segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Na mais alta torre gótica

Quando sua irmã irrompeu pela porta, segurando seu filho nos braços, pouca atenção ter-lhe-ia dado se não fosse pelo homem que lhe seguiria minutos após. Eu estava na casa de um amigo, jogando age of empires, e, bastante concentrado, voltei-lhe rapidamente os olhos em sinal de cumprimento, pois, afinal, era apenas uma moça normal com quem eu nada tinha que ver, e, além do mais, minhas fortificações pereciam ante o inimigo e medidas urgentes deviam ser adotadas. Contudo, ao abrir-se a porta pela segunda vez, eis que surge um homem gordo, vestido com desleixo e aparentando ser não mais do que um chapeiro.

Estarrecido subentendia que este era o pai de seu filho, o empresário, o detentor de afamada fortuna e de tantos imóveis na cidade. Pouco me importa se ele realmente gozava dessa situação. A questão era o evidente contraste entre a jovem moça, uma típica patricinha maringaense, e o homem feio, de traços escuros, passos morosos e pelo menos uma década mais velho. O que teria motivado uma união tão... grotesca? Só com muita ingenuidade seria o dinheiro, já que estavam encostados no apartamento do irmão, o que torna a coisa ainda mais vil. Amor? Ah, então... Pobre moça.

Pobre, pobre moça. Não sabe então que a sociedade, representada em mim, não a redimirá por mais puro que seja seu sentimento? Acaso se esqueceu dos seus deveres ao unir-se com tão decadente criatura, tendo a audácia de engendrar um filho de tão feio homem? E ele me vira seus pesados olhos, o chapeiro, e, desconhecendo seu lugar, exige de mim o cumprimento. E o tem, certamente, pois que não sou assim tão vilão. Mas pressinto a carne pútrida que guarda em seu peito, a moral preguiçosa e a inteligência voltada para o desfrute dos bens terrenos desde a sua torre gótica. Oh quasímodo, que a água da fonte suas mãos conspurcam! Com que sordidez não desfolha as flores de nossos jardins entre seus dedos suados! E em troca nada nos dá senão a cena de seu próprio deleite.

Sou ruim? Apenas exponho aquilo que todos os presentes na mesa pensaram. Pois todos nós sabemos que engendrais vossos filhos para nós, a sociedade, e não para a satisfação própria. Ou pensais que nós toleraremos que vos reproduzais à vontade, atracando-vos com o primeiro que vos passe um pouco de dinheiro diante de vossas faces indolentes, quando, na verdade, devíeis estar procurando nos homens aquilo que há de melhor e, assim, oferecendo-nos o melhor possível? A sociedade, minha cara, não a perdoará, pois do seu amor não depende. O amor que corresponde tão somente a vocês dois, aos olhos dos demais, no entanto, é apenas mais um sentimento banal. Não importa quão alto busquem seu refúgio, nós os enxergaremos tal qual nos afigura: a gárgula bestial e sua monja de pedra. Oh, sim!

E eu sou o vampiro que, subitamente iluminado por um relâmpago, desde o pórtico escuro apavora a donzela, fazendo-a fugir aos gritos pelas escadarias que conduziam ao castelo. Se acaso lhe persigo injustamente, peço desde já seu perdão, aquele mesmo perdão que a pouco lhe neguei. Mas era para o seu bem, para o nosso bem. Um bem que lhe cravo na branca carne de seu pescoço e de cujas veias extraio o sumo essencial de nossa temporária, porém não desprezível e nem de toda privada de sua origem, verdade.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A sentença

Certa vez, ao entrar na sala do procurador, fui convidado a conversar. Ele estava preocupado, se é possível assim dizer, com o fato de que, aparentemente, eu já não me encontrava com o mesmo ânimo, e, como indícios, citou uma série de erros formais que eu vinha cometendo. Respondi-lhe, então que: eu me encontrava no estágio há quatro meses, e não há um ano como ele havia pensado; meu ritmo de trabalho era exatamente o mesmo e, inclusive, eu agora trabalhava para dois procuradores; tal erro aconteceu há dois meses.

