdade que o mundo supra-sensível tem seus encantos, e que deixar-se seduzir pela plano das estruturas lógico-normativas é tão fácil quando não se tem que preocupar-se com o objeto de carne e osso que ficou para trás no processo objetivo de intelecção. Porém, meus irmãos, é como se o real morresse um pouco cada vez que se avança nessa pureza de pensar, e morrendo o mundo, perece o pensamento, e todas as terras que ele busca atingir afundam-se igualmente no horizonte das categorias abstratas.

Eu havia dito que nada mais inútil que a caridade. Sim, em certo sentido, mas nada mais vivo e belo que os pequenos gestos que tentam manter estáveis os pilares de nossa civilização, como se fossem úteis roldanas a tirar a sobrecarga por alguns instantes. Pois, embora meras roldanas, são roldanas, e fazem mover benfazejas os corações daqueles privados de todo o esplendor do Ocidente, quando então uma pequena parte de suas sombrias figuras são resgatadas da lama e trazidas à tona [para depois novamente naufragarem mal viram os voluntários as costas]. Roldanas podem parecer insignificantes diante de toda a enorme engrenagem. Mas é verdade que roldanas, apesar de meras roldanas, são muito bonitas e úteis, pois distribuem peso e aliviam a dor do trabalho. Lembro-me agora de um cenário do jogo do Pato Donald (que por sinal era em vários pontos aterrorizador, sombrio, místico e instigante), onde você tinha que conduzir o personagem através de varais, apoiando-se em roldanas e deslizando até o lado oposto. Ao fundo havia um cenário perturbante de uma cidade de tijolos alaranjados em um entardecer. Era muito bonito e ao mesmo tempo... qual é a palavra? Desolador, como todo fim de tarde. Enfim, roldanas são belas em aspecto e função, assim como pode a caridade ser, pois bondade também é beleza e razão, quero dizer, senão ao menos conversíveis entre si, apóiam-se como condições de existência. Pois certas coisas não são possíveis de valorar-se pelos seus efetivos resultados, mas aquilo que lhes deu origem já vale por si mesmo, e indica que as coisas existem e acontecem não importa o aproveitamento que se lhes possa tirar. Caridade já vale por aquilo que é, independentemente de quão fútil e efêmero seja seu resultado.

Dentre outras mentiras e veleidades que me esqueci enquanto lia esse livro imaginário que eu tirei, mas que, sem dúvida, mancham igualmente meu semblante. Apenas para dizer que eu deposito mais confiança no que os outros falam do que em minhas próprias palrações. Bom, na verdade somente em alguns, evidentemente, nos quais deponho o dever de corrigir-me, pois sei que detêm a tão desejável ilustração pela qual exponho o meu pensamento. Mas o que estou a dizer! Não devo satisfações de meus negócios! [joga a a caneca de chocolate-quente na cara da anfitriã e começa a dançar ao som de Gipsy. Na verdade, todos começam a dançar].

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Coração de areia

Nos pálidos nodos das espáduas desliza
O negro manto de súbito despertado
Sobre o silêncio da torre de brilhante hulha
Onde de trás sequiosas esconsas polias
Erguem pesados anéis do velo de sombras
E vestem-me a opalina pedra erigida.

Marcham os úmidos pés sobre o promontório
Emerso dos braços de estrelas esgarçadas
Nas rochas da noite, e no cinzento zimbório
Das nuvens finco-me o gume de rouca ânsia
Vertida das pulmonares bolsas inchadas
Das notas contorcendo-se em amarelo óleo.

Espraio-me nas douradas trompas do abismo
E deixo levar-me o vento a inútil espuma
Dos cabelos cobertos em sinos de sal,
Como se o silvo me arrefecesse aos ouvidos
O sentido de meu rastro pelo ermo gelo
Onde estremece a aurora em semblante esquecido.

Pairo lúcido espectro sobre a vela ardente
De uma insone memória que em luz de cinábrio
Rasga-me o odre de ferro como a um ventre,
E em febre nas trevas em asas de quitina
Arrasto-me extinto de todo o antigo anelo
Perdido em roxas brumas dos olhos pungentes.

