quarta-feira, 28 de março de 2012

Sobre as boas maneiras IV

Quando se diz que alguém possui boas maneiras, não está se referindo a uma qualidade excepcional, a um eclipse de talentos e encantos, mas a uma harmonia de gestos e palavras, uma constância de entonação e de humor que não precipite os demais em sua própria pessoa. Quero dizer, não são nem a frieza histérica com que se fantasia de um inglês vitoriano, nem a cordialidade emotiva de um russo glutão; não são a exaltação de virtudes, nem o acanhamento completo, pois antes alguém que se conduza com boas maneiras tenderá a criar um espaço de conforto e amenidades. São, como já se me indicava anteriormente, intermediações entre as pessoas, acomodações gesticuladas e bem ditas que possam indicar a cada coisa um lugar justo e seguro. E é por isso que sua perfeição mede-se em termos de adequabilidade, como, por exemplo, ao se dizer que tal assunto é próprio ou impróprio à mesa, ou que tal atitude não convém a um jovem.

Mas, ora, isso não leva a uma assunção de papéis, de representações, de encaixes e estojos? Sim, é verdade. Ter boas maneiras significa agir e falar adequadamente em determinado espaço, perante determinadas pessoas e levando em conta sua própria condição. Um rei deverá falar como um rei, um político como um político, e um político deverá saber quando não ser político e quando sim. Por outro lado, se as boas maneiras tendem a definir estados e ações, seja lá com relação a que valores, elas também podem possuir um núcleo central que seja adequado a todos e em todos os lugares. Pois se é verdade que tal comportamento apenas caberá aqui e lá, e se é verdade que as boas maneiras podem conduzir os espaços ao conforto tão bem quanto ao enrijecimento, na medida em que cristalizam os atos e as reações em agradabilidades e jogos de mesuras, há nelas um conjunto inquebrantável que, pela virtude de servir a todos, poderá conservar no espaço uma necessária liberdade contra esses excessos da sociedade.

E qual seria a essência de tais boas maneiras? Obviamente que da mais simples e da mais comum. Não por isso significará menor refinamento, pois não há boas maneiras sem refinamento, caso contrário se cairia no absurdo de poder atribuir-se boas maneiras aos primeiros instintos. Por exemplo, comer um frango de maneira adequada não pode ser medido através do modo mais fácil ou útil, mas através de sua adequação a determinados valores: se se valoriza a parcimônia, não deverá ser comido demonstrando-se demasiado apetite. Se será com as mãos ou com talheres, já isso é uma questão que considero mais contingente. Porém, as boas maneiras nunca significarão outra coisa senão determinado refinamento, e o meio de buscá-lo não se resumirá a um somente. Logo, ter em vista boas maneiras em um núcleo que atenda a todos não dispensará refinamento, mas significará apenas um código mais amplamente aceito, coisa que não acontece senão a um número bem restrito.

Mas observo que a confusão apenas cresceu. Será realmente possível que exista? Quero dizer, será possível que exista uma etiqueta que possa ser usada por todos e em todos os lugares? Ou será que  um sacerdote deverá comportar-se como um sacerdote e nada mais além? Parece-me que não. Parece-me, aliás, que a chave da questão, embora não a responda, está no fato de que as pessoas não podem reduzir-se a seus personagens sociais, caso contrário, já não funcionariam as boas maneiras como muros, mas seriam elas mesmas o tudo. Devem, portanto, existir em um modo reduzido e simples, e devem ser de tal efeito que permitam ora ou outra a sua transgressão. Pois as boas maneiras não são o ponto em si do mundo, mas antes seus contornos, suas guirlandas e seu passeio à loja de flores. Não almejam o céu, mas tampouco dele se distanciam, e se seria insensato pensar-se em fazer delas todo o objeto de sua vida, mais ainda seria dispensá-las, pois espaço social algum sobreviveria se todos se pusessem a agir da maneira mais confusa possível.

terça-feira, 27 de março de 2012

Sobre as boas maneiras III

Já é a terceira vez que tento levar o assunto, e a essa altura deveria estar-me perguntando o que são as boas maneiras, mas não farei isso senão em outra oportunidade. Por ora, continuarei a conduzir-me estreitamente, circular e sem nunca de fato atingir o essencial. E nada mais adequado do que conduzir-se assim em se tratando de boas maneiras. Afinal, quando se faz uma cortesia, uma genuflexão, uma reverência, não estamos pretendendo outra coisa senão deslizar delicadamente ao redor de um ponto sem nunca nele cair.

