Eu, aqui, lentamente estirado sobre a mesa de jantar, entre o pudim de leite e o que restou do ensopado de camarão, seguro resignado a vela acesa sobre o meu peito, suando de tédio e tristeza. Os outros riem, parecem mesmo felizes, nunca pensei que uma festa pudesse ser assim... alegre. Mas eu não. Desde que me fizeram sou pesado, carregado demais, duzentos gramas de gordura em cada dobra de meus lábios. O que me conforta é essa bandeja, embora a posição não é das mais agradáveis. Pobre ensopado de camarão... Foi o primeiro a ser dilacerado, vilipendiado, chafurdado no tumulto dos convivas. Pouco restou. Havia algo nele de distinto que me encantava, mas agora jaz irreconhecível em algum lugar, sem que tivesse a chance de nos ser apresentado como se deve. Olho para eles e não vejo nada que justifique isso. Se ao menos fossem mais altos e magros, se ao menos suas maneiras fossem mais altivas e delicadas, talvez fosse compreensível essa sem-cerimônia com que tratam tudo ao seu redor. Não os detesto, por óbvio... Nutrir semelhante sentimento está muito aquém de meu papel. Eu não diria isso de ninguém aqui. Exceto pelas crianças. São inconvenientes, babam, beliscam, não têm pena de mim. Seus olhos têm um quê de leviano, uma ousadia de gente gorda, mais imprudente do que sagaz. São desastradas como galinhas e impertinentes como cabelo no macarrão. Gostaria que parassem de me fitar, pois já está ficando excruciante suportar esses olhos famintos, úmidos de ingenuidade e pouca sensatez. Gostaria que um piano de cauda caísse em cima de seus dedinhos. Uma mulher muito encorpada e coberta de colares tenta mantê-las afastadas e comportadas. Mas que preceptora mais indolente... E que pescoço musculoso. Deveria ter vergonha de vestir um decote tão aberto; poupasse-me de mais uma cena grotesca. E as crianças simplesmente não se contêm. Onde estão seus pais, afinal? Ah, claro... Conversando, naturalmente, atrás da samambaia, escondidos atrás do pilar, refugiados na sala de televisão e fingindo não ouvir o choro que vem pela janela. Gostaria que pianos de cauda caíssem sobre suas cabeças também. Sério, elas estão dando-me aflição. Olhem, vejam! Um delicioso pudim de leite! Não, elas não estão muito interessadas em pudim. Também... Esse jeito pálido e doentio não deve mesmo fascinar mentes selvagens. Selvagens gostam de brilho, explosões, coisas assim que se mostrem por si mesmas sem grandes esforços. Mas sinto que... Sinto... Nem todo o glacê do mundo poderia confortar-me. Tudo é tão breve e confuso. Mal entrei e vi-me cercado de conversas ininteligíveis e descabidas. Eu poderia escrever em meu diário: "Querido diário, hoje assisti inerte o massacre do ensopado de camarão, e descobri que odiar é querer que um piano de cauda caia sobre os dedos de alguém". Mas não tenho tempo. Agora estão todos reunidos ao redor da mesa, apagaram as luzes e entoam vivas ao dono da festa. Olho para o pudim de leite, mas ele mesmo parece estar triste demais para conversar. Um profundo pesar desceu sobre a mesa de jantar, em meio a uma salva de palmas e assobios. Queria ao menos que o fim não fosse esse fim, seco e incoerente, como se mostrassem a nós que os arquivos da memória não passam de documentos de papel, tão frágeis quanto seus autores. Se o mundo fosse maior do que essa toalha lambuzada de molho... Onde poderei encontrá-lo, pudim de leite? Tão distante e incomunicável, assim nos puseram. Creio que devo dizer que em toda a minha vida nunca vi gênero mais belo, como tudo aquilo que porta a debilidade do ser. Adeus, pudim de leite, adeus. Esses lábios, sensuais como a morte, posso já sentir a longa inspiração que se anuncia. Ele fecha os olhos, aproxima-se, eu também fecho os meus e contraio as minhas camadas. Se o seu desejo não é o mesmo que o meu, ao menos que nossos sonhos sejam feitos da mesma matéria. Adeus, pudim de leite. Eu... um bolo... de aniversário. Morrer, enfim.[A vela se apaga]
sábado, 20 de novembro de 2010
sábado, 13 de novembro de 2010
Nós, felizes na soleira,
De braços caídos como os de um chimpanzé. Sei que parece loucura - oh, eu sei! -, mas olhe ao seu redor. Vamos... oooolhe. Não resta muita coisa, vê? Bom, é claro que certamente tem aquela sorveteria ali do outro lado, e - veja só - bibliotecas, museus e um clube de ioga a menos de trinta metros de sua casa. Entretanto, entretanto... Não há nada ali exceto a poeira das eras, e o fluxo causal da história carcome suas já porosas bases. É o que dizem, e eles sabem dizer muitas coisas. Era essa a liberdade que queriam lhe propor, livre como um vento é no campo? Bom, eu até poderia desenhar uma cena muito bonita de você flutuando como um espírito em meio às ruínas, as ruínas de algo que você jamais chegou a tocar e que nem mais venera, e talvez sequer enxergue. Mas eu tenho algo melhor (mesmo porque eu não sei desenhar). Eu, na verdade, iria elaborar tudo em forma de receita - para ir fazendo agora mesmo, nesse instante, mandar você pegar os ingredientes que certamente tem no armário, acompanhar as minhas instruções -, mas penso que o fogão anda um tanto ocupado. Agora mesmo Dona Borboletinha está mexendo o tacho de chocolate, e não vamos atrapalhar-lhe o afazer. Dona Baratinha chega às sete para o desjejum, e a mesa já está posta com a jarrinha de orvalho e o pote de compotas de pólen. Deixemo-la em paz. [Introibo].
Você acorda todas as manhãs de sábado ansiosamente para encontrar o seus amigos, e quando chega no playground, o que encontra? A quadra está alagada. Os balanços estão enroscados de uma maneira inextricável. O salão de festa está alugado para uma conferência presbiteriana. E, para coroar, Sauron novamente ficou preso nos galhos do pé de pitanga - e nós temos medo dele. Então você volta, desanimado, e chama o elevador. No entanto, o elevador demora séculos, pois aparentemente alguém apertou todos os botões, e agora ele descerá lentamente de andar a andar. Você, então, tenta ir de escadas, mas acaba tropeçando em seus cadarços, que estavam misteriosamente amarrados um no outro, e despenca pelos degraus. Você se pergunta: o que é isso, Murilo?
É o seu porteiro. Como todos sabemos, os porteiros pertencem a uma antiga linhagem de nobres que foram destituídos de suas propriedades e de seus títulos nobiliárquicos quando do advento das repúblicas. Tal os deixou em uma situação bastante constrangedora, sendo forçados a abandonarem os salões e a dormirem em caixinhas de fósforos. Só lhes restaram, como um resquício de nostalgia e piedade, as suas xícaras de porcelana e algumas jóias, que levaram consigo em baús de madeira em sua viagem para a América. Todas as manhãs eles revivem sua antiga glória, vestindo suas perucas e seus gibões de musselina, seda ou veludo, dependendo do fetiche. Fazem pôr em suas mesas suas melhores xícaras, desenhadas a ouro ou pintadas a mão em algum país do Oriente. Depõem as jarras de mel, chá e leite, e bebericam fazendo consoantes francesas, vogais italianas e fungadas inglesas.