Pareceu-me, à época, uma indireta para que eu saísse do estágio, já que ele mesmo não o podia fazer. Porém, pensando agora, acho que os motivos eram outros, ainda mais quando, já no quinto mês, houve uma súbita e incompreensível explosão de cordialidade. A questão era: como manter-me subordinado? Impondo-se vociferante? Claro que não. Estando ele em uma posição superior e sendo, porém, meu trabalho independente de sua direção, deveria ele envolver-me em uma nebulosa em que eu jamais pudesse orientar-me, de modo que, escravo de suas pistas, fosse forçado a todo instante a farejar a seu redor em busca da verdade.

Mas o porvir é lindo. Em menos de uma semana, caiu, sem que eu já guardasse qualquer rancor, em minhas mãos uma petição sua em que ele havia errado o nome das partes, o número do processo e todo o resto. O officeboy, a quem cabia essas coisas, pediu-me o favor de levar a petição à sua sala para que avisasse do erro e corrigisse. Eu jamais teria sabido se não fosse por sua cara-de-pau. Acho que ele não precisou insistir muito. Carreguei a petição impassível, como se eu fosse o próprio sol que irremediavelmente todos os dias levanta-se e põe-se sob o horizonte, e, quando irrompi pela sala, era branca minha máscara e negros meus ombros. Um mero comensal... do destino.

Não desembainhei minha espada, nem meus lábios crisparam-se. Meus olhos eram duas esferas de vidro que apenas refletiam o que quer que a vida a eles fizesse chegar sua luz. Meu coração era uma bacia de prata onde vultos misteriosos lavavam-se deixando a água escorrer brilhante de seus longos dedos. E isso bastava. Saí sem olhar se em seu rosto delineava-se o embaraço. Seu anjo, porém, levantando-se severo detrás de sua cadeira, caminhou a duras pausas até que se posicionasse diante de sua mesa e, suspendendo a um bom ângulo seu braço direito, pousou sobre seu pescoço a espada cinzenta.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Hauptstadt

Eu tinha chegado de madrugada no hotel, e a porta encontrava-se fechada. Não havia ninguém na recepção, exceto um rapaz, visivelmente um hóspede ou um pretendente a, sentado num dos sofás, o qual, obviamente, não poderia abrir-me a porta. Não me preocupei, pois bastava tocar a campainha e esperar que viesse algum funcionário. Acontece que o rapaz, desde atrás da porta de vidro, olhava-me insistentemente, carrancudo, severo, e até me senti intimidado pensando ser uma avaliação negativa de meu aspecto ou comportamento. Percebi, porém, pelo seu meio termo entre estar sentado e estar de pé, que estava apenas sentindo-se obrigado a ajudar-me, e o que parecia ser um olhar de reproche era na verdade preocupação. Levantou-se, pois, e, fazendo um gesto com a mão para que eu aguardasse, foi chamar alguém do hotel. Veja bem, isso era totalmente desnecessário.

Instantes depois, voltou e sentou-se no mesmo sofá. O funcionário veio logo em seguida e abriu-me a porta.  Mesmo que sua ação tivesse sido de um zelo dispensável, estava eu, obviamente, obrigado a agradecê-lo, e, ao entrar e passar por ele, disse-lhe "obrigado", pelo qual recebi em troca um leve, um mínimo, um imperceptível aceno de cabeça. Foi então que vi, reconheci, tal qual olhasse em um espelho, não somente a minha pessoa, mas a de tantas outras. Aquela carranca, a cabeça inclinada para baixo, o olhar duro e sério ressaltado atrás das sobrancelhas, o expressar lacônico, tudo isso que eu já havia visto uma centena de vezes, mas que até então não havia me dado conta de sua força estética.

E senti-me agradecido por ter encontrado meu igual, em saber-me não mais um ser isolado, desvinculado e flutuante. E, evidentemente, não teria me sentido tão agradecido se não fosse pelo fato de eu ter achado sua expressão e seu gesto belíssimos. Por haver se obrigado tão desnecessariamente, por haver se incomodado por alguém sem - ah glória - atrever-se a exigir um agradecimento. Como deve ser, como deve ser! Ele me ensinou o amor próprio, uma rota que eu posso seguir e atingir o ápice da humanidade sem que para tanto eu necessite descartar coisas que para mim são tão fundamentais, tão... minhas. Uma rota por onde eu possa passar com minha comitiva sem que para isso eu precise humilhar-me e ridicularizar-me abrindo mão de coisas que são valiosas para mim.