Revolvem no lodo as rodas o frágil vulto
Que submerso decanta seus veios de cálcio
Pelo pântano como um coração de areia,
E nas dragas de lúrida fronte convulso
Enfim descubro a mais dura pedra colhida
Vazar em lama de ervas dos punhos oclusos.

sábado, 9 de outubro de 2010

Ao pé de uma macieira

Ao expor a minha dúvida quanto à possibilidade de haver a multiplicação de riquezas diante de um mundo natural que apenas se reproduz através de si mesmo, sem que isso signifique qualquer espécie de aumento quantitativo de matéria, fui acusado, e bem justamente, de portar uma concepção medieval da economia. Eu reconheço a minha ingenuidade, mas, embora eu não devesse, senti-me orgulhoso disso. É como se eu me visualizasse encostado em uma macieira, a escrever um tratado sobre a agricultura em latim, cunhando sentenças de tom moral, mas solidamente calcadas na antiga lógica aristotélica. E, volta e meia, eu volveria meu olhar para a vista do campo, dominado por um castelo erguido no sopé de uma pequena colina, onde os servos semeiam as valas abertas e empurram o arado pelo solo, um tanto duro, mas que logo vai cedendo ao instrumento puxado por dois bois de olhar brejeiro. E então, suspendendo a pena por esses longos momentos de contemplação, iria compondo lentamente sobre a verdadeira origem da riqueza de um país.

É que as idéias dos antigos parecem-me muito mais simpáticas e pacíficas, como se a sua manifesta ignorância, que só agora nos parece manifesta ignorância, não fosse senão a revelação de um mundo mais terno e calmo, de ritmo lento como as passadas de um boi. Tão diferente dos modernos moralistas, que parecem gritar em meus ouvidos, conclamando o céu e o inferno para que venham às suas fileiras e marchem em direção a um destino hipotético e pseudocientífico. Parecem ter perdido a capacidade de falar em um tom sereno e sério, como se o discurso não pudesse fazer efeito nos ouvintes senão através de expressões de violência e dados assustadores, como se o nosso sono não pudesse ser despertado senão através do medo e de mentiras, engenhosamente disfarçadas para servir a sua boa-causa. Porque a verdade, para eles, não passa de uma concepção parcial da realidade, amoldada por interesses de grupo ou classe, e a sua busca objetiva é uma ilusão, da qual estão cansados e agora tomam as ruas queimando pneus e fazendo chantagens.

Eles tocam o meu interfone e começam a falar uma série de coisas, que eu não entendo bem, pois há muito barulho de buzina no fundo. Eu até tento discernir algum sentido racional em seus discursos de palanque, mas só consigo escutar aqui e acolá "hipocrisia", "nova ordem", "pró-ação", "tira essa bunda do sofá". Eu vou, mas é para colher maçãs e para pôr essa bonita fotografia.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Eu aqui, polindo os meus óculos

Muitas vezes a conveniência faz com que conceitos fundam-se um aos outros, como se não fossem mais do que digressões de um mesmo ser, e como se cada fragmento do vitral pudesse ser tomado como a origem primeira e o destino último dos demais. E assim torna-se possível a criação de um monopólio de um conceito sobre todos os outros, forçando-os a comprimirem-se em uma mesma moeda, na qual não é mais possível manter intactos os antigos limites que os circunscreviam. Então a posição do observador passa a ser não apenas o início de toda especulação, mas o denominador comum, que não somente paira sobre os conceitos como uma sombra, mas envolve-os e imiscui-se em suas essências, confundindo-os em um mesmo plano artificialmente ampliado. É o que muitas vezes acontece quando algumas pessoas resolvem enxergar as coisas pelo "prisma social", pretendendo interpor entre o sujeito e o objeto uma teoria científica e, ao mesmo tempo, "desmascarar" a realidade, sem que isso implique em qualquer contra-senso em seu discurso, como se as máscaras caíssem automaticamente sob a luz dessa teoria, que já não é mais mero discurso hipotético, mas verdade revelada. Porém, enxergar as coisas por outro prisma é algo curioso para mim, pois eu mesmo penso os prismas como a metáfora perfeita para os seres imutáveis, sólidos e exatos, e não como transparências diante das quais tudo parece relativizar-se em miríades de posições. Da mesma forma, não consigo entender como e quando foi que a universidade passou a ser entendida como instituição social, nem entendo em que sentido poderia realizar qualquer espécie de função junto à sociedade, como tão fastidiosamente tem-se comentado.