Mas vejo que estou passando do horário. O que tão decididamente me trouxe foi a recordação do vendedor da loja de tênis que insistentemente me tocava no ombro. Sabe Deus de onde ele veio, mas me parece bastante desagradável ser forçado à intimidade com alguém por meio de contato físico, ainda mais em se tratando de uma relação puramente de comércio. Meu pai pode até tê-lo achado simpático, mas ele não me engana.

Talvez eu até devesse perdoá-lo pelo incômodo, pois sei que é uma mão invisível que o força a degradar-se perante os demais, concedendo lisonjas a situações evidentemente banais e exaltando a dignidade de um ambulante qualquer. Porém, se é de fato uma mão invisível, digamos então que ele força essa cordialidade justamente porque as pessoas gostam disso, porque sabe que assim elas comprarão e que se acaso agisse de outra maneira se sentiriam ofendidas.

Pois bem, faço-lhe essa indulgência, mas apenas para estender meu julgamento a toda a sociedade. Pois se de fato em geral se pensa que é adequado, ou melhor, desejável que um vendedor dê-se a liberdade de tocar alguém no ombro, puxando para si o seu cliente como seu mais habitual amigo, creio que devo fazer minhas objeções de porque devemos querer uma postura diferente. Vou tentar ser bastante breve, pois a verdade é que me ocorrem inúmeras.

Em primeiro lugar, eu chamo a atenção para a inadequação do âmbito. Uma relação entre vendedor e comprador não precisa, obviamente, ser a mais fria possível, mas acho que ninguém realmente está disposto a abrir seu coração no balcão de uma loja. Se existe uma coisa que nenhuma cordialidade do mundo conseguirá atingir é o coração. Pois o coração é justamente o que as boas maneiras tentam contornar e evitar, e não será num jogo de compra e venda que isso será diferente.

Desde a perspectiva do vendedor, parece-me igualmente inadequado que o comprador, e não mais ou tão somente o vendedor, exija dele essa afeição. Se não se pode exigir do comprador que exponha o coração, do mesmo modo o vendedor não deverá expor o seu. Forçar sentimentos é romper a fina casca que nos protege do mundo, e a degradação é verdadeira em ambos os polos, a não ser que alguém me prove que possa haver uma relação que não envolva no mínimo dois pontos.

Em segundo lugar, considero que as verdadeiras intenções, os desejos secretos, a vontade última e recôndita de toda pessoa não podem ser transpostas ao mundo sem mediações adequadas. E uma dessas mediações é o que nós chamamos de boas maneiras. O que um vendedor faz ao tocar seu ombro e chamá-lo à amizade, embora possa ser considerado por muitos como simpatia, é corromper essa mediação e manipular-lhe a vontade.

Pois certamente ele não deseja sua amizade, nem mesmo tenta criar um espaço agradável de convivência, mas tem como fim último a venda de um tênis, de um aparelho televisor, de um serviço de telefonia. As boas maneiras, porém, não são, creio eu, artifícios que sirvam à vontade de um único alguém. Algo tão antigo não pode ser identificado como uma armadilha. Ao contrário, as boas maneiras são, ao que parece, mediações adequadas para que todos possam mover-se sem se expor.