Eu descobri a minha capital. A capital de pessoas que não pedem seu abraço sincero e gostoso, mas apenas que continue seus afazeres, pois nada demais aconteceu. E sobre o mapa traço o caminho que me conduzirá ao ponto máximo a que eu sempre estive inclinado. E que nenhum biltre venha dizer-me o que há de certo ou errado, pois eles não sabem apreciar, não sabem compreender o apelo de perfeição que carrega cada coisa em sua essência. E por isso eles destroem, anulam, subjugam culturas inteiras, inconscientes da realização intrínseca que carregam desde há muito tempo.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Hotel Vitóri

Há muito tempo vinha-me prometendo o relato da breve, intensa e inesquecível estadia no Hotel Vitóri. Isso aconteceu há quase sete meses, e temo que alguns detalhes já não me ocorram tão facilmente. Era inverno, mês de julho. Havíamos planejado um passeio a Porto Alegre. Viajamos de avião, um avião barulhento e que parecia feito com casca de ovo. Era promoção. Era barato. Éramos jovens e não nos importávamos com comodidades. O suportar o desconforto era-nos uma virtude. Havia ânsia por vicissitudes, pela dor, o perceber de nossos limites. E eu era um rapaz prático, já um tanto esgotado por haver recentemente voltado do Chile, mas animoso por voltar a Curitiba, ainda que por breves horas, e por conhecer o extremo sul do Brasil.

Porto Alegre apresentou-se-me fria, úmida, cinzenta e seus habitantes rústicos, porém amáveis. Surpreendentemente amáveis. Já no aeroporto, uma senhora ofereceu-nos, assim, sem esperar sorriso algum de nossa parte, pagar pelo trem que nos levaria até a rodoviária. Instantes antes, um senhor e seu filho, de traços élficos, germânicos, haviam zelosamente tratado de que chegássemos ao terminal ferroviário. Sinceramente, não sei se eu poderia encontrar a mesma acolhida em meus conterrâneos, os quais considero rudes e caipiras (e muito provavelmente eu também o seja).

As calçadas estavam molhadas, o concreto de que eram feitas tinha o aspecto poroso e por toda a parte surgiam veios de água de origem misteriosa. O hotel não ficava muito longe da rodoviária, poderíamos facilmente chegar a pé. Havíamos feito a reserva pela internet, um preço muito camarada. A moça que cuidava do contato havia respondido nossos e-mails em caps lock. O hotel, conforme descobrimos através do google, havia sido vítima de um incêndio, provavelmente provocado por um aparelho elétrico em um quarto ocupado por um sacoleiro (era comum que o estabelecimento recebesse hóspedes do estilo). Embora suspeitássemos de algo nessas condições, a mística de um desastre que o envolvia e a economia que faríamos fizeram-nos preferi-lo a um hostel.

A rua em que ficava o hotel era como toda rua das redondezas de uma rodoviária. Um conjunto de prédios antigos e decadentes, ocupados por moquifos, lojas de bugigangas, bares imundos e prostituição. Seus transeuntes portavam o mesmo ar pestilento: rostos sulcados, cansados, escuros. Em todos eu via as mesmas mãos furtivas, as risadas debochadas e sem espírito, suas roupas desbotadas, seus olhos rápidos, ansiosos e libertinos que, sob a luz evanescente do crepúsculo, pareciam temer algo que os perseguia. Eu não poderia descrever a fachada do hotel, pois não me lembro. Mas vamos supor que não ocupava mais do que cinco metros, uma porta espremida entre duas lojinhas furrecas, uma grande janela de vidro ensebado e, claro, uma pintura bege e azul clarinho descascando-se.