Quando ouço falar em universidade, o que me vem à mente - e não só à minha, mas imagino que à de muitos ainda – é aquele velho conceito de universidade, construído pelos séculos e levada até os nossos dias pela tradição, que nos fala de um lugar voltado para o ensino e pesquisa científicos, preocupado na formação profissional de técnicos e na transmissão da cultura. Mas parece que os fins que persegue já não são suficientes para justificar a sua existência, e agora urge que adote uma postura mais ativa no meio social, desenvolvendo programas que beneficiem diretamente a sociedade como um todo, e não agindo como se fosse uma nave alienígena, voltada para si e alheia às mazelas de nosso sistema. Afinal, ela recebe recursos públicos provindos da contribuição de todos, de modo que a universidade não é mais do que uma servidora, cuja principal preocupação deveria estar centrada nas necessidades de seu meio, e não em perseguição a fins esdrúxulos e fúteis, sem utilidade imediata que possa ser aproveitada por toda a população. Não pode ser mais vista, portanto, como uma mera instituição de ensino e pesquisa, mas um agente social, calcado nos valores da justiça e da igualdade, como mesmo convém a uma verdadeira democracia. E então ela segura na barra da saia e faz uma leve flexão com os joelhos, pois não é justo que tão-somente uma pequena parcela da população se beneficie de todo o seu aparato, pois aquilo que todos ajudaram, de uma forma ou de outra, a construir, deverá ser por todos acessível, e aqueles que, devido a condições sócio-econômicas desfavoráveis, mantiveram-se afastados de sua instituição deverão ser incluídos, numa entediante tentativa de aliviar em seus quadros as desigualdades econômicas, raciais, étnicas, etc.

Ocorre, entretanto, que a universidade nada tem a ver com tais condições sócio-econômicas, e pouco lhe importa que camadas inteiras da população sejam sistematicamente eliminadas de suas carteiras e laboratórios. Os valores que constituem a sua natureza institucional não são o da justiça e da igualdade, pois o espaço em que se desenvolvem as pesquisas e o ensino não é um espaço social, muito menos um espaço político, pois a maneira como promove suas ações não se dá baseada em necessidades econômicas ou em interesses comuns que atinjam a todos, nem mesmo pretende ser um espaço de decisão ou determinado por regras comportamentais. Os valores que regem o ambiente universitário são o do mérito pelo conhecimento e o da iniciativa científica, de modo que constitui-se não em uma estrutura eminentemente democrática, mas em uma hierarquia entre aqueles que sabem e aqueles que querem saber. O que promove suas relações é o conhecimento, e só em torno deste é que se promove o debate, não no sentido em que se dá em um ambiente político, pois não almeja nenhuma tomada de decisão, mas apenas no sentido da promoção da ciência, no aprimoramento da técnica e do conhecimento. É por isso que um professor não pode esperar aprender muito com seus alunos, a não ser que se esteja diante de um claro déficit de formação acadêmica, pois não são iguais que se encontram no ambiente universitário, mas indivíduos hierarquizados pelo conhecimento. É claro que semelhante hierarquia não é a mesma que se dá em um espaço social, pois é muito mais volátil e relativa, e os pólos entre aquele que sabe e aquele que quer saber podem facilmente inverter-se conforme a situação.

O que se quer dizer é que a universidade não pode vincular-se à subsistência da sociedade, pois visa à produção de conhecimentos de forma livre, e semelhante intromissão só tem a atrapalhar toda a iniciativa científica. Do mesmo modo, a formação profissional e a promoção cultural que desenvolve não pode transformar-se em mero serviço público, pois não se trata de extensão de um departamento da administração. É importantíssimo que mantenha autonomia face à política e à sociedade, pois os fins que estas perseguem são absolutamente impróprios na consecução de um de seus principais objetivos: a busca pela verdade. Quando se atrela as iniciativas científicas da universidade às necessidades sociais ou aos interesses políticos, a pesquisa está fadada ao condicionamento, e a produção do conhecimento perderá o seu tão essencial caráter objetivo e neutro. Os interesses, sejam sociais ou políticos, amoldam a produção dos fatos, vinculam os objetivos e tecem verdades falsas e parciais, que nada têm de científico, mas, ao contrário, constroem ideologias, contra as quais não parece haver verificabilidade ou provas em contrário que possam desmenti-las ou iluminá-las. Mesmo as promoções culturais, que talvez sejam as atividades que mais se aproximem a um conteúdo político ou social, não podem sobreviver durante muito tempo como ação autônoma e espontânea quando começam a perseguir algum tipo de finalidade que não a própria produção cultural. Pois se a universidade em vários momentos pretende a transmissão e cultivo de idéias, tradições, filosofias, o faz no sentido de manter o conhecimento vivo e livre, e sua liberdade cessa exatamente quando passa a perseguir fins alheios à sua natureza institucional.