E não há dúvida de que ele poderia ter agido de modo diverso. Há maneira certa para tudo nessa vida, e, nessa situação, não era tratar-me como se fosse seu amigo, pois eu nem o conhecia e tampouco buscava amizade. Antes houvesse se limitado a ser gentil, indicando-me o produto e respondendo em exatos termos, e não tentando comover-me à compra, mas dignamente esperando que a situação por si só revelasse sua necessidade.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Sobre as boas maneiras II

Desta vez falarei sobre as boas maneiras. Não à mesa, coisa que suas mães já devem ter ensinado, mas em sala de aula. Desde há quase duas décadas vivo em uma, e penso que muitas outras pessoas também, por isso acho que o que vou expor aqui tem algum interesse prático... pela primeira vez em meu blog. Nunca vi ninguém mencionar nada a respeito, mas tenho cá comigo que possui um sentido comum e intuitivo, principalmente para você, meu caro colega invisível, que, assim como eu, preza pela ordem e pelo silêncio.

Em primeiro lugar, falemos sobre a carteira-sanduíche, recheio de biscoito, o creme do seu pavê. Confessemos o quanto é desagradável estar situado entre dois amigos que não são seus amigos, mas apenas entre si. Nessas ocasiões, penso que teria imenso gosto em estapear as bochechas de quem a todo instante fica voltando a cabeça para trás para bisbilhotar, chamar a atenção, conversar, mencionar algo que-não-sei, e tudo isso se passando como se quem está imediatamente atrás simplesmente não existisse. Pois desde pequeno sala de aula foi-me ensinado assim: o professor entrou, silêncio e postura até que termine.

Mas esse argumento também valeria para os colegas do lado, da frente, do fundo, enfim, para todos. O principal motivo não é a sua inquietude ou a falta de sentido de ordem, coisa que eu tenho muito prazer em ignorar, mas o fato de que, ao voltar seu rosto em minha direção, eu percebo que tal rosto possui dois olhos; dois olhos como dois faróis, enormes e possuídos. E eles carregam uma violência que me incomoda: a violência de dois faróis me atravessando, dois fachos invasivos a que eu devo simultaneamente atentar-me e permanecer indiferente. Como se isso fosse possível.

Muito bem, é verdade que não se pode proibir que em todas as situações alguém olhe para trás, porém isso deve ser feito de um modo discreto, sereno e rápido. E que não se repita o gesto senão por extrema necessidade, o que significa que muito provavelmente só deverá ser feito uma única vez. Pois que ninguém pode olhar para trás, encontrar-se com os olhos de outro e sair levianamente. Essa conjunção involuntária é amarga demais, é trazer à consciência, de novo e de novo, o fato de se estar rodeado por estranhos; é trazer à tona uma intimidade entre duas pessoas sem que para tanto se estivesse pronto ou fosse querido.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Sobre as boas maneiras

Não falarei das boas maneiras, porque às vezes tudo o que a gente pode é permitir que as pessoas continuem fazendo o que elas estão fazendo, seja lá o que estejam fazendo. Eu nem sei mais se seria desejável que as pessoas começassem a seguir as regras que me norteiam, ou melhor, um código de regras que eu muito provavelmente desenvolvi ou recriei desde fontes não muito claras. Hoje, sou muito mais tolerante e flexível do que era (com os outros, comigo sigo como sempre, pois jamais cederei). Mas nem sempre consigo ocultar meu desprezo. Dou-me conta disso quando, caminhando, vejo alguém cuspindo para o lado, sem a menor deixa de que aquilo poderia parecer repulsivo aos outros. Minha reação está além de mim: fecho a cara e imobilizo meu pescoço, olhando fixo para frente, sem a menor misericórdia para com a pessoa que, percebendo minha desaprovação, passa por mim de cabeça baixa. Mas já fiz pior. Há alguns anos atrás, quando voltando da faculdade, o colega que me acompanhava interrompeu minha já sôfrega tentativa de manter um diálogo arranhando asquerosamente a garganta e cuspindo no chão. Parei de falar e fiquei esperando que se desculpasse, coisa que, para minha consternação, não aconteceu. (A faculdade me ensinou muitas coisas, e uma delas é que os estudantes parecem sofrer uma regressão de maneiras quando longe de suas casas paternas).