A primeira coisa foi o cheiro de produto de limpeza misturado a mofo, como seria de esperar de lugares mal arejados e com pouca luminosidade. Para chegar até a recepção, era necessário subir uma escada de dois ou três lances. Os degraus estavam cobertos de um carpete puído e enegrecido. No fim da escada, havia um portão de grades, de aspecto rangente, sombrio, gélido. A recepção já não aparentava ser tão ruim, mas mesmo assim os móveis eram pobres, a decoração triste, algumas samambaias abandonadas pelos cantos. Antes de acertarmos a estadia, a moça perguntou se não queríamos conhecer o quarto. Claro. Achei desnecessário, afinal, onde, sendo já de noite e estando esgotados pela viagem poderíamos encontrar outro lugar? Nem conhecíamos a cidade... Porém, acompanhamos a moça que - estaria eu louco se me lembro desse detalhe? - vestia uma blusa de lã azul.

Não sei quantos corredores atravessamos. Corredores silenciosos, estreitos, claustrofóbicos, as paredes de aspecto frágil. A porta que abriu estava pintada de uma amarelo claro, e sua composição só muito vagamente lembrava a da madeira. Olhei rapidamente para o interior do quarto e contive meu riso: um riso de desespero, triste, como a fina chuva que caía lá fora sobre a calçada destroçada. Voltamos à recepção, aceitamos o quarto, pagamos. Estava lacônico e não lembro se quem tratou com os funcionários do hotel fui eu ou meu amigo. Parecíamos ser os únicos hóspedes. Para mim, estava claro que eu não poderia passar mais um dia sequer naquele hotel. Aquela noite era apenas uma necessidade irremediável, um absurdo em que me havia posto e o qual teria que suportar até que a luz do dia viesse.

O quarto tinha paredes pintadas de um laranja intenso, um quinhão do inferno. Não era muito grande, contendo uma cama, um beliche e um armário que, diferentemente das camas, as quais sustentavam um ar de mesquinha leveza que só a madeira ruim e barata é capaz, tinha um aspecto pesado, sóbrio, como se, estando ao canto da habitação, escondesse em seu interior um portal que não permitisse jamais a sensação de estar-se fechado num quarto. O banheiro era separado por uma divisória, de modo que tudo o que você fizesse ali poderia ser ouvido pelo seu companheiro do outro lado. Continha uma banheira de cerâmica encardida, um espelho e uma pia absurdamente baixa e onde mal cabiam as duas mãos juntas. Tudo tão triste, desolador, silencioso e miserável. Larguei minha mochila sobre a cama debaixo do beliche e comecei a dar voltas pela habitação.

Abrimos a janela para que arejasse um pouco e contemplamos a vista das ruínas do incêndio. Sim, eram os escombros, envolvidos na escuridão e para sempre calados pelo fogo. Escovei os dentes como pude e não quis tomar banho. Sequer pus pijama para dormir, e acabei cobrindo-me com o meu próprio casaco. Tinha medo do demônio, dos funcionários do hotel, das sombras com que se disfarçavam e que a qualquer instante entrariam nas pontinhas dos pés e me apunhalariam enquanto o grande relógio da noite soasse sua hora mais avançada. Tinha medo, sobretudo, da pobreza que ali respirava. A decadência, a certeza de que o homem só é digno enquanto puder desfrutar de um mínimo de conforto material. Tinha medo de um futuro em que eu só teria dinheiro para um hotel Vitóri, nas redondezas de uma rodoviária, em cujas camas espreitar-me-ia o grande espírito maligno de meus sonhos, o qual, sentando-se sobre o meu peito, vociferaria até a minha completa loucura. Tinha medo, enfim, de todo aquele submundo e seus mordomos de rostos macilentos, suas prostitutas e suas risadas hostis.