Porém, as xícaras não são conhecidas por sua durabilidade. Vão-se quebrando ao longo de seu uso. E, infelizmente, esse também é o destino das xícaras dos porteiros. Por mais arabescos que tenham, por mais encantos e prazeres que despertem, tal não impediu que fossem se perdendo, até que todo o armário ficasse vazio. E suas mesas já não podiam ser decoradas, nem a cerimônia podia prosseguir, e o sonho morria, assim, em estilhaços de porcelana. Esse é o motivo do mau-humor de seu porteiro, o que provoca a sua ira e sua irritação, a despeito de jamais ter afetado suas boas maneiras. Eles não porão uma nota de ressentimento embaixo de seu travesseiro, nem farão confidências. Seu jeito de punir o mundo por sua desgraça é sutil e revela-se secretamente, por detrás do retrato de parede e de dentro do relógio.
O que fazer? Comprar um novo jogo de xícaras? Não me faça isso, não seja tão tolo! Aceitariam com toda a amabilidade do mundo, pois são nobres, mas acabariam jogando no lixo ou mostrando mais tarde aos seus companheiros e fazendo piada com as coisas que os plebeus encontram nas lojas. Nem que você tivesse dinheiro o suficiente para encontrar um jogo inteiro feito no séc. XIX. Não é aconselhável. Se sentiriam humilhados por serem presenteados com artigos que, teoricamente, são de primeira necessidade e devem ser adquiridos com seu próprio provento.
O único jeito é dançar. Sim, dançar. Não uma dança qualquer, mas uma dança medieval, aquela que é basicamente um movimento de cortejo. Mostre-se genuinamente interessado em ter a honra de dançar com seu porteiro, e - pelo amor de Deus - finja o máximo possível que vocês estão a pelo menos três séculos atrás. É essencial que você fantasie uma cena da nobreza, digna de um salão, a fim de que ele possa sentir-se deliciado em relembrar seus tempos de glória. Arranjar o figurino é essencial.
Feito isso, é bem provável que ele se sentirá tão enlevado que pegará de seu esfregão e, após ungi-lo com a água do balde, tocará levemente em seus ombros e o nomeará Cavaleiro do Edifício Tibagi. É também provável que amanheça debaixo de sua cama um baú de jóias e um pôster de um castelo da Romênia ou da Síria - tudo dependerá do contexto.
PS: Eu ainda não sei como faz para tirar o Sauron do pé de pitanga. Aparentemente, isso não é obra dos porteiros, mas uma espécie de fenômeno natural que ocorre geralmente após a chuva.
Você acorda todas as manhãs de sábado ansiosamente para encontrar o seus amigos, e quando chega no playground, o que encontra? A quadra está alagada. Os balanços estão enroscados de uma maneira inextricável. O salão de festa está alugado para uma conferência presbiteriana. E, para coroar, Sauron novamente ficou preso nos galhos do pé de pitanga - e nós temos medo dele. Então você volta, desanimado, e chama o elevador. No entanto, o elevador demora séculos, pois aparentemente alguém apertou todos os botões, e agora ele descerá lentamente de andar a andar. Você, então, tenta ir de escadas, mas acaba tropeçando em seus cadarços, que estavam misteriosamente amarrados um no outro, e despenca pelos degraus. Você se pergunta: o que é isso, Murilo?
É o seu porteiro. Como todos sabemos, os porteiros pertencem a uma antiga linhagem de nobres que foram destituídos de suas propriedades e de seus títulos nobiliárquicos quando do advento das repúblicas. Tal os deixou em uma situação bastante constrangedora, sendo forçados a abandonarem os salões e a dormirem em caixinhas de fósforos. Só lhes restaram, como um resquício de nostalgia e piedade, as suas xícaras de porcelana e algumas jóias, que levaram consigo em baús de madeira em sua viagem para a América. Todas as manhãs eles revivem sua antiga glória, vestindo suas perucas e seus gibões de musselina, seda ou veludo, dependendo do fetiche. Fazem pôr em suas mesas suas melhores xícaras, desenhadas a ouro ou pintadas a mão em algum país do Oriente. Depõem as jarras de mel, chá e leite, e bebericam fazendo consoantes francesas, vogais italianas e fungadas inglesas.
Porém, as xícaras não são conhecidas por sua durabilidade. Vão-se quebrando ao longo de seu uso. E, infelizmente, esse também é o destino das xícaras dos porteiros. Por mais arabescos que tenham, por mais encantos e prazeres que despertem, tal não impediu que fossem se perdendo, até que todo o armário ficasse vazio. E suas mesas já não podiam ser decoradas, nem a cerimônia podia prosseguir, e o sonho morria, assim, em estilhaços de porcelana. Esse é o motivo do mau-humor de seu porteiro, o que provoca a sua ira e sua irritação, a despeito de jamais ter afetado suas boas maneiras. Eles não porão uma nota de ressentimento embaixo de seu travesseiro, nem farão confidências. Seu jeito de punir o mundo por sua desgraça é sutil e revela-se secretamente, por detrás do retrato de parede e de dentro do relógio.
O que fazer? Comprar um novo jogo de xícaras? Não me faça isso, não seja tão tolo! Aceitariam com toda a amabilidade do mundo, pois são nobres, mas acabariam jogando no lixo ou mostrando mais tarde aos seus companheiros e fazendo piada com as coisas que os plebeus encontram nas lojas. Nem que você tivesse dinheiro o suficiente para encontrar um jogo inteiro feito no séc. XIX. Não é aconselhável. Se sentiriam humilhados por serem presenteados com artigos que, teoricamente, são de primeira necessidade e devem ser adquiridos com seu próprio provento.
O único jeito é dançar. Sim, dançar. Não uma dança qualquer, mas uma dança medieval, aquela que é basicamente um movimento de cortejo. Mostre-se genuinamente interessado em ter a honra de dançar com seu porteiro, e - pelo amor de Deus - finja o máximo possível que vocês estão a pelo menos três séculos atrás. É essencial que você fantasie uma cena da nobreza, digna de um salão, a fim de que ele possa sentir-se deliciado em relembrar seus tempos de glória. Arranjar o figurino é essencial.
Feito isso, é bem provável que ele se sentirá tão enlevado que pegará de seu esfregão e, após ungi-lo com a água do balde, tocará levemente em seus ombros e o nomeará Cavaleiro do Edifício Tibagi. É também provável que amanheça debaixo de sua cama um baú de jóias e um pôster de um castelo da Romênia ou da Síria - tudo dependerá do contexto.