E como se eu já não houvesse visto de tudo, sou pego de surpresa por meu professor. Não sei em que parte eu estava, mas acho que era uma daquelas coisas que as pessoas não se importam de ouvir e estão muito mais interessadas em encontrar uma oportunidade para enfiar uma ideia que latejava em suas cabeças. Eu estava em sua sala, discutindo sobre o projeto de monografia, e já era suficientemente triste reparar nas condições do escritório. Na verdade, ele já possuía um jeito exaltado, mas foi com uma entonação melhor com que ele se debruçou sobre a mesa, levantou os olhos e perguntou: "Você já pensou em fazer uma pesquisa de opinião a respeito?". Disse que não, mas já adivinhando e fazendo um muxoxo em pensamento. "E você não acha que seria interessante para o seu trabalho? Porque é uma coisa muito simples. Sabe o que você faz? Você vai lá naquele terminal de ônibus no horário de pico, quando aquilo está cheio de gente, e vai de pessoa em pessoa, ver o que eles acham. Só chegar e perguntar se concordam ou não. O que você acha?". Respondo que não sei. "Porque na verdade, na questão do seu trabalho, você poderia incrementar..." "Acho que a opinião deles não é muito importante", eu respondo, em um arrombo de sinceridade. Não foi minha intenção cortá-lo assim abruptamente, mas é que a ideia de ir no terminal de ônibus em horário de pico, segurando uma pranchetinha e indo de pessoa em pessoa perguntando àquelas caras cansadas feito um pateta me passou feito um lenço umedecido com álcool. Talvez ele também tenha se dado conta da insensatez, e voltou a se acomodar na poltrona.

Por quê? Porque há regras, muitas regras que, embora eu não me encontre disposto para impô-las, não quero desobedecê-las sem antes estar convencido de coração que não merecem ser seguidas. Eu particularmente   não acho que seja adequado infiltrar-se em um ambiente tão hostil e tão apolítico como um terminal de ônibus, em meio à multidão e ao forte calor, para interromper mentes já extasiadas do trabalho com perguntas bobas de sim/não. É isso ser cruel? Sinceramente, já longe de minha postura inicial, eu tenho quase certeza de que eu estou certo, de que o bom-senso, ao menos dessa vez, estava comigo, e que ele só não viu isso porque estava muito abitolado com falsos moralismos e demagogias; preocupado demais em atender às classes negligenciadas e totalmente esquecido da velha etiqueta, como não rir alto ou falar enquanto mastiga. Onde foi que ele desaprendeu regras simples de convivência? Ou talvez nunca realmente parou para pensar. Mas não é muito difícil. Imaginar-se no lugar do outro, por exemplo. E aqui, para finalizar, faço uma confissão. Não foi somente pensando no bem daqueles trabalhadores na rodoviária que rejeitei com tanta firmeza a proposta do professor. Não me dou muito bem em servir cafezinho, e se me obrigarem a fazê-lo, eu verto a cafeteira nas suas visitas. Não que eu não ache realmente importante a opinião das pessoas do dia-a-dia, mas eu jamais me submeteria à condição humilhante de sair por aí consultando-as sem sequer estar investido da impessoalidade de uma autoridade pública. Antes me tranco no gabinete e fico a arrumar cartas. Se eu quiser uma opinião, telefono para as pessoas de costume, coisa que sempre me bastou.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Preciso

Essa mulher no banco de trás está cutucando-me no ombro, soprando baixinho por minha atenção. O que foi? Sentei em cima do seu gato? "Não é isso" - ela me responde - "é que o seu chapéu está quase tocando nas minhas sobrancelhas e...". Como é que é? Que insolência! Nem respondo. Levanto-me, pois pela janela vejo que chegou a hora de descer do ônibus. Estão cada vez mais ousados: o garçom, o pintor, a atendente de padaria. Dessas afrontas o mundo sempre sai ileso, mas haverá um dia em que eu não descerei assim tão passivo, e pelas ruas correrei a incendiar suas casinhas de cachorro-quente.