Pela manhã, se não estou enganado, meu amigo ainda teve a pachorra de perguntar se eles poderiam servir o café-da-manhã. Responderam que não, que somente havia café e pão para eles mesmos. Café-da-manhã... Hunf! Como se eles tivessem condições de servir-me um café-da-manhã! Tudo o que eu queria era pegar minhas coisas, sair dali e procurar um hostel. A manhã trouxera-me nova coragem, jogara luz aos elementos taciturnos que haviam me atormentado. Já não temia os funcionários nem o hotel. Desprezava-os: eles e toda aquela gente que rastejava ao seu redor. Tinha plena consciência de que não pertencia a tudo aquilo, e, se algum dia decaísse, lutaria até a morte por sair.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Miséria I

Querido diário,

Em meados de abril/maio - que sei eu -, havia sido convidado para um churrasco. Havia sido miseravelmente convidado para o churrasco, pois eu não gostava do anfitrião. Era seu aniversário. Um rapaz bobo, mais velho do que eu, imperdoavelmente infantil, insolente e dolorosamente vulgar. Era daqueles personagens com os quais nos deparamos de vez em quando e que sempre nos chocamos ao constatar sua capacidade em absorver todos os clichês e todo o vazio moral de um programa sensacionalista de televisão. Porém, não podendo recusar o convite, tendo em vista que era meu colega de estágio, decidi ir.

Às nove horas da noite, já vestido, descubro que ninguém mais do estágio iria, exceto eu. Sim, ele não era uma pessoa muito estimada, e, devo dizer, o que me moveu aceitar o convite não era o mero cumprimento de uma etiqueta, mas pena mesmo. Tanto melhor, eu pensei, afinal não gostava de nenhum deles: achava-os todos vis, mesquinhos, sem alma, denegridores da beleza e do significado que portavam. Peguei o carro (oh! era a primeira vez que eu tinha autorização para pegar o carro: era a glória), dei a partida e saí rumo à sua casa. (Aqui omitirei a parte em que me perdi durante uma hora na cidade, pois é sempre um misto de terror e delícia toda vez que isso acontece e nada tem a ver com esse triste relato).

Cheguei por volta da meia-noite. Meu Deus. Aquele era o churrasco mais deprimente em que eu havia estado. Se havia oito pessoas ali era muito. E dessas oito pessoas, um era o officeboy da procuradoria, e os outros, antigos colegas de uma companhia de marketing em que ele havia trabalhado. Destes, somente um, com muita bondade, podia ser chamado de seu real amigo. Suas relações eram, em suma, artificiais. Quem sou eu para julgar? Acontece que esse anfitrião vivia - tão cansativo - gabando-se, conversando, citando amigos. Não que eu não suspeitasse, mas não imaginava que fosse a esse ponto. Mas bem, até isso eu poderia relevar se não fosse...

A quantidade de carne e cerveja que nosso personagem havia comprado. Devia haver comida ali para umas quarenta pessoas. Ele não era somente um grande mentiroso; era um ingênuo, um deslumbrado. Uma confiança vazia, uma ilusão de dar pena, muita muita. Meu estômago retorceu-se. Minhas mãos, meus braços derrubaram-se moles ao longo do meu corpo. E as conversas! Oh, as conversas! Ora banais e entediantes, ora lascivas e torpes. Quando não me sinto bem num lugar, não gosto nem de participar em sua comida. Rejeitei todos os bocados de carne e a cerveja. Meu coração oprimia-se, algo em mim se desprendia roto. Os valores do alto céu despencavam sobre o charco da vida, e na imundície úmida debatiam-se como peixes que agonizam.

Prometi a mim mesmo que logo soasse a uma hora da madrugada eu vazaria dali. A todo instante consultava o relógio, ansioso, soturno, quase mudo. Despedi-me apenas do anfitrião e parti em meu carro. Estava deprimido não só por saber da existência de coisas assim, como de haver participado disso. Ainda posso sentir a crosta nojenta daquela atmosfera envolvendo-me: casca de inseto, artrópode, bicho pequeno, rastejante e vil. Sim, meus amigos, há todo um mundo lá fora que, longe de ser uma agonia, é um silêncio vazio. Sequer é possível chamar aquilo de silêncio de sepulcro, onde a morte vela um sentido profundo e intangível. É ausência. Não, é pior do que a ausência: são homens ocos, pois onde deveria haver homens, há apenas bonecos.

São títeres. Manipulados não por deuses ou por outros homens, mas por ninguém. O vento que ocasionalmente por eles passa move seus membros. A intempérie, o acaso, os elementos anônimos são os responsáveis por seus movimentos e sua aparente vida. Essa é a sua liberdade. Sequer são servos, pois até mesmo os servos possuem um sentido e uma vontade. Até mesmo os servos são mediações. Esses títeres têm o miolo de palha, um miolo morto que não serve a ninguém e a nada, cujo único sentido constitui-se em um acidente, e cuja única causa não é nada senão seu próprio vazio e absurdo.