PS: Eu ainda não sei como faz para tirar o Sauron do pé de pitanga. Aparentemente, isso não é obra dos porteiros, mas uma espécie de fenômeno natural que ocorre geralmente após a chuva.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Nesse fim de mais uma era
O que dizer? O poder simplesmente me fascina. Foi com grande pesar que depositei o meu crachá sobre a mesa, e só o fiz porque me pediram, pois, se tivessem esquecido o protocolo, teria levado comigo para casa, assim como fiz com a caixa de correios e o poste de luz. E, agora que meu peito está nu, sinto-me oco de verdades, as quais tão bem soubera erigir sobre as costas alheias, como quem pendurasse, a cantarolar contente consigo, os enfeites de Natal nos galhos de um pinheiro. Mas sem as medalhinhas assim é melhor, pois até já consigo ver a cor de minha blusa. E eu mesmo não era um pinheiro de Natal? Ah desconsolo... Antes jamais houvesse saído do campo, onde eu arava a terra sem reclamar, tendo como única preocupação a hora do almoço em que, ávido, tomaria de meu pão e de meu café, largados a um canto à sombra de uma árvore e enrolados numa trouxinha de bolinhas vermelhas presa a um cabo de vassoura. Mas agora é tarde, e ter visto e sentido uma única vez bastaram para que eu nunca mais passasse um dia sem voltar os meus olhos para aquela direção.
Quantas e quantas marcas não deixará isso para o resto de minha vida - fico a pensar. Ainda bem velhinho, em uma tarde quente de dezembro, posso imaginar-me ministrando uma pequena palestra em uma sala de um colégio municipal - as crianças apoiadas em suas carteiras, algumas babando, outras deixando cair sonolentas suas cabeças para trás, a professora encostada a um canto mordiscando uma maçã - E, então, diria que "en dos mily des, dos mily des, en uma amena prrimaverra, eu fui convocado parra trrabalhar como 2ª Mesárrio na seçión 44. Non nos derron água nem sanduhiche, apenas uma dinherro inutil que não podia serr gasto em lugarr algun". E narrar-lhes-ia todos os procedimentos realizados naquela eleição, desde o momento em que ligamos as urnas eletrônicas até a contagem regressiva para as cinco horas, quando, muito emocionados, brindamos o fim em copinhos de plástico, transbordantes do café que a 1ª Mesária havia trazido de casa. Sim, o fim de uma era. Certamente, aos meus olhos nebulosos e contemporâneos, não sou ainda capaz de compreender a extensão de minha perda, e só realmente o saberei quando, sentado em minha cadeira de balanço a ler o Código Eleitoral, estalar-me de súbito e quase desprevenido o entendimento de que o que eu tinha em mãos não eram prerrogativas ou "idéias legais", nem mesmo privilégios ou títulos aleatórios de nobreza. "Eu portava Autoridade", direi eu, enfim, quase num balbucio, deixando cair de minhas mãos trêmulas o pequeno volume.
Quantas e quantas marcas não deixará isso para o resto de minha vida - fico a pensar. Ainda bem velhinho, em uma tarde quente de dezembro, posso imaginar-me ministrando uma pequena palestra em uma sala de um colégio municipal - as crianças apoiadas em suas carteiras, algumas babando, outras deixando cair sonolentas suas cabeças para trás, a professora encostada a um canto mordiscando uma maçã - E, então, diria que "en dos mily des, dos mily des, en uma amena prrimaverra, eu fui convocado parra trrabalhar como 2ª Mesárrio na seçión 44. Non nos derron água nem sanduhiche, apenas uma dinherro inutil que não podia serr gasto em lugarr algun". E narrar-lhes-ia todos os procedimentos realizados naquela eleição, desde o momento em que ligamos as urnas eletrônicas até a contagem regressiva para as cinco horas, quando, muito emocionados, brindamos o fim em copinhos de plástico, transbordantes do café que a 1ª Mesária havia trazido de casa. Sim, o fim de uma era. Certamente, aos meus olhos nebulosos e contemporâneos, não sou ainda capaz de compreender a extensão de minha perda, e só realmente o saberei quando, sentado em minha cadeira de balanço a ler o Código Eleitoral, estalar-me de súbito e quase desprevenido o entendimento de que o que eu tinha em mãos não eram prerrogativas ou "idéias legais", nem mesmo privilégios ou títulos aleatórios de nobreza. "Eu portava Autoridade", direi eu, enfim, quase num balbucio, deixando cair de minhas mãos trêmulas o pequeno volume.
Eu era feliz e não sabia. As minhas ordens eram prontamente obedecidas, sem hesitação ou questionamento, e esse é o verdadeiro sentido da Autoridade. "Assine aqui", eu dizia, e a pessoa assinava. "Mostre-me seu título de eleitor", e a pessoa seria capaz de fornecer-me até a senha de seu orkut. "Abram passagem para o Segundo Mesário", eu anunciava, dando pancadinhas com minha bengala em suas pernas e forçando-as a abrir um corredor em meio à multidão. "Não lata para um funcionário público, animal tolo", e o cachorro abaixava suas orelhas e retornava a sua casinha sem voltar-me as costas. Ah... a Autoridade: tão doce e ao mesmo tempo tão penosa... Bem é verdade que há sorvetes de nuvens, manjares de cereja e sanduíches de chantilly. Entretanto, meus caros, há responsabilidades de cujas forjas as mãos jamais sairão ilesas, e o peso desse encargo acompanhar-me-á pelo resto de minha vida, até que todos os meus ossos tenham virado pó e até que o meu nome tenha sido apagado de todos os livros e de todos os anais. Em meu túmulo, escreverão o epitáfio: "Aqui jaz o Segundo Mesário, cuja responsabilidade ainda paira sobre as Eleições de 2010". Então, viúvos da Terra e do Céu, dirão consternados ao vento, as lágrimas confundindo-se à chuva, enquanto meu caixão desceria lentamente ao profundo jazigo: "A Autoridade é maior do que os homens que a portam, e senão os esmaga, é porque ela nunca esteve acima de nada ou ninguém, mas era apenas um vínculo forte o sufciente para fazer mover sem sequer tocar". Mas então já seria tarde, e mais um filho assim fenecia, seco e corroído pela ânsia de poder, quando, julgando possui-la, entregara-se à paixão de uma ilusão, perseguindo no horizonte aquilo que a verdadeira Autoridade jamais quisera proporcionar: vaidade e fortuna.
Diderot e D'Alembert: Ficamos imensamente estarrecidos com o seu proeminente esclarecimento a respeito do conceito de Autoridade, e gostaríamos de agraciá-lo com a nossa mais importante solenidade inaugural. Incomodá-lo-íamos se acaso lhe pedíssemos que acendesse esse candelabro?
Sr. 2º Mesário: Oh, mas seria uma honra! Quão lisonjeado não me sinto por sua respeitosíssima consideração. Finalmente me vejo reconhecido pelos meus! [acende o candelabro quase aos prantos].
Voltaire: Bravíssimo! Veja com que maestria não o faz!
Montesquieu: Belíssimo! Os salões de toda a Paris estão encantados!
Benjamin Constant: Ah, vejam como resplandece em suas mãos!
Aristóteles: Desculpem-me. Salão errado.
Rousseau, com inveja e batendo o leque: Uh...
Sr. 2º Mesário: Obrigado, obrigado...
[Música de fundo. Sr. 2º mesário despede-se de todos após uma longa e exagerada reverência, e encaminha-se até as imensas portas do salão, a passos largos e lentos, puxando a todo instante pela corrente um macaquinho uniformizado: "Mais modos, Alfred".]