Que pensam que sou? Que sou um deles? Acaso eu visto as mesmas roupas? Acaso eu sustenho os mesmos panos, os mesmos meneios? Sequer assisto ao mesmo programa de televisão! Eu nem tenho televisão; mandei penhorar juntamente com o rubi do anel que eu havia herdado, e que agora porta uma pedra de zircônio. Estou falido, é a bancarrota de todos os meus sonhos. Mas isso não importa. Não permitirei que me dirijam a palavra enquanto eu estiver encurralado no elevador, nem aceitarei que me enfiem panfletos nas mãos enquanto eu estiver andando distraído.

Que vão fazer? É isso uma nova moda, injuriar-me ao pressuporem que no mesmo cocho eu devo comer? Pois modas não existem, eu respondo. O que eu carrego é antigo e diverso de qualquer banalidade com que se reencarna um oleado de duas décadas atrás. Ah, não, isso de modo algum é moda. Só os frouxos pensam em termos de moda; algo passageiro, aleatório, avulso, um bilhete de cinema. Estão enchendo as minhas veias como a calha está enchendo o balde da água da chuva: sua origem está muito distante, e no entanto é absolutamente esperada e precisa.

E essas vitrines... Como seria bom estraçalhar esses vidros com uma rajada de raio laser. O que foi? Aumentaram os preços dos sapatos? Dos meus sapatos? Ora, pois verão! E vocês, o que pensam que estão fazendo? Acham mesmo que alguém deva interessar-se por uma camiseta que mais parece um outdoor, uma lona de caminhão? Ah, sim? Pois tomem isso! Mas o quê? Agora eu não posso sair de casa sem parecer que eu esteja entrando em um campo de batalha? Essa cidade está minada! E lá vêm os bombardeiros, lá estão os atiradores de elite! Aqui: toldem-se da noite de meu casaco - eu lhes digo, atirando sobre os aviões meu melhor abrigo.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Este não é um livro de sabedoria II

Estava o mestre com seus quatro discípulos ao redor da mesa para a última refeição. O mobiliário era modesto, e da pequena sala ocupavam apenas um ínfimo canto, espremidos todos numa única sombra. Tomando de uma cesta de pão, falou-lhes o mestre:
- Comei, que tudo é sagrado e substancial ao corpo.
- Até os cogumelos venenosos? - disse um dos discípulos, no que os demais abaixaram a cabeça e engasgaram com o vinho.
O mestre olhou-os como se não compreendesse o motivo do embaraçamento e, dando a cada qual um pão duro e pesado, respondeu-lhe:
- Até os cogumelos venenosos.
- Até a carne dos animais necrófagos? Até mesmo os frutos em estado de decomposição avançada? Até mesmo os vermes? - continuou o discípulo, no que os demais lançaram-lhe um olhar de reproche.
- Sim - disse o mestre fitando seu copo, indiferente.
E nada mais disse. Discípulos e mestre terminaram de mastigar sua modesta refeição em silêncio e apenas podiam-se ouvir os sorvos apressados e os ruídos aflitos de seus dentes rasgando as crostas de pão. Ao terminar, levantaram-se e, após despedirem-se do mestre, dirigiram-se ao quarto de dormir, caminhando austeros e ruflando os panos grossos de suas longas vestes.
- Boa noite - disse Auden, cobrindo-se com o ralo cobertor e tombando seu delgado corpo para a parede.
- Boa noite - disse Tauden, socando seu travesseiro e estendendo-se feito estátua sobre o duro colchão.
- Boa noite - disse Mauden, soprando a vela e fazendo ranger a cama com o seu peso.
- Boa noite, irmãos - disse Faulen que, surpreendido com a escuridão, por um momento quase se esqueceu da direção da parede, mas acabou encontrando-a e virou-lhe as costas como era de seu costume.
No dia seguinte, um dos discípulos havia amanhecido morto por asfixia. O mestre, perguntando então por Faulen, ao notar sua ausência à mesa para a primeira refeição, recebeu em resposta um encolher de ombros dos demais:
- Não quis acordar - disse Mauden, servindo-se de manteiga.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Este não é um livro de sabedoria