Por ti intercedo

É fácil condenar a moça que saiu de casa levando todos os bens e deixando sua família na miséria para tentar a vida na corte do Rio de Janeiro. É fácil rasgar seu vestido de noiva e no auge de sua conquista esbofeteá-la profanando o empenho de maquiadores e costureiras. Mas o que ninguém quer é entender o outro lado, o lado da moça que vivia em sua casa perdida em ânsia e ambição. Pois essa moça entreolhou o pedacinho de céu desde o telhado quebrado de seu casebre e, longe de renunciar ao mundo que lhe mostrava seu rápido vulto, agarrou sua cauda luminosa com coragem e coração. E que poderia fazer a pobre moça, desde esse instante simbólico e sem tempo, senão deixar a casa que lhe era odiosa? Como continuar a viver ao lado de gente que consumia seu espírito, aquela parte nossa a que chamamos de sonho e que a tanto custo tentamos preservar? Imoral, sim, mas não destituída de valor. É necessário virtude até mesmo para cometer as más ações. Foi-lhe necessário ímpeto, empenho e fé naquilo que lhe era tão caro. Ou acaso uma moça assim, heroína da escuridão, poderia seguir vivendo ao lado de quem tira foto de ônibus em rodoviária, junto de pessoas que a obrigariam a sentar-se junto delas para assistir o programa favorito da família? De gente que mastiga de boca aberta e orgulha-se disso; gente que, deplorável em físico, anda pela sociedade sem camisa, sem pudor e sem consideração. Gente feia, grossa, que é a primeira a correr a encher o prato? Não, era tarde, ela sabia demais. E queria mais. Queria viver as longas escadarias, os altos sapatos, os sorrisos brancos e corteses. Queria o mundo que não se ria dos gringos e suas meias, onde as pessoas deslizam mansas as mãos pela colunata e ofendem com desdém. Onde os festins fazem-se sob a lua e princesas e príncipes roubam-se mutuamente delicadezas no umbral de seus palácios. E nada disso teria sido possível onde vivia. Que aflição, que tortura não sentia! Saber onde quer estar - coisa tão rara - e no entanto não poder ali estar. E, então, sem olhar para trás e evitando pensar no que deixava, vendeu o apartamento e atirou a mãe na rua, e com o dinheiro, usando da sorte e de talento, foi tentar a vida de cortesã na capital. Reprovável! Reprovável! Porém aquela moça tinha um sonho. E lutou por esse sonho. Mais condenável é quem não peca, não por sobrar-lhe virtude e querer o bem, mas por falta de coragem. Gente vil, medíocre, como sombra que desliza a um canto da sala e ali apodrece, remoendo seu coração pequeno e rosnando baixinho aos que vê passar. Rasguem seu vestido de noiva. Destruam seu altar de casamento e deitem ao mar as jóias que ganhou. Mas jamais se esqueçam que o mundo dos homens tem um começo e tem um fim, e suas ações serão julgadas nas estrelas e não em seus tribunais de mofo e lassidão. Roubou? Sim, roubou. Mas roubou espreitando o sol que se levantava alto em seus sonhos e despertava-a em tormentos e suor no meio da noite, e seus feitos são, ao menos em parte, realização de algo mais profundo que a sua própria alma e que aos astros ascende em asas invisíveis.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Outrem em bandanas

No supermercado aqui perto, quando você faz uma compra superior a certa quantia, eles emitem um comprovante da sorte: você ganha um desconto de 30% em determinada bolacha, sabão em pó e até mesmo entradas para cinema. Eu sempre olhava atrás desse papel para ver se eu tinha ganhado alguma coisa (um desconto de 10% em chocolate seria algo maravilhoso para mim). E isso sempre com muita discrição, muita sabedoria. Nunca ganhei nada, nadinha, pois imagino que as compras que faço são em valor muito aquém ao necessário.