Em uma desesperada homenagem a tudo aquilo que eu perdi e simplesmente não compreendo. Deixo, aqui, se ao menos posso fazer desse fim, que é um fim de algo outro, não deste, um terno registro das coisas mais belas que já me ocorreram. E se beleza não é remição... Paciência.
*Fim*
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Estudos pragmáticos domésticos, cap. XII
Bem é verdade que a vida civilizada pode proporcionar-nos condições materiais necessárias ao pensar metafísico ou mesmo puramente estético. Entretanto, alguns incômodos são inevitáveis, a não ser que se aprecie viver como um hippie imundo e sem direção, o que, obviamente, não é o nosso caso. Assim o são as regras sociais que, embora possam trazer certo desgaste físico e mental, sua observância é capaz de criar um mundo agradável e prático ao nosso redor, de modo a preservar-nos a intimidade e poupar-nos de ter que criar constantemente maneiras de relacionamento, bastando seguir alguns protocolos comportamentais. Por outro lado, dominar as artimanhas da prática social pode promovê-lo aos mais altos estamentos da sociedade, sem que, para isso, seja necessário possuir algum talento especial, sendo suficiente o pleno domínio dos padrões de comportamento, os quais o ajudarão a abrir brechas no denso emaranhado de interesses conflitantes.
Do mesmo modo, devemos submeter-nos a certos usos e modas correntes na sociedade se realmente queremos participar nela como uma pessoa civilizada, e boa parte das regras começam pelas vestimentas, pois lidam diretamente com a arte de esconder e aparentar. Porém, como nem sempre as vestimentas foram desenvolvidas para serem práticas, faz-se necessário aprender alguns truques que pouparão sacrifícios. A questão a ser abordada neste capítulo é: espartilhos. Quantos e quantos de nós não sacrificamos horas e horas de nossa manhã apenas para ter sua caixa torácica prensada em espartilhos, cujos elásticos estão tão tensos que nem as leis de Newton logram explicar sua efêmera estabilidade?... Apesar do grande dispêndio de energia, são capazes de manter a massa extravagante em ordem, surrupiando, ao menos temporariamente, alguns quilos dos olhos alheios, de modo que são indispensáveis para uma boa apresentação em sociedade. Acontece, todavia, que o esforço em vesti-los é de tal magnitude e exaustão que se chega a duvidar se realmente seu uso vale a pena, desejando-se intensamente que a moda passe ou que ao menos alguém encontre uma solução que alivie o encargo. Pois a dificuldade em vesti-los chegou a tal monta que o seu uso começa a atrapalhar outros hábitos igualmente importantes, resultando em uma perda que põe sua observância em franca desvantagem. Mas há os que digam: "E daí? Que me importa se eu gasto duas horas com espartilhos... O importante é que eu estou bonita e blá blá blá". Insolente, você devia ser afogado na fonte pública. Essas duas horas deveriam estar sendo gastas lendo Thackeray, e não espremendo-se ofegante na frente do espelho. Nada mais deplorável do que uma esposa iletrada, cuja cabeça é tão oca que o marido tem que atravessar um salão enorme ladeado com os bustos de todos os imperadores de Roma para chegar até a sua mulher. É exatamente o que acontece com os espartilhos, cujo prejuízo de tempo compromete outras atividades mais frutíferas e úteis no meio social como a leitura, haja vista o tempo que se leva para vesti-los, tempo este que poderia ser bem melhor aproveitado.
E o que fazer para continuar usando-os sem que isso comprometa tempo e força física? Muitas mulheres tentaram suprimir essa penosa rotina dormindo com os espartilhos, de modo que, quando acordassem, não precisariam chamar Beth, Liza e Mary. O problema, porém, é que pela manhã elas simplesmente não acordavam mais. Muitas foram as que morreram durante a noite, sufocadas debaixo dos lençóis, levando ao túmulo horríveis caretas. Essa não é, certamente, a solução. Mas o momento da rendição chegou. Após muitas experiências e catástrofes científicas, encontrei o mecanismo ideal, que não só eliminará tempo e esforço, como também dor. É, contudo, muito simples, e pode ser realizado por qualquer um, não exigindo grandes custos ou inteligência. Você precisará:
Do mesmo modo, devemos submeter-nos a certos usos e modas correntes na sociedade se realmente queremos participar nela como uma pessoa civilizada, e boa parte das regras começam pelas vestimentas, pois lidam diretamente com a arte de esconder e aparentar. Porém, como nem sempre as vestimentas foram desenvolvidas para serem práticas, faz-se necessário aprender alguns truques que pouparão sacrifícios. A questão a ser abordada neste capítulo é: espartilhos. Quantos e quantos de nós não sacrificamos horas e horas de nossa manhã apenas para ter sua caixa torácica prensada em espartilhos, cujos elásticos estão tão tensos que nem as leis de Newton logram explicar sua efêmera estabilidade?... Apesar do grande dispêndio de energia, são capazes de manter a massa extravagante em ordem, surrupiando, ao menos temporariamente, alguns quilos dos olhos alheios, de modo que são indispensáveis para uma boa apresentação em sociedade. Acontece, todavia, que o esforço em vesti-los é de tal magnitude e exaustão que se chega a duvidar se realmente seu uso vale a pena, desejando-se intensamente que a moda passe ou que ao menos alguém encontre uma solução que alivie o encargo. Pois a dificuldade em vesti-los chegou a tal monta que o seu uso começa a atrapalhar outros hábitos igualmente importantes, resultando em uma perda que põe sua observância em franca desvantagem. Mas há os que digam: "E daí? Que me importa se eu gasto duas horas com espartilhos... O importante é que eu estou bonita e blá blá blá". Insolente, você devia ser afogado na fonte pública. Essas duas horas deveriam estar sendo gastas lendo Thackeray, e não espremendo-se ofegante na frente do espelho. Nada mais deplorável do que uma esposa iletrada, cuja cabeça é tão oca que o marido tem que atravessar um salão enorme ladeado com os bustos de todos os imperadores de Roma para chegar até a sua mulher. É exatamente o que acontece com os espartilhos, cujo prejuízo de tempo compromete outras atividades mais frutíferas e úteis no meio social como a leitura, haja vista o tempo que se leva para vesti-los, tempo este que poderia ser bem melhor aproveitado.
E o que fazer para continuar usando-os sem que isso comprometa tempo e força física? Muitas mulheres tentaram suprimir essa penosa rotina dormindo com os espartilhos, de modo que, quando acordassem, não precisariam chamar Beth, Liza e Mary. O problema, porém, é que pela manhã elas simplesmente não acordavam mais. Muitas foram as que morreram durante a noite, sufocadas debaixo dos lençóis, levando ao túmulo horríveis caretas. Essa não é, certamente, a solução. Mas o momento da rendição chegou. Após muitas experiências e catástrofes científicas, encontrei o mecanismo ideal, que não só eliminará tempo e esforço, como também dor. É, contudo, muito simples, e pode ser realizado por qualquer um, não exigindo grandes custos ou inteligência. Você precisará:
- um espartilho (dã);
- 2 pregos
- 2 ímãs;
- cola.