Do mesmo modo, transportar artificialmente valores de justiça e igualdade para um lugar que é tradicionalmente formatado pela hierarquia do conhecimento não é fazer mais do que a anfitriã que encobre os móveis de sua casa com lençóis floridos. A universidade não é lugar para justiça ou igualdade social, pois tal deve ser feito muito antes, em sua verdadeira origem. Tentar mascarar problemas sérios de ensino sob a égide de um pretenso valor social que deve buscar a universidade, assemelha-se mais à ação caritativa do que a um ato de justiça, e nada mais inútil do que a caridade. Esta se parece com uma espécie de um mal necessário, como uma ultima ratio, quando nada mais é possível de ser feito e quando tudo parece já não adiantar. Então temos a caridade, que apenas consegue sustentar, manter em movimento as pás de um moinho, mas nunca construir um outro moinho. Assemelha-se mais ao trabalho solitário e recôndito do burrinho, que faz girar as engrenagens enquanto se move em círculos lentos, como se o seu próprio trabalho não fosse senão um mudo sofrimento. Caridade morre em si mesma. Quando a ação caritativa cessa, nada além dela sobrevive. Pois é um ciclo, não uma reta projetada para o futuro, como é a acumulação do conhecimento e a ação política.

E eu digo isso (e aqui me dispo de qualquer conteúdo para atingir o neutralmente polido, o discurso de plumas e pó-de-arroz, pois mesmo não acho que semelhantes idéias sejam fáceis de virem desacompanhadas de ódio e preconceitos) tomando meu chá de erva-cidreira, e não dando surras com pão-bengala em suas costas.

domingo, 12 de setembro de 2010

Não adorarás falsos deuses

É nessas horas aqui, sentado em minha poltroninha, que uma certa presença em mim, ao pensar nessas criaturinhas saltitantes e tolas que desfilam diante de meus olhos exaustos a fazer toda sorte de obscenidades e selvagerias, sussurra com uma voz grave em meus ouvidos dizendo: "Capture-os e os conduza ao laboratório, onde seus corpos e mentes serão robotizados e assim controlados por um computador central, que passará a reger suas vidas hipossuficientes e daninhas ao nosso sistema de valores". Mas eu sei o quanto essa idéia é errada e absurda, e também sei que não devemos confiar em vozes em nossa cabeça, e por isso logo afasto essa maligna voz e continuo com o meu tricô. Aconselho: além de relaxante, trará a você aquela aura de bondade e paciência tão rara em pessoas de nossa idade.

Mas se mesmo assim o Senador Palpatine continuar a resmungar debaixo do seu assento (coisas como "a força é intensa em você" ou " eu posso sentir o seu ódio, e ele o guia"), não se sinta envergonhado de recorrer à velha e eficiente vassoura, e expulse-o dali com umas boas surras nas costas. Verá que não é difícil afugentá-lo. Entretanto, se ele algum dia esteve ali, não há dúvida de que voltará mais cedo ou tarde. Então, espalhe ratoeiras atrás do sofá e cerque-se de tudo aquilo que a Civilização produziu espelhada na Ordem e na Bondade. E jamais - eu disse jamais - deixe que a decrepitude alheia faça com que você perca a fé no esplendor do Ocidente.
Pintura de Sarah Watts
Está ouvindo esse chiado? É o som da chaleira. Ou melhor, é bem mais do que isso. É o sinal de que a tradição mantém-se ainda viva em pequenos gestos domésticos, pois nossas casas são como baluartes e nossos livros potentes canhões. E não importa o quanto tentem expugnar seus altos muros, resistiremos ao cerco das bestas e elas provarão de nossos rijos punhos de rendas. E nem mesmo que o próprio Dark Lord of the Sith bata em nossas portas oferecendo os mais magníficos Sonhos de Ordem e Pureza, não o deixaremos seduzir-nos e assim esmagar-nos a Liberdade sob seus pés. Pois se há alguma coisa que aprendemos com o destino de Anakin Skywalker é que o Lado Negro da Força não pode criar outra coisa senão trevas.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A Velha Louca do Pântano

Há certas criaturas diante das quais me sinto impotente, como se Lothlórien perdesse realidade a medida que se aproximassem com seus costumeiros grasnados e arrastar de trapos, que é a maneira como geralmente vêm ao nosso mundo e assim tornam-se conhecidas para nosso espanto e horror. São espécimes pestilentas encerradas em seus primitivos modos de pensar, cuja vista faz com que eu perca o meu chão e seja arrastado em direção a suas profundezas lodosas e incultas. Em vão aponto-lhes os meus anéis do poder, e os prismas incandescentes que o cravejam vão se apagando um a um ante sua estéril escuridão. E, então, esqueço-me de todas as razões para crer nas medidas exatas e imutáveis com que insistia em trabalhar.