Certo dia, atraído pela fama de seu sábio, veio um estranho à aldeia de Wang-Bei, às margens do Wi-Po, a procura de um conselho. Havendo encontrado a sua casa, estava o sábio de cócoras a riscar o chão com um pauzinho enquanto assoviava baixinho em seu idioma de velho. O estranho aproximou-se e, após haver-lhe feito a reverência, perguntou:
- Mestre, sou rico, tenho uma boa esposa, bons filhos, mas não sou feliz. O que devo fazer?
O velho, ainda de cócoras, ergueu-lhe os olhos e disse:
- Deves encontrar o caminho do Norte; quando encontrá-lo, por ele seguir.
- Mas, mestre, que caminho é esse de que me falais?
O sábio, havendo se posto de pé, caminhou pacientemente para o meio da estradinha e, convidando o estranho para que se aproximasse, apontou-lhe o caminho do Norte, o qual seguia sinuosamente para além das últimas casas da aldeia até confundir-se aos montes Quong, limites da província.
- Vês o norte? - indagou-lhe o sábio.
- Sim, mestre, porém ainda não entendo.
- Entenderás, pois.
O velho, então, fincou bruscamente suas mãos no chão e, soltando um urro, fez desprender um enorme bloco de terra. O estranho recuou vários passos, absolutamente atônito, mas antes que pudesse compreender qualquer coisa, o velho golpeou-lhe repetidas vezes até que um fio de sangue começasse a escorrer desde o topo de seu crânio.
- Isto é o caminho do Norte - disse o sábio, abandonando o bloco a um canto e espanando as mãos.
O estranho, havendo limpado o fio de sangue com a manga, fez-lhe a reverência, voltou-lhe as costas e seguiu para as províncias do Sul, onde não era a sua casa, nem havia sábios de que soubesse.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O Espirro Final

Estou enfrentando um bloqueio há alguns dias. Cheguei a pensar que talvez até me tornasse indisposto a qualquer leitura, o que, para o meu alívio, não se revelou verdade. O bloqueio é quanto à forma: por mais que eu me esforce, por mais vívidas que sejam as imagens, eu não consigo transpô-las num formato pelo qual eu me dê satisfeito. É como se pássaros de asas bem formadas e fortes debatessem-se contra as grades de uma gaiola: não consigo mais balbuciar, cantarolar. Tentei fazer longas caminhadas na esperança de que arejassem a minha mente, remoendo enquanto andasse minhas idéias, mas eu voltava sempre com a mesma dificuldade. E a tal ponto cheguei que, penso, talvez seja hora de mudar meu foco. De qualquer modo, a produção era tão ínfima e tão demorada que é bem possível que eu estivesse torturando-me há anos a escrever algo que não é do meu feitio.

Mudar o meu foco: muito bem, mas qual? Alguém sabe afinal a que veio a este mundo? Então eu pensei: talvez a sociedade possa revelar-me minha situação, ajudar-me a compreender minhas possibilidades e os caminhos que eu devo tomar. Ah, sim? Isso talvez seria verdade se as nossas inclinações fossem por ela determinadas, mas acho que todos nós conhecemos casos suficientes mostrando que, se bem é verdade que ela pode condicionar, atormentar, obstruir ou mesmo facilitar, nós temos predisposições inatas que o meio é incapaz de mudá-las sem antes destruí-las. Porém, tais inclinações inatas manifestam-se de um modo muito vago: são habilidades sem cor, sem ritmo. Alguém nasce com facilidades para, o que não significa que realmente chegue a realizá-las, muito menos se sabe como ou sob que forma.