Imagino que não será difícil obter esses objetos. Acaso tenha dificuldade, repita essas palavras (mas para a sua empregada, e não para as paredes - não vá dar uma de tonta): "Beth, vá até a caixa de ferramentas de meu marido e arranje-me pregos, cola e ímãs". Em um passe de mágica, estarão devidamente em cima de sua cama. Em seguida, estique o seu espartilho de maneira que fique bem amarrado entre o armário e a penteadeira. Pregue as extremidades em ditos móveis. Feito isso, e certificando-se de que o espartilho encontra-se bem esticado, cole (usando a cola) os ímãs nas pontas do espartilho. Imprima seu corpo com os braços levantados contra o espartilho, de modo a fazer um brando "v". Chame Liza e Mary. Liza e Mary deverão despregar os pregos ao mesmo tempo. Essa regra deverá ser cuidadosamente observada pois, caso contrário, os acidentes poderão ser drásticos. Retirados os pregos, as extremidades do espartilho serão impelidas uma em direção a outra, atraídas pelo ímã e impulsionadas pela tensão física, de forma a envolver o seu corpo, deixando seu tórax firmemente preso e comprimido. Como pode ver, tal sistema não leva mais do que alguns minutos: sem dor, sem esforço, sem delongas. E agora você pode gastar a manhã inteira lendo Thackeray, ou qualquer outra coisa que preste, e as suas criadas, claro, poderão dedicar-se a fazer uma deliciosa torta de amora. No final, todos saem ganhando.
domingo, 24 de outubro de 2010
Por que nós não precisamos de carros?
Ontem notei que eu não tinha um carro, quero dizer, não um que seja propriamente meu, o que foi, obviamente, uma surpresa, pois eu sempre tive a impressão de que eu estava indo para algum lugar. Então todos aqueles carros, limusines e ônibus não eram meus? Estou estarrecido e acabo de despejar a água do vaso em minhas costas, pois, francamente, eu realmente tinha a impressão de nunca precisar pedir ou implorar para que o carro começasse a andar. Eu embarcava, fechava os olhos, e... voilà! Lá eu estava. No começo achei que fosse alguma espécie de teletransporte acionado pela força do pensamento, ou algo como uma irresistível obediência à simples presença de minha autoridade. Mas agora sei que eu estava apenas pegando uma carona. Entretanto, após muito pensar, acabei concluindo que nós não precisamos de carros. Isso é o que tentam nos convencer, mas a verdade é que veículos motorizados são simplesmente dispensáveis, e nós podemos chegar a qualquer lugar em que queiramos ir, não importa a distância, porque:
- Nós, seres humanos, somos portadores de um dom que recebemos muito antes de nascer, e os contos de fadas estão repletos de relatos que comprovam que esse dom sempre esteve presente entre nós, a despeito de todo ceticismo. Não precisamos de carros porque, simplesmente, os pássaros podem nos carregar, bastando chamá-los e dizer-lhes o destino pretendido. Branca de Neve não foi a primeira nem a última a utilizá-los. Rápidos e singelos, os pássaros não requerem mais do que um punhado de alpiste para levá-lo a qualquer lugar além das colinas.
- Mesmo que você não tenha uma voz angelical para chamar os pássaros, há sempre a opção de virar um monge. Como todos sabemos, os monges adquirem, após muito treinamento, a capacidade de viajar através da luz dos vitrais, bastando para isso algumas horas de meditação e jejum. Há um amplo sistema de monastérios integrados ao redor de todo o mundo à disposição dos monges, de modo que todo monastério - não há erro - acabará dando em outro monastério, e isso pode tornar-se uma oportunidade única para conhecer toda a Cristandade.
- Entretanto, caso não haja monastérios em sua cidade, ainda pode-se contar com um sistema descoberto na Inglaterra vitoriana, que, embora haja controvérsias a respeito de sua moralidade, não há dúvida de que funcionou muito bem. Consiste em dar pancadinhas com a bengala nas juntas das pernas, quero dizer, na parte anterior dos joelhos, entre a coxa e a panturrilha. Uma pequena pancadinha nas pernas de uma criança proletária é capaz de transportá-lo de sua suíte até o teatro. Uma pancadinha nas pernas de um estivador o fará atravessar o Atlântico, proporcionando-lhe uma viagem de negócios até Boston rápida e sem enjôos. Nunca foi tão fácil apostar na bolsa de Nova York.
Como podem ver, não precisamos de carros. Nosso sistema de transporte é sem dúvida poluidor, caro e de dúbia comodidade, e não hesito em dizer que em breve estará moral e economicamente defasado quando souberem disso.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Roldanas, apenas
Vim aqui apenas para conciliar-me. Gostaria de mostrar que, por trás dessa máscara de pó-de-arroz e debaixo desse chapéu de plumas, esconde-se um humilde ser humano pronto a montar na frente de sua propriedade uma fila do sopão, acendendo nos tambores de lixo dos necessitados uma ardorosa chama da caridade e dando a todos, sem olhar a quem, uma bela caneca de legumes e carne. Deixo a frente de combate e assumo meu lugar no mundo mais uma vez, para dizer a todos sobre "as terras por onde andei, e os amigos que lá deixei". Abro então um grosso volume da estante - não que precise estar algo escrito, mas apenas enquanto uma maneira de abrir um livro suspirando e relaxando a musculatura das costas no estofado - e chamo para mais perto minha caneca de chocolate-quente. É preciso deixar os rosnados de lado, ao menos por um tempo, e esquecer o olhar nas fagulhas que ascendem em estrépitos da lareira, pois o mundo - eu sei, vai ser um choque - não é aquilo que eu disse. Bem é verdade que o mundo supra-sensível tem seus encantos, e que deixar-se seduzir pela plano das estruturas lógico-normativas é tão fácil quando não se tem que preocupar-se com o objeto de carne e osso que ficou para trás no processo objetivo de intelecção. Porém, meus irmãos, é como se o real morresse um pouco cada vez que se avança nessa pureza de pensar, e morrendo o mundo, perece o pensamento, e todas as terras que ele busca atingir afundam-se igualmente no horizonte das categorias abstratas.
Eu havia dito que nada mais inútil que a caridade. Sim, em certo sentido, mas nada mais vivo e belo que os pequenos gestos que tentam manter estáveis os pilares de nossa civilização, como se fossem úteis roldanas a tirar a sobrecarga por alguns instantes. Pois, embora meras roldanas, são roldanas, e fazem mover benfazejas os corações daqueles privados de todo o esplendor do Ocidente, quando então uma pequena parte de suas sombrias figuras são resgatadas da lama e trazidas à tona [para depois novamente naufragarem mal viram os voluntários as costas]. Roldanas podem parecer insignificantes diante de toda a enorme engrenagem. Mas é verdade que roldanas, apesar de meras roldanas, são muito bonitas e úteis, pois distribuem peso e aliviam a dor do trabalho. Lembro-me agora de um cenário do jogo do Pato Donald (que por sinal era em vários pontos aterrorizador, sombrio, místico e instigante), onde você tinha que conduzir o personagem através de varais, apoiando-se em roldanas e deslizando até o lado oposto. Ao fundo havia um cenário perturbante de uma cidade de tijolos alaranjados em um entardecer. Era muito bonito e ao mesmo tempo... qual é a palavra? Desolador, como todo fim de tarde. Enfim, roldanas são belas em aspecto e função, assim como pode a caridade ser, pois bondade também é beleza e razão, quero dizer, senão ao menos conversíveis entre si, apóiam-se como condições de existência. Pois certas coisas não são possíveis de valorar-se pelos seus efetivos resultados, mas aquilo que lhes deu origem já vale por si mesmo, e indica que as coisas existem e acontecem não importa o aproveitamento que se lhes possa tirar. Caridade já vale por aquilo que é, independentemente de quão fútil e efêmero seja seu resultado.