Certa vez, e é por pudor e não por bondade que não revelo sua localização, nome, estatura e idade, uma senhora proferiu, transcrevo palavra por palavra, como se fosse da própria natureza da natureza mastigar o que há de mais belo com sua língua coberta de areia, essa estranha sentença: "Detesto flor!". Mas o que há de mais, nisso? - perguntam-me. Afinal, dizer por dizer em nada ofende de concreto, revelando, no máximo, sua pobreza de espírito ao rejeitar a aparência terrena da Beleza. Acontece, entretanto, que isso foi dito logo após ter matado uma árvore através da aplicação de veneno diretamente em sua raiz. A árvore era daquelas muito comuns na cidade que dão flores amarelas e miúdas, e, volta e meia, são assunto do jornal local, pois, naturalmente, nada mais interessante do que árvores que derramam folhas e flores pela calçada. A árvore secou e agora o sol atravessa inexoravelmente escaldante a sua copa sem folhas. Em compensação, sua calçada permanece, desde então, limpa (e feia - ou vocês esperam que alguém assim tem alguma idéia do que é um lar bonito e agradável?), e ela não precisa mais arquear as suas costas para varrer.

Não, esse ser não é meu igual, e vejo-a com muita preocupação. Alguém que é incapaz de distinguir aquilo que é seu daquilo que é comum aos outros merece, no mínimo, atenta vigilância, da mesma forma como se age para com crianças. E, mais, alguém que é incapaz de compreender que no mundo coexistem valores que exigem sua observância, e um deles é o Belo, coloca em risco a própria preservação da realidade humana, pois é como se o mundo morresse no espaço em que ocupa, através de sua ignorância e aridez de pensamento. Não acho que representem de modo algum uma espécie de natural diversidade de pensamento a qual somos freqüentemente confrontados e tentamos nos conciliar. São antes ausência e elas estão erradas na maneira como respondem ao cotidiano. Suas ações estão calcadas em um terreno que é para mim absolutamente incompreensível, e não consigo encontrar uma razão que explique seu estado de incompletude cultural, carentes de uma base civilizatória mínima.

Entretanto, enquanto fico a tentar entendê-las, passo muitas horas imaginando maneiras de retirá-las de nosso mundo sem que isso resulte em qualquer violência. A melhor delas, a meu ver, seria embarcá-las em um expresso para o Sítio do Pica-Pau Amarelo, onde, tenho certeza, dar-se-iam muito bem. Iriam para longe, assim, do alcance de nossos olhos, partindo suavemente em um lindo trem vermelho em algum terno entardecer, subindo os morros verdejantes e, logo em seguida, descendo-os a todo vapor, até que, finalmente, desaparecesse atrás do horizonte, deixando no ar uma coluna de fumacinha que igualmente esvanecer-se-ia em uma confusão de espaço e tempo. Para longe, longe... E, uma vez lá, poderiam fazer parte de toda sorte de aventuras de Pedrinho e Narizinho, habitando os cantos escuros da floresta, adormecidos sob pedras lodosas ou resmungando dentro de algum tronco podre. Eu, particularmente, enterneço-me em imaginar essa senhora perambulando pelos arredores do Sítio, a palrar coisas sem sentido e, certamente, engraçadas: "Nhag. Detesto flor. Nhag". Seria chamada carinhosamente por Emília de "a velha louca do pântano", aprontando travessuras e eventualmente servindo de antagonista nas historinhas. Tramaria maldades com a Cuca e Tia Nastácia as expulsaria com vassouradas em suas costas, que é para aprenderem a ficar longe de sua cozinha e pararem de roubar os deliciosos bolinhos. Sim, eu tenho um sonho.

Mas - oh, não! -, não pensem que se apagariam completamente de nossa memória. Seriam constantemente revividas através dos livros, produzidas fantasmagoricamente entre páginas amareladas pelo tempo e pelo desgastar das lembranças. Chegariam a nós como uma distante e impalpável história, como se fossem personagens de folclore, quando somente a partir de então essas criaturas das mais extraordinárias e grotescas poderiam fazer algum sentido. E, assim inofensivas, feitas de imaginação e vaguidão, aqueceriam nossos corações durante as noites, quando então ouviríamos sobre a Velha Louca do Pântano que tacara veneno em uma árvore, mas que foi logo salva com a ajuda dos preciosos conhecimentos do Visconde de Sabugosa.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Em tempos pretéritos, meu nome impunha respeito!