Acontece que, um belo dia, enquanto eu me dirigia às portas automáticas da libertação, o Sr. Guarda do Estabelecimento flagrou-me olhando o comprovante para ver se tinha alguma coisa. E, como se isso não fosse o bastante, ele sorriu. Ele sorriu, e de tantos dentes e em tais fileiras corretas que não tive dúvida. Meu Deus, ele havia captado a minha expressão facial que, nesse momento, devia ser bastante idiota. Certamente havia notado aquela parte comunicável, o lado miserável de todo ser humano, o que há de pior em mim e em todos nós. Havia visto a ânsia pueril em meus olhos, o brilho mesquinho, os músculos dispostos a formar o ar  daquele personagem tonto e fútil que há em todo consumidor. Eu era um consumidor e ele havia percebido isso!

E, agora, como esquecer aquele sorriso escandaloso, luxurioso, indecente, aberto em meia-lua púrpura e, desde a sua libré encarnada em panos cinzentos e sem viço, usurpador? Como afrontar aquele sorriso de caçador satisfeito e de certa forma compadecido, de quem vê a caça que, tão ingenuamente, tão ridiculamente, procurava abrigo em meio aos arbustos? Recorrer a uma adaga mágica e magicamente cortar-lhe o sorriso e expô-lo em praça pública para que sirva de exemplo? Não, claro que não. Apressar o passo, maldizendo-o por todo o caminho e arrastando panos e mais panos, tiras e tiras de seda e, se possível, abrir a sombrinha de um golpe seco e preciso, apoiando-a levemente em meus ombros e virando-lhe as costas e a existência inteira? Sim, eis a única solução coerente.

Maldito guarda. Será que não sabe que vivo de sutilezas, de precauções, de um complicado cálculo de equilíbrios e desequilíbrios, movendo cuidadosamente pesos de cobre sobre o tabuleiro? Pois desde então, quando recebo o comprovante do atendente do caixa, eu amasso imediatamente e atiro no lixo, que é para mostrar quem manda. O guarda que se cuide. Ou ele pensa que meu repertório é limitado como o deles, sim, eles, os outros, o resto? Aqui, minhas bandanas! Aqui, minhas caixas de lenço! Aqui, as escrituras de minas do Oeste, dos bordéis em Saint Louis, dos escritórios em Boston e Chicago! E eis meu arcabuz: quando eu terminar de carregá-lo, verá, meu senhor, a potência e alcance que tem.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Mas - oh - não vá ainda

Mas - oh - não vá ainda. Tal qual a condessa de Báthory, percebo que suas lágrimas ao molhar-me rejuvenescem a pele. E conta-me - retenho-te - a tua triste história, que de nossos defeitos não nos envergonharemos. Mais além - não vês? - desta janela, entre pomares de neve eu também cantei. E calvos senhores então me olhavam, e de meus sapatos enlameados ralhavam desde o pórtico até as escadarias que ascendiam ao meu quarto. E não era eu que limparia as pegadas; em tais templos, seres como nós somos mais do que espíritos, pois até mesmo os espíritos um dia neste mundo de um esfregão estiveram ocupados. Nossa condição é maior e mais difícil de entender. Somos, talvez, canalhas, e nessa cadeira em que te sentas sou obrigado a ver senão igualmente um canalha. Há algo de madeira em nós, não ossos; de palha sob estes panos, não carne. E em nossos olhos, algo opaco, como se em seu lugar houvessem posto cascas de noz. É assim que talvez nos vejam. Mas, neste camarim, deles estamos seguros, e por isso não deixa de esvaziar-te essas sombras movediças do peito: somos como naus antigas, anacrônicas, bruxuleando entre padarias e salas de aula. Não temos fim: que somos? Somos um pente, um banho. Se entramos em um supermercado, somos seus corredores, seus carrinhos vazios, o estrépito agourento de quando se encaixam. Se lemos algo, sua história absorve-nos por completo. É necessário que nos transformemos em arcos e pilastras antes que nos digam que deste Reino não poderemos beber. Não temos existência e no mundo nos dissolvemos. Mas - oh - não pare de teu pranto. Contar-te-ei ainda coisas mais tristes, histórias de soldados, de moços jovens que morrem em gaiolas, de moças pequenas abandonadas no ralo da pia; de países assolados pela desesperança e colinas em chamas, de florestas onde sempre é outono e onde cachorros farejam por coelhos que há muito foram extintos. Cutucar-te-ei até que tuas lágrimas cheguem ao fim, e de ti nada mais reste. Ouves esse barulho lá fora? Estão lavando nossas culpas; seus esfregões trabalham incansavelmente; estão jogando baldes de água - ou mais bem ácido - sobre nossas pegadas. Nada disso que fazemos é necessário. Para quê? De nossa beleza então fazemos nossa glória. Vês nossos rostos no espelho da penteadeira? É terrível, eu sei. Estamos cada vez mais belos. Ah, sim! É horrível aquilo que nos reserva a existência inútil. Mas não se preocupe: eu sustentarei o teu rosto desfeito em minhas mãos delgadas e frias e, sem dizer-nos palavra alguma, tudo cessará. Então, quando irromperem por esta porta, surpreender-se-ão por não mais encontrar-nos. Em nossos lugares, verão pássaros empalhados, de plumas coloridas e olhos de um brilho que, sem deixar de ser bem um brilho, aos seus olhos afigurar-se-iam tristemente baços. E eles mexerão em nossas coisas, em nossos baús, brincarão com nossos escritos e nossas roupas finas: nós ainda poderemos assisti-los. Mas não se preocupe, pois até mesmo isso terá seu fim.