Dentre outras mentiras e veleidades que me esqueci enquanto lia esse livro imaginário que eu tirei, mas que, sem dúvida, mancham igualmente meu semblante. Apenas para dizer que eu deposito mais confiança no que os outros falam do que em minhas próprias palrações. Bom, na verdade somente em alguns, evidentemente, nos quais deponho o dever de corrigir-me, pois sei que detêm a tão desejável ilustração pela qual exponho o meu pensamento. Mas o que estou a dizer! Não devo satisfações de meus negócios! [joga a a caneca de chocolate-quente na cara da anfitriã e começa a dançar ao som de Gipsy. Na verdade, todos começam a dançar].
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Coração de areia
Nos pálidos nodos das espáduas desliza
O negro manto de súbito despertado
Sobre o silêncio da torre de brilhante hulha
Onde de trás sequiosas esconsas polias
Erguem pesados anéis do velo de sombras
E vestem-me a opalina pedra erigida.
Marcham os úmidos pés sobre o promontório
Emerso dos braços de estrelas esgarçadas
Nas rochas da noite, e no cinzento zimbório
Das nuvens finco-me o gume de rouca ânsia
Vertida das pulmonares bolsas inchadas
Das notas contorcendo-se em amarelo óleo.
Espraio-me nas douradas trompas do abismo
E deixo levar-me o vento a inútil espuma
Dos cabelos cobertos em sinos de sal,
Como se o silvo me arrefecesse aos ouvidos
O sentido de meu rastro pelo ermo gelo
Onde estremece a aurora em semblante esquecido.
Pairo lúcido espectro sobre a vela ardente
De uma insone memória que em luz de cinábrio
Rasga-me o odre de ferro como a um ventre,
E em febre nas trevas em asas de quitina
Arrasto-me extinto de todo o antigo anelo
Perdido em roxas brumas dos olhos pungentes.
Revolvem no lodo as rodas o frágil vulto
Que submerso decanta seus veios de cálcio
Pelo pântano como um coração de areia,
E nas dragas de lúrida fronte convulso
Enfim descubro a mais dura pedra colhida
Vazar em lama de ervas dos punhos oclusos.
O negro manto de súbito despertado
Sobre o silêncio da torre de brilhante hulha
Onde de trás sequiosas esconsas polias
Erguem pesados anéis do velo de sombras
E vestem-me a opalina pedra erigida.
Marcham os úmidos pés sobre o promontório
Emerso dos braços de estrelas esgarçadas
Nas rochas da noite, e no cinzento zimbório
Das nuvens finco-me o gume de rouca ânsia
Vertida das pulmonares bolsas inchadas
Das notas contorcendo-se em amarelo óleo.
Espraio-me nas douradas trompas do abismo
E deixo levar-me o vento a inútil espuma
Dos cabelos cobertos em sinos de sal,
Como se o silvo me arrefecesse aos ouvidos
O sentido de meu rastro pelo ermo gelo
Onde estremece a aurora em semblante esquecido.
Pairo lúcido espectro sobre a vela ardente
De uma insone memória que em luz de cinábrio
Rasga-me o odre de ferro como a um ventre,
E em febre nas trevas em asas de quitina
Arrasto-me extinto de todo o antigo anelo
Perdido em roxas brumas dos olhos pungentes.
Revolvem no lodo as rodas o frágil vulto
Que submerso decanta seus veios de cálcio
Pelo pântano como um coração de areia,
E nas dragas de lúrida fronte convulso
Enfim descubro a mais dura pedra colhida
Vazar em lama de ervas dos punhos oclusos.
sábado, 9 de outubro de 2010
Ao pé de uma macieira
Ao expor a minha dúvida quanto à possibilidade de haver a multiplicação de riquezas diante de um mundo natural que apenas se reproduz através de si mesmo, sem que isso signifique qualquer espécie de aumento quantitativo de matéria, fui acusado, e bem justamente, de portar uma concepção medieval da economia. Eu reconheço a minha ingenuidade, mas, embora eu não devesse, senti-me orgulhoso disso. É como se eu me visualizasse encostado em uma macieira, a escrever um tratado sobre a agricultura em latim, cunhando sentenças de tom moral, mas solidamente calcadas na antiga lógica aristotélica. E, volta e meia, eu volveria meu olhar para a vista do campo, dominado por um castelo erguido no sopé de uma pequena colina, onde os servos semeiam as valas abertas e empurram o arado pelo solo, um tanto duro, mas que logo vai cedendo ao instrumento puxado por dois bois de olhar brejeiro. E então, suspendendo a pena por esses longos momentos de contemplação, iria compondo lentamente sobre a verdadeira origem da riqueza de um país.
É que as idéias dos antigos parecem-me muito mais simpáticas e pacíficas, como se a sua manifesta ignorância, que só agora nos parece manifesta ignorância, não fosse senão a revelação de um mundo mais terno e calmo, de ritmo lento como as passadas de um boi. Tão diferente dos modernos moralistas, que parecem gritar em meus ouvidos, conclamando o céu e o inferno para que venham às suas fileiras e marchem em direção a um destino hipotético e pseudocientífico. Parecem ter perdido a capacidade de falar em um tom sereno e sério, como se o discurso não pudesse fazer efeito nos ouvintes senão através de expressões de violência e dados assustadores, como se o nosso sono não pudesse ser despertado senão através do medo e de mentiras, engenhosamente disfarçadas para servir a sua boa-causa. Porque a verdade, para eles, não passa de uma concepção parcial da realidade, amoldada por interesses de grupo ou classe, e a sua busca objetiva é uma ilusão, da qual estão cansados e agora tomam as ruas queimando pneus e fazendo chantagens.
Eles tocam o meu interfone e começam a falar uma série de coisas, que eu não entendo bem, pois há muito barulho de buzina no fundo. Eu até tento discernir algum sentido racional em seus discursos de palanque, mas só consigo escutar aqui e acolá "hipocrisia", "nova ordem", "pró-ação", "tira essa bunda do sofá". Eu vou, mas é para colher maçãs e para pôr essa bonita fotografia.