A sala estava repleta de cavalheiros altos e respeitáveis, estirados em seus pufes e em visível estado de tensão diante do senhor que deslizava pelo piano. Profundamente emocionado com sua música, ele agitava-se no banquinho como um desses indigentes quando mergulhados em uma lata de lixo, sem notar o choque que causava aos demais presentes. Os ponteiros do relógio pareciam amolecer por trás do vidro, e eu via horrorizado alguns senhores remexerem-se desconfortáveis nos estofados - mas isso era devido, depois ponderei, às migalhas de torradas que eles comeram pela tarde. Chevalier Camille Saint-Saëns, pressionando e fazendo girar constantemente uma moedinha entre os dedos, deixou-a escapar. A moedinha rolou ruidosamente pelo piso de madeira até os sapatos do pianista, os quais se contorciam a cada nota mais alta que se fazia estalar. Deus, alguém tinha escondido uma criança dentro do piano e ninguém me contou? - pensava com meus botões, que eram muitos e brilhavam de um jeito especialmente bonito. O que era até provável, pois não via Henry desde o dia anterior. Mas, enfim, após um último estrépito de teclas e pedais, terminava, finalmente, sua série, voltando-se para os demais presentes em ingênua expectativa do acolhimento de seus companheiros: “Então?...”, disse girando o banquinho e esfregando as mãos suadas uma sobre a outra; os olhos úmidos fixando de um rosto a outro, que o miravam mudos e cheios de náusea. Ora, o que espera ainda esse parvo? - pensei, olhando-o de cima a baixo e cuidando para que eu parasse de tremer de ódio daquela patética cena que... "Uh!", deixei escapar um tanto alto. Em vão tentei conter a minha exclamação pondo a mão sobre a boca. Notei, então, que usava uma gravata enorme e amarela. Até isso? - pensei escandalizado. Piotr Ilitch Tchaikóvsky coçou seu crânio calvo e deslizou os olhos até a janela. O silêncio aprofundava-se cada vez mais, e nem mesmo Johann Strauss II, outrora alegre e fazendo zombarias com os cachinhos de Wolfgang Amadeus Mozart, conseguia dizer uma palavra sequer para descontrair. Wagner deu umas tossidinhas secas, fazendo saltar uns centímetros a sua xícara sobre o pires. Mas isso não importa, pois ele sempre foi um pouco tísico - ou seria Vivaldi? Alguns pareciam ter se esquecido de que a pouco comiam empadinhas, e olhavam estarrecidos para o pianista, com a comida mastigada derretendo na boca e as taças firmemente presas nos dedos; ninguém ousava levá-las aos lábios ou fazer um movimento sequer com os maxilares. Haydn mirava constantemente para a porta de saída, contraindo os músculos das pernas como quem, ao menor sinal, dispararia correndo dali. Mas ninguém portava uma pistola, e ele permaneceu ali mesmo onde estava. Enfim, estava tudo acabado. Era o fim da reunião que eu, com tanto esforço, havia conseguido conduzir tão bem, e que agora terminava daquela forma tão desagradável. Vergonha, vergonha, murmurava escondendo o rosto em minhas palmas. Olhei, então, para Beethoven, sentado ao meu lado e tendo estranhos espasmos com as pernas, procurando dizer mudamente o quanto eu estava envergonhado com aquilo.  Mas a mesinha de centro e os copinhos de licor de cereja começaram a tremer mais forte com seus espasmos, e temi que a tragédia piorasse ainda mais. Preciso terminar isto da forma mais rápida e digna possível, pensei eu, fixando profundamente meu olhar no retrato de vovô que, vestido em um casaco de zibelina e botas altas ao lado de um cavalo, encarava-me severamente do alto de seu título de visconde. Meu constrangimento era absoluto, e, se não fosse pelo nome que portava, ter-me-ia arrebatado para cima dele naquele momento. Mas controlei meus impulsos e levantei-me, então, com estudada polidez, limpando os restos de patê dos lábios e armando um sorriso. Disse o que eu tinha para lhe dizer:
"- Oh, creio que o cavalheiro concluiu sua peça... Vamos, senhores, aplausos! – disse eu, batendo teatralmente três palmas de maneira esparsa e espalhafatosa, olhando para os demais que permaneciam sentados e imóveis. – Adorável, deveras. Certamente enlevado com a sua prodigiosa demonstração do funcionamento de uma garganta de um gato sendo esganado. Oh, quão agradecido não estou por transportar-me ao fantástico interior de uma fornalha ou máquina-de-lavar-roupa, seja lá como costuma chamar esses modernismos. Oh, não, para quê o fastio dos jardins geométricos franceses, os espaçosos salões, as escadarias livres e intermináveis por onde deslizam donzelas a sorrir, os vinhedos, os vitrais de místicas catedrais, os castelos dependurados em penhascos? Tsc! Oh, não! Você, não, Schoenberg, você é diferente. Você sabe o que é música... Agora, se não se importa, creio que tem outros afazeres a cumprir pela noite, e, se quiser, eu o acompanho até a porta de saída onde o cocheiro já deve estar esperando-o e... Oh! O que foi? Vai chorar? Hum? Vai chorar, vai?"