Rápido, a pedra!

Há uma cena em Dragon Ball Z em que Babidi está prestes a ser destruído por um colérico Piccolo. Não me lembro dos detalhes, apenas disso: um arruinado, ensangüentado, esbugalhado e empoeirado Piccolo, contraindo todos os músculos de seu corpo e espírito, aos urros e gemidos, em toda a concentração animalesca de sua energia vital e a do universo, espasma suas garras virulentas de onde um potente raio amarelo tenta, penosamente, atravessar o escudo mágico que Babidi havia convocado murmurando, tão singelamente, "proteção". Um verdadeiro ator da burocracia.

Essa cena é o paradigma da minha vida. Resume, de certa forma, o meu temperamento e o meu ideal. Os poderes de Piccolo provém de sua condição animal; é a conversão de sua força física em energia luminosa, não sem antes a custo de muita luta e sofrimento. O universo plasma-se em um cone imensurável desde a palma da mão de Piccolo até as galáxias mais distantes, pois Piccolo é o próprio Universo, a própria vida: está condicionado à matéria, às suas vicissitudes e transformações; é ele próprio a degradação e a dor. E, como resultado, seu poder é muito superior, ao menos quantitativamente, ao de Babidi.

Já os poderes de Babidi não são outra coisa que não mágica. São fórmulas, sentenças capazes de manipular a realidade. Seu uso não implica em gasto, cólera ou destruição, pois esses atalhos, capazes de levar o mago de um extremo ao outro de maneira instantânea e segura, não são criações nem implicam qualquer transformação. Já estavam ali, e tudo o que Babidi precisa fazer é descobri-los, conhecê-los e, assim, dominá-los. Babidi não cria leis, apenas as conhece e as usa. Diferentemente de Piccolo, um mago não distorce o Universo: de seu emaranhado de gravetos, um mago puxa-os para si ao seu talante sem fazer desmoronar a pilha. Parece contraditório, mas Babidi, de alguma forma, é capaz de sair sereno e limpo.

E, bom, aonde eu quero chegar com isso? Acontece que, de ambos, o único que sai intacto é Babidi. Piccolo, ao fundir os elementos do universo, destrói a si mesmo. Babidi, ao contrário, conservando-o, é capaz de preservar-se, e mesmo que, tal como Piccolo, sua ação desencadeie as forças naturais, com elas não se identifica, pois as manipula desde um ponto externo sem que se imiscua o mago. Piccolo, ao contrário, age como um conversor de energia, e, no final das contas, não é ele muito diferente de uma estrela ou de qualquer outro elemento do universo  (não lembro se Piccolo destruiu o escudo; o que não não vem ao caso).