Eles tocam o meu interfone e começam a falar uma série de coisas, que eu não entendo bem, pois há muito barulho de buzina no fundo. Eu até tento discernir algum sentido racional em seus discursos de palanque, mas só consigo escutar aqui e acolá "hipocrisia", "nova ordem", "pró-ação", "tira essa bunda do sofá". Eu vou, mas é para colher maçãs e para pôr essa bonita fotografia.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Eu aqui, polindo os meus óculos
Muitas vezes a conveniência faz com que conceitos fundam-se um aos outros, como se não fossem mais do que digressões de um mesmo ser, e como se cada fragmento do vitral pudesse ser tomado como a origem primeira e o destino último dos demais. E assim torna-se possível a criação de um monopólio de um conceito sobre todos os outros, forçando-os a comprimirem-se em uma mesma moeda, na qual não é mais possível manter intactos os antigos limites que os circunscreviam. Então a posição do observador passa a ser não apenas o início de toda especulação, mas o denominador comum, que não somente paira sobre os conceitos como uma sombra, mas envolve-os e imiscui-se em suas essências, confundindo-os em um mesmo plano artificialmente ampliado. É o que muitas vezes acontece quando algumas pessoas resolvem enxergar as coisas pelo "prisma social", pretendendo interpor entre o sujeito e o objeto uma teoria científica e, ao mesmo tempo, "desmascarar" a realidade, sem que isso implique em qualquer contra-senso em seu discurso, como se as máscaras caíssem automaticamente sob a luz dessa teoria, que já não é mais mero discurso hipotético, mas verdade revelada. Porém, enxergar as coisas por outro prisma é algo curioso para mim, pois eu mesmo penso os prismas como a metáfora perfeita para os seres imutáveis, sólidos e exatos, e não como transparências diante das quais tudo parece relativizar-se em miríades de posições. Da mesma forma, não consigo entender como e quando foi que a universidade passou a ser entendida como instituição social, nem entendo em que sentido poderia realizar qualquer espécie de função junto à sociedade, como tão fastidiosamente tem-se comentado.
Quando ouço falar em universidade, o que me vem à mente - e não só à minha, mas imagino que à de muitos ainda – é aquele velho conceito de universidade, construído pelos séculos e levada até os nossos dias pela tradição, que nos fala de um lugar voltado para o ensino e pesquisa científicos, preocupado na formação profissional de técnicos e na transmissão da cultura. Mas parece que os fins que persegue já não são suficientes para justificar a sua existência, e agora urge que adote uma postura mais ativa no meio social, desenvolvendo programas que beneficiem diretamente a sociedade como um todo, e não agindo como se fosse uma nave alienígena, voltada para si e alheia às mazelas de nosso sistema. Afinal, ela recebe recursos públicos provindos da contribuição de todos, de modo que a universidade não é mais do que uma servidora, cuja principal preocupação deveria estar centrada nas necessidades de seu meio, e não em perseguição a fins esdrúxulos e fúteis, sem utilidade imediata que possa ser aproveitada por toda a população. Não pode ser mais vista, portanto, como uma mera instituição de ensino e pesquisa, mas um agente social, calcado nos valores da justiça e da igualdade, como mesmo convém a uma verdadeira democracia. E então ela segura na barra da saia e faz uma leve flexão com os joelhos, pois não é justo que tão-somente uma pequena parcela da população se beneficie de todo o seu aparato, pois aquilo que todos ajudaram, de uma forma ou de outra, a construir, deverá ser por todos acessível, e aqueles que, devido a condições sócio-econômicas desfavoráveis, mantiveram-se afastados de sua instituição deverão ser incluídos, numa entediante tentativa de aliviar em seus quadros as desigualdades econômicas, raciais, étnicas, etc.
Ocorre, entretanto, que a universidade nada tem a ver com tais condições sócio-econômicas, e pouco lhe importa que camadas inteiras da população sejam sistematicamente eliminadas de suas carteiras e laboratórios. Os valores que constituem a sua natureza institucional não são o da justiça e da igualdade, pois o espaço em que se desenvolvem as pesquisas e o ensino não é um espaço social, muito menos um espaço político, pois a maneira como promove suas ações não se dá baseada em necessidades econômicas ou em interesses comuns que atinjam a todos, nem mesmo pretende ser um espaço de decisão ou determinado por regras comportamentais. Os valores que regem o ambiente universitário são o do mérito pelo conhecimento e o da iniciativa científica, de modo que constitui-se não em uma estrutura eminentemente democrática, mas em uma hierarquia entre aqueles que sabem e aqueles que querem saber. O que promove suas relações é o conhecimento, e só em torno deste é que se promove o debate, não no sentido em que se dá em um ambiente político, pois não almeja nenhuma tomada de decisão, mas apenas no sentido da promoção da ciência, no aprimoramento da técnica e do conhecimento. É por isso que um professor não pode esperar aprender muito com seus alunos, a não ser que se esteja diante de um claro déficit de formação acadêmica, pois não são iguais que se encontram no ambiente universitário, mas indivíduos hierarquizados pelo conhecimento. É claro que semelhante hierarquia não é a mesma que se dá em um espaço social, pois é muito mais volátil e relativa, e os pólos entre aquele que sabe e aquele que quer saber podem facilmente inverter-se conforme a situação.
O que se quer dizer é que a universidade não pode vincular-se à subsistência da sociedade, pois visa à produção de conhecimentos de forma livre, e semelhante intromissão só tem a atrapalhar toda a iniciativa científica. Do mesmo modo, a formação profissional e a promoção cultural que desenvolve não pode transformar-se em mero serviço público, pois não se trata de extensão de um departamento da administração. É importantíssimo que mantenha autonomia face à política e à sociedade, pois os fins que estas perseguem são absolutamente impróprios na consecução de um de seus principais objetivos: a busca pela verdade. Quando se atrela as iniciativas científicas da universidade às necessidades sociais ou aos interesses políticos, a pesquisa está fadada ao condicionamento, e a produção do conhecimento perderá o seu tão essencial caráter objetivo e neutro. Os interesses, sejam sociais ou políticos, amoldam a produção dos fatos, vinculam os objetivos e tecem verdades falsas e parciais, que nada têm de científico, mas, ao contrário, constroem ideologias, contra as quais não parece haver verificabilidade ou provas em contrário que possam desmenti-las ou iluminá-las. Mesmo as promoções culturais, que talvez sejam as atividades que mais se aproximem a um conteúdo político ou social, não podem sobreviver durante muito tempo como ação autônoma e espontânea quando começam a perseguir algum tipo de finalidade que não a própria produção cultural. Pois se a universidade em vários momentos pretende a transmissão e cultivo de idéias, tradições, filosofias, o faz no sentido de manter o conhecimento vivo e livre, e sua liberdade cessa exatamente quando passa a perseguir fins alheios à sua natureza institucional.
Do mesmo modo, transportar artificialmente valores de justiça e igualdade para um lugar que é tradicionalmente formatado pela hierarquia do conhecimento não é fazer mais do que a anfitriã que encobre os móveis de sua casa com lençóis floridos. A universidade não é lugar para justiça ou igualdade social, pois tal deve ser feito muito antes, em sua verdadeira origem. Tentar mascarar problemas sérios de ensino sob a égide de um pretenso valor social que deve buscar a universidade, assemelha-se mais à ação caritativa do que a um ato de justiça, e nada mais inútil do que a caridade. Esta se parece com uma espécie de um mal necessário, como uma ultima ratio, quando nada mais é possível de ser feito e quando tudo parece já não adiantar. Então temos a caridade, que apenas consegue sustentar, manter em movimento as pás de um moinho, mas nunca construir um outro moinho. Assemelha-se mais ao trabalho solitário e recôndito do burrinho, que faz girar as engrenagens enquanto se move em círculos lentos, como se o seu próprio trabalho não fosse senão um mudo sofrimento. Caridade morre em si mesma. Quando a ação caritativa cessa, nada além dela sobrevive. Pois é um ciclo, não uma reta projetada para o futuro, como é a acumulação do conhecimento e a ação política.