Desculpe se estou chocando, mas fato é que não suportei quando vi aquele rosto seboso pronto a desmanchar-se em pranto, e o que restava em mim de calma e honra desfez-se no ar com a rapidez de um relâmpago. Talvez a champanha tenha me subido demais à cabeça, eu não sei. Aquilo deixou-me fora de mim, e, em meu rompante de fúria, tomei o coquetel de camarões das mãos de Debussy e comecei a jogar os crustáceos contra Schoenberg, que, vagamente, tentava defender-se pondo os braços em escudo ante o rosto e corpo.
"- O que você acha disso agora, hum? Heim? Heim, seu chorão? – dizia eu atingindo-lhe um camarão bem no olho esquerdo. – “Música inovadora”, você disse! Que diabos foi isso!? E agora? Como fico eu? Eu contei a todos que tinha descoberto algo, e agora? Heim? Heim? Quer que eu fique com pena de você? Expressionismo alemão... Pfff!"

Foi então que, quando eu estava prestes a atirar uma cadeira, fui atingido na nuca por um golpe de garrafa, fazendo-me tombar sobre o tapete – sei disso porque me lembro de ouvir os cacos estilhaçando-se. Creio ter desmaiado a partir daí. Oh, não! Não me orgulho nem um pouco disso; sei que me excedi. Mas ter ouvido Schoenberg tocando aquilo bem no momento mais importante de minha vida social tirou-me do sério, entende?

- Você está pondo em dúvida a música de um dos maiores compositores do séc. XX?
- Oh, não, meu caro! Longe de mim! Afinal, quem sou eu? Eu apenas sei cara-crachá-cara-crachá...
- Espero que o senhor esteja ciente de que...
- Cara-crachá-cara-crachá...
- Eu já entendi, senhor... Agora se me permite...
- Onde está o meu tutor? Alguém pagou a minha fiança?
- Não exatamente... Mas lhe trouxeram bolo de frutas!
- Esplêndido!

*em prol de finais felizes.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Um piano quando desatina

Bom, não se nega que as experiências presenciadas neste  laboratório com buracos-negros foi um portentoso êxito da Ciência ao demonstrar que, sim, a deformação da malha espaço-temporal, através da concentração de matéria em um ponto infinitesimal, possibilita a viagem através do tempo e do espaço, a que eu chamo peculiarmente de "viagem espaço-temporal[faz aspas com os dedos]. Mas, também, conseguimos com que a viagem dê-se somente através do espaço, ou somente através do tempo, conforme o desejo do viajante ou conforme melhor atenda aos fins desta Instituição de Pesquisa. É claro, é claro...

Entretanto, não se pode dizer que o mesmo sucesso deu-se no plano dimensional do comércio (debalde eu explicasse aos patrocinadores do projeto as infinitas oportunidades de tráfico de artefatos históricos, exploração de minas na Lusitânia, captação de ventos do fluxo do portal dimensional na forma de energia eólica...), e por isso tivemos que recorrer a soluções inteligentes que ao mesmo tempo atendessem à Ciência e aos interesses de nossos empresários. E, para a nossa salvação (de nossos postos de trabalho e de nossas pesquisas com buracos-negros), a solução veio, graças aos nossos incessantes e frutíferos trabalhos no porão (ah, o porão!...).