E digamos, então, que eu tenha predisposição para. Mas esse para é indefinido, eu posso realizá-lo de inúmeras formas; uma palheta vastíssima de cores está à minha disposição desde o meu nascimento. Como descobrir? Eu não sei, e isso me causa temor: e se eu perseguir determinada forma que jamais houvesse verdadeiramente se adequado à minha habilidade durante toda uma vida? É um desperdício de tempo, de energia e frustração. Eu não sei o que estou fazendo aqui, nem sei onde eu gostaria de estar (supondo que gostar é revelação daquilo a que se está destinado). Talvez seja um bloqueio temporário, mas pode bem ser uma descoberta da qual eu não possa retroceder. Por outro lado, sem isso, o que farei? Jogar ping pong, passar meus dias interessando-me por cavalos ou coleção de selos, entregar-me a frivolidades e esperar a redenção da morte?

A quem devo sacrifícios? Quero atingir teu altar, mas não posso sequer conceber uma trilha. Estou feito palha em óleo a espera daquele que virá inclinar-me a sua tocha. Meus silos estão cheios, os moinhos são novos, há carvão nas fornalhas. Mas as casas de meus servos estão inesperadamente vazias e mesmo a guarda de meu castelo parece haver abandonado seus postos. Talvez seja hora de levantar o pó da mobília, reorganizá-la, matar velhos duendes dorminhocos e inúteis escondidos nas gavetas e: pôr-me um novo casaco. Ah! e que terrível será esse casaco! A pedraria de seu bordado resplenderá como sóis roubados do mais temível templo, e seu tecido será feito com os mais inacessíveis e sombrios pântanos! Seu talhe conterá a alma e a de todos que o olharem, e às trevas do deleite e da servidão um a um sucumbirão! Contemplem, pois desde o bramido das ondas contra as escuras rochas a Lua do meu verbo assoar-se em meu lenço do alto do promontório!

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Esse cavaleiro

Eu até defendo os gordos, os feios, os pútridos, os desvalidos, aqueles que assim não deveriam ser mas são, ou que, nesse dever ser, só o fazem parcialmente. Mas há algo aqui nesse coração que os despreza, que os poria em uma cama de hospital e disporia cuidosamente numa bandeja os instrumentos cirúrgicos. Uma parte de mim que quer mudá-los, adequá-los, alterar o estado das coisas a custa de violência. E que parte de mim seria essa? Seria a sociedade? Pois eu acho que não, já que essa justamente me diz para preservá-los, manter as peças do tabuleiro em ação, contornar as viciosas realidades em um rodopio de valsa. E obviamente que não poderia ser o eu dos sonhos, o mais visceral de todos, o inatingível e incompreensível, pois bastaria pôr em prática qualquer um de seus elementos para vê-los retorcendo-se no charco da vulgaridade sem que nada acontecesse. Não posso, talvez, saber sua origem, já que submersa, mas é possível conhecer seu emissário. Para levar a cabo qualquer transposição ao mundo, é necessário um agente, e semelhante mensagem deveria ser carregada através de um agente transformador e subjugador, um eu tirano que, diferentemente da sociedade, a qual vela pelo diálogo e pela conciliação, se impusesse incauto e intransigente, revelando seus valores na forma de imperativos. E esse eu tirano possuiria uma vontade que, construída ou não pela razão, empreenderia uma ação de conquista e de desequilíbrio, de transformação e jugo. Mas seria esse agente, esse eu tirano algo inerente ao emissário? Não seria, na verdade, essa tirania diversa do modo pelo qual aquela emerge das pessoas, no sentido de que o emissário não é esse tirano, esse subjugador e ponto de desequilíbrio, mas tão somente a mensagem que traz?

Muito bem, eis aqui o cavaleiro e sua mensagem. Mas se é assim, de que estratos retira seu conteúdo? Aqui meus poderes começam a falhar, e chutarei que isso depende muito e que, podendo ser tanto do íntimo quanto do social, tenho-o por um cavaleiro de armadura sem o homem, o emissário desvinculado de sua mensagem, a qual, por sua vez, possui inúmeras origens. A inclinação que cada um tem por mudar o seu mundo, dispor uma nova ordem de coisas em seu entorno, não é necessariamente boa nem má, muito menos é possível dizer que sua ação é voltada sempre à destruição. Esse cavaleiro pode muito bem empreender um processo inverso, de modo que, ante um outro cavaleiro, seja levado a opor-se, informando-se na restauração e no resgate da velha ordem. Se é assim, então esse cavaleiro não tem conteúdo nem direção, mas surge como simples ator. Poderia arguir-se ainda que, nesse movimento, é impossível que a ordem das coisas permaneça inalterada e que, portanto, seja qual for a sua direção, a mudança é inerente à ação. De qualquer maneira, não está na ação a origem dessa tirania. O cavaleiro de que falo é, pois, puramente o responsável pela ação, seja ela boa ou má, seja lá de onde venha e para onde pretenda ir. Ele não explica essa pretensão totalizadora, pois tão somente é seu veículo.