E eu digo isso (e aqui me dispo de qualquer conteúdo para atingir o neutralmente polido, o discurso de plumas e pó-de-arroz, pois mesmo não acho que semelhantes idéias sejam fáceis de virem desacompanhadas de ódio e preconceitos) tomando meu chá de erva-cidreira, e não dando surras com pão-bengala em suas costas.
Quando ouço falar em universidade, o que me vem à mente - e não só à minha, mas imagino que à de muitos ainda – é aquele velho conceito de universidade, construído pelos séculos e levada até os nossos dias pela tradição, que nos fala de um lugar voltado para o ensino e pesquisa científicos, preocupado na formação profissional de técnicos e na transmissão da cultura. Mas parece que os fins que persegue já não são suficientes para justificar a sua existência, e agora urge que adote uma postura mais ativa no meio social, desenvolvendo programas que beneficiem diretamente a sociedade como um todo, e não agindo como se fosse uma nave alienígena, voltada para si e alheia às mazelas de nosso sistema. Afinal, ela recebe recursos públicos provindos da contribuição de todos, de modo que a universidade não é mais do que uma servidora, cuja principal preocupação deveria estar centrada nas necessidades de seu meio, e não em perseguição a fins esdrúxulos e fúteis, sem utilidade imediata que possa ser aproveitada por toda a população. Não pode ser mais vista, portanto, como uma mera instituição de ensino e pesquisa, mas um agente social, calcado nos valores da justiça e da igualdade, como mesmo convém a uma verdadeira democracia. E então ela segura na barra da saia e faz uma leve flexão com os joelhos, pois não é justo que tão-somente uma pequena parcela da população se beneficie de todo o seu aparato, pois aquilo que todos ajudaram, de uma forma ou de outra, a construir, deverá ser por todos acessível, e aqueles que, devido a condições sócio-econômicas desfavoráveis, mantiveram-se afastados de sua instituição deverão ser incluídos, numa entediante tentativa de aliviar em seus quadros as desigualdades econômicas, raciais, étnicas, etc.
Ocorre, entretanto, que a universidade nada tem a ver com tais condições sócio-econômicas, e pouco lhe importa que camadas inteiras da população sejam sistematicamente eliminadas de suas carteiras e laboratórios. Os valores que constituem a sua natureza institucional não são o da justiça e da igualdade, pois o espaço em que se desenvolvem as pesquisas e o ensino não é um espaço social, muito menos um espaço político, pois a maneira como promove suas ações não se dá baseada em necessidades econômicas ou em interesses comuns que atinjam a todos, nem mesmo pretende ser um espaço de decisão ou determinado por regras comportamentais. Os valores que regem o ambiente universitário são o do mérito pelo conhecimento e o da iniciativa científica, de modo que constitui-se não em uma estrutura eminentemente democrática, mas em uma hierarquia entre aqueles que sabem e aqueles que querem saber. O que promove suas relações é o conhecimento, e só em torno deste é que se promove o debate, não no sentido em que se dá em um ambiente político, pois não almeja nenhuma tomada de decisão, mas apenas no sentido da promoção da ciência, no aprimoramento da técnica e do conhecimento. É por isso que um professor não pode esperar aprender muito com seus alunos, a não ser que se esteja diante de um claro déficit de formação acadêmica, pois não são iguais que se encontram no ambiente universitário, mas indivíduos hierarquizados pelo conhecimento. É claro que semelhante hierarquia não é a mesma que se dá em um espaço social, pois é muito mais volátil e relativa, e os pólos entre aquele que sabe e aquele que quer saber podem facilmente inverter-se conforme a situação.
O que se quer dizer é que a universidade não pode vincular-se à subsistência da sociedade, pois visa à produção de conhecimentos de forma livre, e semelhante intromissão só tem a atrapalhar toda a iniciativa científica. Do mesmo modo, a formação profissional e a promoção cultural que desenvolve não pode transformar-se em mero serviço público, pois não se trata de extensão de um departamento da administração. É importantíssimo que mantenha autonomia face à política e à sociedade, pois os fins que estas perseguem são absolutamente impróprios na consecução de um de seus principais objetivos: a busca pela verdade. Quando se atrela as iniciativas científicas da universidade às necessidades sociais ou aos interesses políticos, a pesquisa está fadada ao condicionamento, e a produção do conhecimento perderá o seu tão essencial caráter objetivo e neutro. Os interesses, sejam sociais ou políticos, amoldam a produção dos fatos, vinculam os objetivos e tecem verdades falsas e parciais, que nada têm de científico, mas, ao contrário, constroem ideologias, contra as quais não parece haver verificabilidade ou provas em contrário que possam desmenti-las ou iluminá-las. Mesmo as promoções culturais, que talvez sejam as atividades que mais se aproximem a um conteúdo político ou social, não podem sobreviver durante muito tempo como ação autônoma e espontânea quando começam a perseguir algum tipo de finalidade que não a própria produção cultural. Pois se a universidade em vários momentos pretende a transmissão e cultivo de idéias, tradições, filosofias, o faz no sentido de manter o conhecimento vivo e livre, e sua liberdade cessa exatamente quando passa a perseguir fins alheios à sua natureza institucional.
Do mesmo modo, transportar artificialmente valores de justiça e igualdade para um lugar que é tradicionalmente formatado pela hierarquia do conhecimento não é fazer mais do que a anfitriã que encobre os móveis de sua casa com lençóis floridos. A universidade não é lugar para justiça ou igualdade social, pois tal deve ser feito muito antes, em sua verdadeira origem. Tentar mascarar problemas sérios de ensino sob a égide de um pretenso valor social que deve buscar a universidade, assemelha-se mais à ação caritativa do que a um ato de justiça, e nada mais inútil do que a caridade. Esta se parece com uma espécie de um mal necessário, como uma ultima ratio, quando nada mais é possível de ser feito e quando tudo parece já não adiantar. Então temos a caridade, que apenas consegue sustentar, manter em movimento as pás de um moinho, mas nunca construir um outro moinho. Assemelha-se mais ao trabalho solitário e recôndito do burrinho, que faz girar as engrenagens enquanto se move em círculos lentos, como se o seu próprio trabalho não fosse senão um mudo sofrimento. Caridade morre em si mesma. Quando a ação caritativa cessa, nada além dela sobrevive. Pois é um ciclo, não uma reta projetada para o futuro, como é a acumulação do conhecimento e a ação política.
E eu digo isso (e aqui me dispo de qualquer conteúdo para atingir o neutralmente polido, o discurso de plumas e pó-de-arroz, pois mesmo não acho que semelhantes idéias sejam fáceis de virem desacompanhadas de ódio e preconceitos) tomando meu chá de erva-cidreira, e não dando surras com pão-bengala em suas costas.
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