Por isso, é com muita alegria que eu lhes apresento o inovador *FaZedoR de EsPaguEte HiperDiMenSioNal*. Não, não precisam fazer essas carinhas. É muito simples, e sei que estão aptos a compreender. Como sabem, os buracos-negros fazem com que a malha espaço-temporal dobre-se sobre si mesma como uma manta, devido à enorme força gravitacional gerada pela concentração de massa em um espaço muito pequeno. Pensem da seguinte forma [os alunos fazem cara de quem está pensando, pondo os lápis nas bocas e acenando as cabeças afirmativamente]: ao trespassar uma bexiga com uma agulha, necessitamos de um determinado tamanho de linha, a que eu chamo de "x". Porém, se essa bexiga tem suas extremidades comprimidas até se encostarem uma na outra, o comprimento da linha necessário será de "y", sendo que y > x, e x = ycm... hum... Bom, o importante é que a agulha atravessará ambas as paredes sem necessitar de comprimento de linha algum, de modo que a passagem é praticamente instantânea. Sendo assim, quando se pára de comprimir as paredes da bexiga, essas voltam ao seu lugar, fazendo com que novamente o comprimento de linha seja "x".

E, observando esse curioso fenômeno, nós nos indagávamos: o que aconteceria se puséssemos massa de farinha de trigo dentro do portal e desligássemos intermitentemente o buraco-negro, como os fantasmas fazem a um interruptor de luz? Chegamos, então, em nossos caderninhos, à mesma equação: sp = b.58+farinha+worm(hole)/m.c2. Interessante, não? Mas as respostas obtidas a partir daí divergiam drasticamente, sendo que algumas apontavam para a construção de uma nova Atlântida em Açores, e outras deduziam que o nosso Universo não era verdadeiro, mas uma mentira induzida em nosssos cérebros por Sauron. Transferimos, então, os dados em nosso computador, para que decifrasse para nós a verdade tão unanimemente expressa que, porém, chegava a tão diversos resultados. Mas, infelizmente, a resposta obtida pelo computador foi 42, e tivemos que ameaçá-lo com a fogueira para que parasse de fazer-nos pilhérias e dissesse de uma vez o resultado verdadeiro. E, para nossa supresa, a resposta foi espaguete. Mas é claro!, eu pensei. Tão óbvia! Bem debaixo de nossos narizes e nós não a vimos, o que nos deixou bastante surpresos porque sempre estávamos a olhar para os buços um do outro. Era assim, então, que funcionava: ao jogarmos a massa dentro do wormhole, e desligando o portal com ela ainda lá dentro, a massa estica até tomar a forma de um fio de espaguete muito fino e comprido. Brilhante, não?

E é assim que inauguramos a nossa própria fábrica de espaguete em nosso laboratório, cuja comercialização auxiliou-nos a adquirir esses galantes jalecos que brilham no escuro. Entretanto, devo dizer, o aproveitamento da massa posta no portal é apenas de 56%, que pretendemos melhorar com o passar do tempo. Acredita-se que o restante é perdido para outras dimensões conectadas involuntariamente pelo buraco-negro. Mas, em minha opinião, estamos diante de um clássico caso de pirataria intergaláctica. Quanto a isso, já estou encaminhando uma petição à Rainha para que bloqueie os portos dos mundos coniventes com esse vil contrabando que tanto nos onera. Agora, se me permitem, vou conduzi-los ao nosso refeitório, onde poderão provar nosso delicioso espaguete. Aliás, já colocamos, como nossa especial cortesia, pacotes de macarrão em suas mochilas enquanto anotavam o que eu falava.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Perto de um final feliz

- Ei! Psiu!
- Ahn? Que foi?
- Eu não posso ficar assim... Não estou apresentável. O que o Fiscal das Minas dirá se me ver vestido como uma sirigaita saturniana? Não estou digno! Faça alguma coisa!
- Como é que é?
- É... Você sabia que eu obtive licença para explorar os recursos minerais de Titã? Pois então! Ele está vindo aí, e eu aqui vestido como uma mulher impudica! Morro de vergonha!
- Titã!?
- É... Eu vendo gelo de etano para os drinques cósmicos dos astronautas, lembra?
- ...
- É sério! Então, não vai redesenhar o meu corpo? É urgente! Trajes espaciais decentes, por favor!
- Hum... Acho que não será possível. Estou sem tempo e está chovendo lá fora. Além do que, é como se o desenho já não me pertencesse mais...
- Bleh! Deixe de bobagens! Você sabe muito bem que essas filosofias baratas não resistem a um gesto seu. Vamos lá... Cabelos alaranjados e um nariz azul. E botas, também! Quem tem rabo vai a Roma. Muito fala quem cochich...
- Pára com isso!
- ...não se quebra omeletes sem queimar ovos. Onde tem fumaça tem tijolo. Água fria em pedra mole tanto fala até que...
- ...