Meu desejo de ação é maligno não porque toda mudança é má, mas porque o estrato em que se informa ou é inadequado aos fins que se pretende, ou mesmo porque tal estrato em sua essência é mau. E vindo essa voz de meu profundo coração, um esmaecido eco desde os confins da alma, eu diria então que, por consequência, minha alma é, ao menos em parte, má, ou, na melhor das hipóteses, não é ela má, mas a sua transposição para o mundo que sim.  Soa-lhe familiar? Ah, sim, é bem possível que todos nós carreguemos o mal conosco, talvez uns mais que outros, porém sempre em potencial. E o que faria para que alguém decidisse atuar de maneira má ou boa? Novamente foge aos meus poderes de compreensão. E como saber se há uma propensão se jamais ela foi provada? Sinto que apenas sei do que sou capaz quando sou efetivamente posto a prova, porém, enquanto apenas em teoria, permaneço preso a uma intransponível dúvida. Mas quem seria o responsável pela mensagem maligna que carrega o cavaleiro se não é o cavaleiro mesmo seu criador? Não é a sociedade, nem é meu íntimo. O íntimo é originário demais, desprovido de forma e de escasso conteúdo, por mais precioso que seja. Não, não é ele, e o cavaleiro se lhe arrancasse qualquer mensagem essa mesma se espalharia como pó ao vento ao ser carregada por plagas tão inóspitas à sua natureza. Ah... sua origem é obscura, mas nós a transportamos ou senão tal cavaleiro não teria de onde tirar. O que é esse desejo de mudar, de impor, de escravizar o mundo à vontade uníssona? De onde vem? Seria sempre algo ruim? Tormentos.

E agora quero muito olhar para dentro do meu cavaleiro, descobrir-lhe a face por trás do frio elmo, sentir sua pele, entender seus olhos. E eu poderia montar no mesmo cavalo que meu cavaleiro, cingir-lhe o colo com meus braços e para a mesma direção correr? Poderia eu, olhando ao mesmo norte a que sua lança aponta, conhecer-lhe o feitio? Que raridade de espelho não seria necessário para tão absurda proeza! E ao olhar o meu reflexo, sentiria o horror do sortilégio, um alvor desesperado que arruinasse todos os castelos e as montanhas em que se encimam, um rosto deslumbrante e terrível que me fundisse num beijo destruidor. Não posso, talvez, contemplar-lhe em sua inteireza, mas posso ainda ver-lhe o intermitente e trêmulo vislumbre, o qual, fugidio pelos reflexos da prataria, deleita-me e põe-me ardente em sua perseguição. Por ora o vulto de seu monstruoso cavalo, às vezes a chama de seu mais belo brasão. Nobre ou vil cavaleiro, visitará as terras primevas de meus sonhos, onde mesmo assim só é possível sentir-lhe o hálito e o inclinar de sua sombra, onde seu nome murmurado ecoa pastoso contra as claraboias, e onde seus passos metálicos sentem-se correr viscosos sob o chão de pedra. Eu perguntaria: "De onde vens? Para onde vais? Quem te enviou e que espécie de nova trazes?". E a pergunta soaria talvez inútil, e já muito longe tornaria sua face na direção de minha janela, esboçando-me um sorriso leviano, algo solerte, significativo, como se dissesse: "Já o sabes" ou "Como pudeste esquecer!".